• Autor
  • O Blog

vicio da poesia

Monthly Archives: Setembro 2010

As canções de Bilitis

24 Sexta-feira Set 2010

Posted by viciodapoesia in A mulher imaginada

≈ Deixe um comentário

Etiquetas

Maria gabriela Llansol, Pierre Louys

Continuo com a biblioteca em grande parte encaixotada, o que cria as maiores dificuldades em alimentar esta conversa que nos entretém.

Regressado de férias, uma rotura na tubagem de água quente obrigou-me a empacotar à pressa os livros.

Passadas as obras e seus percalços, rearrumar os livros é tarefa de remontar bicicleta depois de desmanchada, sobram sempre peças, ou seja, sobram livros, ou o espaço encolheu.

Empurrados que estavam em várias camadas, tantas vezes arrumados por tamanhos para preencher qualquer espaço vazio, agora, ao retirá-los das caixas deu-me a veleidade de os dispor com critério e acessíveis. Consequência: a menos de metade das caixas esvaziadas tenho as estantes cheias e olho com impotência para as pilhas das que continuam fechadas cada vez que uma dúvida ou a verificação de um detalhe relacionado com o que queria escrever me faz ir à procura de um livro e deparo com aquele branco em colunas do chão ao tecto. A coisa não tem fim fácil à vista, e para alimentar o meu gozo de escrever para o blog e satisfazer a curiosidade dos visitantes, estreito o leque de ideias ao tamanho da informação acessível.

Hoje bem gostaria de envolver As Canções de Bilitis sobre que tenciono debruçar-me, com considerações a propósito de outras obras eróticas de Pierre Louys publicadas em português, mas não me posso fiar na memória para questões factuais, e os livros encontram-se prisioneiros das caixas brancas. Seria uma edição francesa ilustrada de Afrodite e uma recente tradução portuguesa da obra, seria o Manual de Civilidade para Meninas ilustrado de forma saborosa e original por Pedro Proença, seriam dois outros textos eróticos publicados pela Teorema há um ror de anos, de que não me recordo do título em português e eventualmente algum outro que agora à memória não me ocorre.

Temos, pois, que Les Chansons de Bilitis (1894) foram agora publicadas na integra pela Relógio D’Água em edição bilingue com tradução de Maria Gabriela Llansol, e o peregrino título de O Sexo de Ler de Bilitis.

Qual lésbica que timidamente se desnuda, no prefácio a tradutora pretende ensinar-nos a ler o que vem a seguir. No entanto parece ser dela que nos fala e de como o sexo a perturba “mas houve sempre outras – um rosto de que apenas se vê um olhar a olhar-nos no rectrovisor da sua beleza, dedos que seguram uma alça deslizante e que, a deslizar, desnudaria um seio firme de garça inocente, o estádio final das formas opulentas, outrora tão frágeis que nos vergavam ao seu desejo…” nesta deliberadamente hermética prefação com que faz acompanhar a sua excelente tradução.

Apresentados lado a lado o poema original à esquerda e a respectiva tradução à direita, podemos acompanhar e saborear as soluções encontradas e fruir, no enlevo de uma noite, o sabor do sexo de ler.

Começamos por acompanhar Bilitis e encontramos o seu retrato no poema XXXVIII

BILITIS

Uma mulher veste-se de lã branca. Outra

veste-se de seda e ouro. Uma outra cobre-se

de flores, de folhas verdes e de cachos d’uva.


Eu só sei viver nua. Meu amante, toma-me como sou:

sem roupas, jóias ou sandálias. Eis a tua Bilitis toda,

desmunida e só.


Meus cabelos são negros de seu negro, e meus lábios

carmins de seu carmim. Meus caracóis flutuam

à volta de mim, livres e redondos como penas.


Toma-me tal como minha mãe me fez, numa noite

de amor longínqua. E se te agradar como sou,

não te esqueças de mo dizer.



Na criança e adolescente que lemos crescer desde o inicio, encontramos mais tarde a presença do desejo naquele poema XLIV  A NOITE

…

... Aurora que despontas, ó nefasta claridade, já estás aí?

Em que covil eternamente nocturno, em que prado subterrâneo,

nos poderemos amar sem fim e perder, enfim,

a memória de que existe lá fora?


Também aqui amar é … perder a memória de que existe lá fora.

Três destes poemas foram musicados por Debussy e são uma obra-prima do reportório clássico. No entanto raramente se ouvem em concerto, o que não é difícil de perceber.

Imagine-se a austeridade de um piano de cauda num palco despojado, uma senhora vestida de gala em pé frente ao piano perante uma plateia as mais das vezes snob e empertigada, a certa altura cantar … entrares em mim como o meu sonho.

Não é qualquer cantora que se atreve, conhecido que é o contexto do desejo manifestado. Daí que quem gosta destas canções fique remetido ao disco onde, diga-se, as interpretação também não abundam.

Levado pela leitura dos poemas fui-me às prateleiras dos discos à procura das canções, sempre uma pequeníssima parte dos programas gravados. Sabia que a minha adorada Cathy Berberian tinha a coragem de incluir nos seus recitais, a maior parte das vezes, estas canções, e na verdade encontrei-as num recital de 1975 e noutro de 1980. Ambos quase sem alterações interpretativas a menos da voz um pouco gasta em 1980. Em pouco mais de 8 minutos são emoção pura concentrada, de resto como tudo o que esta fabulosa voz cantava.

Musa da Beat Genetration e da Pop Art nova-iorquina de finais dos anos 60, foi campeã das vanguardas musicais da época, tanto na musica nova como na musica antiga que então se redescobria com novas e “autenticas” práticas interpretativas, e onde deu voz às heroinas de Monteverdi, então quase desconhecidas e hoje tão familiares.

Ouvi-lhe a voz pela primeira vez na rádio a cantar uma Sequenza de Berio, com quem foi casada, suponho, e que lhe foi dedicada. Tenho hoje ainda presente a estupefacção da minha reacção ao passar ao lado do rádio, ouvir, e ficar parado, de pé, enquanto durou. Regressei aos seus discos agora com o encanto maravilhado de outrora.

Mas voltemos a Bilitis.

Os acontecimentos sucedem-se à medida que avançamos no livro  Pouco depois do desejo manifestado acima, temos um encontro de conselhos no poema L:


OS CONSELHOS

Então Syllikmas entrou e, vendo-nos tão à vontade,

sentou-se num banco. Sentou Glótis num dos seus joelhos,

e Kisé, no outro. Disse:


“Chega aqui, pequena.” Mas eu, se longe estava, longe fiquei.

Ela insistiu: “tens medo de nós? Aproxima-te:

estas duas adoram-te. Ensinar-te-ão o que ignoras.

o mel das caricias de uma mulher.


O homem é violento e preguiçoso.

Não é coisa que ignores, certamente. Odeia-o.

Tem o peito achatado, a pele áspera, os cabelos rapados,

os braços peludos. As mulheres, pelo contrário,

são belas dos pés à cabeça.


Só as mulheres sabem amar. Fica connosco,

Bilitis, não te vás embora. E, se tiveres uma alma intensa,

verás, como num espelho, tua beleza projectada

no corpo das que te amarem”.


A aprendizagem da vida pelo sexo prossegue até ao Último epitáfio (poema CLVIII), eu suspendo aqui o passeio.

P.S. Os poemas postos em musica por Debussy foram os nºs XXX, XXXI e XLVI.

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

Dá o desejo poesia – O Japão no feminino

21 Terça-feira Set 2010

Posted by viciodapoesia in Poesia Japonesa

≈ 2 comentários

Etiquetas

Haiku, ISUMI SHIKIBU, ONO NO KOMACHI, Poesia Japonesa, Tanka

 

 

 

Atrai-me e confunde-me a arte japonesa. Para um gosto formado na estética ocidental há uma sensibilidade plástica que nos é estranha mas mantém uma enorme sedução.

A literatura, e sobretudo a poesia, para um leitor desconhecedor do japonês e da sua cultura, revela-se ora inacessível ora deslumbrante, dependendo de quem e como a transpôs para a língua em que a encontramos.

Faço hoje uma viagem no tempo pela mão das traduções de Luísa Freire, poetisa ela própria e tradutora notável dos poemas ingleses de Fernando Pessoa, visitando a poesia japonesa escrita no feminino entre os séculos IX e XI.

 

São poemas de duas poetisas, ONO NO KOMACHI (834? – ?) e ISUMI SHIKIBU (974? – 1034?), a primeira uma figura lendária na história literária do Japão, a segunda a maior poeta  do país – nas palavras da tradutora

 

Os poemas dispensam comentários e saboreiam-se sem mediação interpretativa. A escolha é pessoal e aí vai:

 

ONO NO KOMACHI (834? – ?)

O meu desejo de ti

é forte para contê-lo –

assim ninguém vai culpar-me

se à noite for ter contigo

pela estrada de meus sonhos.

 

Não há como vê-lo

nesta noite sem luar –

estou deitada e desperta,

os seios ardendo em desejo

e o coração em chamas.

 

 

Pensei ter colhido

a flor do esquecimento [*]

só para mim mesma;

mas encontrei-a a crescer

também no coração dele.

 

[*] wasuregusa, a palavra japonesa do poema que significa “flor do esquecimento” é o equivalente inglês de “forget-me-not” ou do português “amor-perfeito” – a subtileza decorrente da duplicidade do sentido do poema consoante seja lido na sua literalidade de metáfora ou na significação do real, é um exemplo esplendoroso da beleza inspirada desta poesia onde a concisão se desdobra numa multiplicidade de emoções e sentimentos.

 

 

Escolho agora de ISUMI SHIKIBU (974? – 1034?) apenas alguns poemas de solidão e desejo, com uma que outra amarga reflexão, deixando de fora poemas onde a presença do efémero na natureza transmite, de forma singular, a vulnerabilidade do viver:

 

Se o cavalo dele

tivesse sido domado

pela minha mão –

eu tê-lo-ia ensinado

a não seguir mais ninguém.

 

 

Mesmo quando um rio

de lágrimas atravessa

e molha este corpo,

não chega para apagar

todo o fogo do amor.

 

 

Porque não terei

pensado nisto já antes?

Este corpo meu

ao recordar tanto o teu

tem a marca que deixaste.

 

 

Penso: “nos meus sonhos

poderemos encontra-nos” …

Virando a almofada,

eu ando às voltas na cama

incapaz de adormecer.

 

 

Consumi o corpo

a desejar o regresso

do que não voltou.

É agora um vale profundo

o que foi meu coração

 

Deixada aqui

a envelhecer no mundo

sem ti ao meu lado,

as flores perdem a beleza

tingidas de negra cor.

 

 

A forma poética de todos os poemas é conhecida como TANKA – poema de 31 sílabas em japonês, mais extensa que HAIKU com apenas 17 sílabas.

Como informa a tradutora, às 31 sílabas japonesas de apresentação vertical dos TANKA, fez corresponder uma tradução – a partir da versão inglesa dos poemas – de 5 versos metricamente alternantes de 5, 7, 5, 7, 7 sílabas, tentando corresponder ao registo sonoro original

 

Os poemas encontram-se no livro  O Japão no Feminino – I – Tanka  poesia dos séculos IX a XI, publicado por Assírio & Alvim  em 2007 com organização e versão portuguesa de Luísa Freire.

 

Para o leitor curioso lembro o link Gravura Japonesa disponível no BLOGROLL  com um pequeno grupo de gravura japonesa, o qual, sempre que a disponibilidade o permitir, acrescentarei com alguma novidade.

 

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

Entre a Idade Média e Jorge de Sena, uma questão de lingua

10 Sexta-feira Set 2010

Posted by viciodapoesia in Crónicas, Poesia Antiga

≈ Deixe um comentário

Etiquetas

João Airas de Santiago, João Garcia de Guilhade, João Soares Coelho, Jorge de Sena, Natália Correia

Iluminura 06x500

A linguagem do amor tem na língua o seu principal trunfo e por vezes um grande problema, isto quando, por vergonha, gestos de proverbial eficácia são afastados do horizonte da comunicação. Raramente apenas a linguagem dos dedos constitui um substituto eficaz. No entanto, a combinação de ambos pode traduzir-se num sortilégio de afrodisíaco efeito.

O detalhe do percurso da língua é seguramente mais adequado para um menu e aqui pretenderemos apenas abordar questões de léxico, sem procurar pôr em evidência a sumptuosa satisfação que o sabor da língua pode provocar.

Há palavras que se deixam pronunciar melhor que outras, e do encontro de línguas resulta muitas vezes uma linguagem de desejo em que o fogo surge, qual fósforo sobre palha seca, conseguindo mesmo humedecer zonas onde a língua depois passeia com efeito avassalador.

Muitas vezes não há palavras para descrever o êxtase, outras, a conotação obscura inibe os protagonistas do uso da lingua de as aplicar.

Um inventário exaustivo de palavras portuguesas de origem erudita ou vulgar para retratar todas estas actividades do amor, reduz-se ao parco conjunto que todos conhecem. Menos lhes conhecerão a antiguidade.

Na verdade, depois das palavras antigas, usadas sem alteração durante séculos, apenas a lingua francesa trouxe alguma frescura e sofisticação a uma actividade que vivia quase sem palavras.

Socorro-me de dois poemas de João Garcia de Guilhade incluídos no Cancioneiro Medieval – Cantigas de Escarnio e Maldizer, para ilustrar a antiguidade de cono e foder

Poema 166

Martim jograr, que gram cousa:

já sempre com vosco pousa

vossa molher!


Vedes m’andar morrendo,

e vós jazedes fodendo

vossa molher!


De meu mal nom vos doedes,

e moir’eu, e vós fodedes

vossa molher!



Poema 167

Martim jograr, ai Dona Maria,

jeita-se vosco já cada dia,

e lazero-m’eu mal


And’eu morrend’e morrendo sejo,

e el tem sempr’o cono sobejo,

e lazero-m’eu mal


Da mia lazeira pouco se sente;

fod’el bom con[o] e jaz caente,

e lazero-m’eu mal.


Acrescento este outro de João Soares Coelho a propósito de impotência masculina, talvez causada por doença venérea como defende o trovador:

Poema 198

Luzia Sánchez, jazedes em gram falha

comigo, que nom fodo mais nemigalha [nemigalha/d’ua vez – nunca mais de uma vez]

d’ua vez; e, pois fodo, se Deus mi valha

fiqu’end’afrontado bem por tercer dia.

Par Deus, Luzia Sánchez, Dona Luzia,

se eu foder-vos podesse, foder-vos-ia.


Vejo-vos jazer migo muit’aguada,

Luzia Sánchez, porque nom fodo nada;

mais se eu vos per i houvesse pagada,

pois eu foder nomposso, peer-vos-ia.   [peer – peidar]

Par Deus, Luzia Sánchez, Dona Luzia,

se eu foder-vos podesse, foder-vos-ia.


Deu-mi o Demo esta pissuça cativa,

que já nom pode sol cospir saíva

e, de pram, semelha mais morta ca viva,

e se lh’ardess’a casa, nom s’ergeria.

Par Deus, Luzia Sánchez, Dona Luzia,

se eu foder-vos podesse, foder-vos-ia.


Deitarom-vos comigo os meus pecados;

cuidades de mi preitos tam desguisados,

cuidades dos colhões, que tragu’inchados,

ca o som com foder e é com maloutia  [doenças (venéreas)]

Par Deus, Luzia Sánchez, Dona Luzia,

se eu foder-vos podesse, foder-vos-ia.


e aqui encontramos “aguada” para tesão e colhões sem modificação. Aparece-nos ainda “pissuça” para pénis, provavelmente forma anterior da piça de hoje que os franceses também aproveitam levando mais longe o termo com o verbo “pisser” para urinar.

As palavras são poucas mas o acervo é vasto pelo que apenas transcrevo mais um poema deste mesmo João Soares Coelho em que parece tratar de um adultério, ainda que a controvérsia exista entre especialistas

Poema 192

Joam Fernándiz, mentr’eu vosc’houver

aquest’amor que hoj’eu com vosqu’hei,

nunca vos eu tal cousa negarei

qual hoj’eu ouço pela terra dizer:

dizem que fode quanto mais foder

pode o vosso mouro a vossa molher.


[E] pero que foss’este mouro meu

já me teria eu por desleal,

Joam Fernándiz, se vos negass’eu

atal cousa qual dizem que vos faz:

ladinho como vós jazedes, jaz

com vossa molher, e m’end’é mal.


E direi-vos eu quant’en vimos nós:

vimos ao vosso mouro filhar

a vossa molher e foi-a deitar

no vosso leit’; e mais vos eu direi

quant’eu do mour[o] aprendi e sei:

fode-a como a fodedes vós.


Perante tantas das palavras dos poemas modificadas ou caídas em desuso com a evolução da língua, espanta como em mais de 700 anos, esta meia-duzia ligada ao sexo permanece inalterada.

Na verdade, no que à linguagem do amor respeita, existem no português moderno tanto limitações de léxico como limitações de formas verbais.

Os verbos enquanto formas linguísticas de expressão da acção, são não só poucos como insuficientes para cobrir em português todas as praticas sexuais conhecidas, deixando assim a língua impossibilitada de transmitir aspectos essenciais da actividade humana com a ênfase, o rigor e a precisão adequados.

Exemplificarei algumas dessas limitações com a actividade sexual mais vulgar, a união dos sexos de duas pessoas. Chamam-lhe pudicamente (?) “fazer amor”. Ora quem ama sabe que o amor não se faz. Nasce, surge, acontece, existe e extingue-se, mas não se faz. Ao que em português agora se chama fazer amor deveria dar-se outro nome.

Escrever a frase  “depois daquela tragédia precisava fazer amor não importava com quem” ou a frase “depois daquela tragédia precisava foder não importava com quem” não são uma e a mesma frase. Em amor, o que importa é com quem. É até a única coisa que importa, daí a desadequação da expressão neste contexto.

A expressão poderá ser aceite em poucas situações. Por exemplo: em publico, dois amantes entreolham-se e a intimidade do olhar permitirá dizer – Vamos fazer? Amor. E aqui “fazer” substitui “foder” num contexto de obsceno interdito.

O problema com a palavra foder para designar esta actividade prende-se com o significado de insulto que também reveste na expressão “vai-te foder” que mancha a união sexual voluntária de duas pessoas com um estigma soez.

Regresso  às Cantigas de Escárnio e Maldizer e a João Garcia de Guilhade para ilustrar estes dois significados de foder – fornicar e lixar. De acordo com Graça Videira Lopes o significado “lixar” deve até ser a primeira leitura do poema:

Poema 164

Elvira lópez, que mal vos sabedes

vós guardar sempre daqueste peom

que pousa vosc[o], e há coraçom

de tousar vosqu’, e vós nom lh’entendedes;

hei mui gram medo de xi vos colher

algur senlheira; e se vos foder, [senlheira – sózinha]

o engano nunca lho provaredes.


O peom sabe sempr’u vós jazedes,

e nom vos sabedes dele guardar

siquer poedes [em] cada logar

vossa maeta o quanto tragedes; [maeta – maleta]

e dized’ora, se Deus vos perdom:

se de noite vos foder o peom,

contra qual parte o demandaredes?


Direi-vos ora como ficardes

deste peom, que tragedes assi

vosco, pousando aqui e ali:

e vós já quando que ar dormiredes

e o peom, se coraçom houver

de foder, foder-vos-á, se quiser,

e nunca del[e] o vosso haveredes.


Ca vos diredes: – Fodeu-m’o peom!

E el dirá: – Boa dona, eu nom!

E u las provas que [vós] lhi daredes?


Tratados que estamos com a antiguidade do foder, temos ainda o caso da palavra fornicação, ou do verbo fornicar, ou então a palavra coito, da qual nem sei se se aplica coitar, pois coito reveste um significado de passado ex: ”houve coito ou não?” e aí é quase uma inquirição policial. Imagine-se o leitor a pensar “esta noite vou coitar com o meu amor”, que tal?

Voltando a fornicação ou fornicar são qualquer delas palavras monstruosas para referir uma actividade magnífica.

Não obstante  fornicação evocar algum contorcionismo, falta-lhe, no entanto, o calor envolvente que caracteriza o acto. Dificilmente se consegue aceitar “que boa fornicação” e então “esta noite sonhei que fornicava a Marylin Monroe” não é sonho que se descreva por estas palavras.

Mas este deambular trazia como propósito a elucidação de que felizmente o francês nos socorreu com a adequada palavra para a actividade sexual envolvendo a língua, sendo certamente incerto que alguém, mesmo com propensão erudita, manifeste em voz alta desejo daquele cunilinguus de tão dificil pronuncia. A tempo o francês  com a sua minette resolveu-nos o problema da forma que Jorge de Sena nos esclarece como segue:

EM LOUVOR DA LÍNGUA PORTUGUESA

Tão forte e tão hipócrita que até

usa nome francês para dizer

o que – heroicamente – faz

todos os dias

à cona da mãe.

É a esta actividade que durante largo tempo a humanidade ocidental chamou “beijo impudico” ainda que não deixasse de o praticar. E é de novo das Cantigas de Escárnio e Maldizer que me socorro  para deixar aqui um poema sobre este mesmo cunilinguus chamado, desta vez da autoria de João Airas de Santiago


Poema 144

Dom Beeito, home duro,

foi beijar pelo obscuro

a mia senhor.


Come home aventurado,

foi beijar pelo furado

a mia senhor.


Vedes que gran desventura:

beijou pela fendedura

a mia senhor.


Vedes que moi grand’abaco:

foi beijar polo buraco

a mia senhor.


A editora do poema aventa a qualificação de home duro feita pelo trovador a D. Beito como hipótese de ironia à sua impotência. É provavelmente uma interpretação restritiva na medida em que desconhecemos qual a conotação em termos da imagem da masculinidade, que o “beijo impudico” revestia, não obstante a controvérsia entre trovadores sobre o assunto conhecida como “affaire Cornilh (1161)”, a qual modernas interpretações defendem que afinal respeita ao desejo de Madame Ayma ser primeiro lambida no cu para conceder os seus favores a Bernatz de Cornilh.

Sabendo que questões de língua devem ser um prazer interminável e não uma sensaboria fico-me por aqui, esquecendo controvérsias de especialistas e questões teóricas em torno da leitura destes poemas.

Uma leitura mais profícua exige um comentário em contexto com as características e temas destas composições. Os leitores interessados encontram-nos nas publicações de especialistas. Neste artigo apenas a curiosidade da linguagem ditou a escolha. Deixo agora a nota bibliográfica que é de justiça.

Noticia bio-bibliográfica

Encontramos noticia sobre a vida e obra dos nossos trovadores no Dicionário da Literatura Medieval Galega e Portuguesa, publicado em 2ª edição pela Editorial Caminho em 2000.

Aí, sob as entradas Johan Airas de Santiago e Johan Garcia de Guilhade, encontramos detalhada informação sobre a obra de ambos e algumas circunstância biográficas conhecidas.

Importa aqui reter que ambos são poetas vivendo no sécul XIII, a compor ao tempo de Afonso X de Castela e do nosso rei D.Dinis, sendo substancialmente mais novos que este. De Johan Garcia de Guilhade sabe-se que é já adulto em 1239.

Nas trancrições  dos poemas medievais usei a edição de Graça Vieira Lopes das Cantigas de Escárnio e Maldizer, publicada pela Editorial Estampa em 2002, no âmbito da colecção Obras Clássicas da Literatura Portuguesa. A numeração que identifica os poemas neste artigo é a atribuída nesta edição.

O poema de Jorge de Sena integra o ciclo “EM LOUVOR DA BOA LINGUAGEM” publicado postumamente em 1980 por Moraes Editores na sua colecção Circulo de Poesia, e inserido no livro SEQUÊNCIAS.

Em nota final deixo a versão de Natália Correia do poema 166 em português moderno publicado por esta em 1965, na nunca demais elogiada Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica:

Martim jogral, que defeita,

sempre convosco se deita

vossa mulher!


Vedes-me andar suspirando;

e vós deitado, gozando

vossa mulher!


Do meu mal não vos doeis;

morro eu e vós fodeis

vossa mulher!

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

Visitas ao Blog

  • 2.369.915 hits

Introduza o seu endereço de email para seguir este blog. Receberá notificação de novos artigos por email.

Junte-se a 898 outros subscritores

Página inicial

  • Ir para a Página Inicial

Posts + populares

  • Vozes dos Animais - poema de Pedro Diniz
  • Prazeres — de Brecht a Lucrécio
  • Eugénio de Andrade — Green god

Artigos Recentes

  • Sonetos atribuíveis ao Infante D. Luís
  • Oh doce noite! Oh cama venturosa!— Anónimo espanhol do siglo de oro
  • Um poema de Salvador Espriu

Arquivos

Categorias

Site no WordPress.com.

Privacy & Cookies: This site uses cookies. By continuing to use this website, you agree to their use.
To find out more, including how to control cookies, see here: Cookie Policy
  • Subscrever Subscrito
    • vicio da poesia
    • Junte-se a 898 outros subscritores
    • Already have a WordPress.com account? Log in now.
    • vicio da poesia
    • Subscrever Subscrito
    • Registar
    • Iniciar sessão
    • Denunciar este conteúdo
    • Ver Site no Leitor
    • Manage subscriptions
    • Minimizar esta barra
 

A carregar comentários...
 

    %d