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Piquenique ao tempo de Hesíodo

19 Terça-feira Jul 2016

Posted by viciodapoesia in Crónicas, Poesia Grega

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Hesíodo, Pieter Bruegel o Velho

A ceifa do trigo detalhe 500pxNuma daquelas reportagens de encher tempo de antena, um canal televisivo dava conta dos propósitos e ementa de uma família portuguesa para aproveitar o calor de um dia de verão: fazer piquenique ao almoço e gozar os prazeres do descanso à sombra e ao ar livre.

 

O gosto de ir ao encontro da natureza em dias de verão é de todos os tempos e dele a literatura tem feito abundante eco. Para ler com enorme prazer e enfrentar o calor, podem servir as narrativas do Decameron de Bocaccio, mas para poesia, e por forma a dar uma dimensão razoável ao artigo, recuo bastante mais no tempo, às origens gregas da poesia, com a narrativa que Hesíodo (sec. VIII a.C.) faz em Trabalhos e Dias, do desejo de piquenique no calor de um dia de verão.

 

Se a nossa família portuguesa ia carregada de carne, enchidos, porco para grelhar, e vinho para beber, a ementa desejada por Hesíodo difere tão só na qualidade das proteínas escolhidas, fazendo dela uma refeição mais próxima do dietecticamente recomendável pelos padrões de hoje. Vistos os quase três mil anos que os separam, desejos e seu conteúdo, quão pouco mudou no que de essencial a natureza humana tem. Se não, leiam:

 

 

 

O verão

Quando o cardo floresce e a ruidosa cigarra
pousada nas árvores espalha o seu canto estridente,
com o contínuo bater das asas, nos penosos dias de verão,
as cabras estão então mais gordas e é melhor o vinho,
mais lascivas as mulheres e mais frágeis os homens,
quando Sírio esquenta a cabeça e os joelhos
e, sob o efeito do calor, a pele se torna seca.
Pudesse ao menos eu ter a sombra dum rochedo
e vinho bíblino, uma bolacha e leite
das cabras que não aleitam os filhos, um pedaço
de carne de vitela alimentada nos bosques,
que ainda não teve crias, e de cabrito
recém-nascido. E, por cima, para saborear
o vinho flamejante, que possa deitar-me à sombra,
com o coração saciado de comida e o rosto
voltado contra o forte sopro do Zéfiro,
tirar três vezes água duma fonte cristalina
e misturar-lhe uma quarta parte de vinho.

Trabalhos e Dias, 582-596

 

Transcrito de Antologia da Poesia Grega Clássica, tradução e notas complementares de Albano Martins, Edições Afrontamento, 2011.

 

 

Abre o artigo a imagem do detalhe de uma pintura  Pietr Bruegel o Velho (1525-1569) conhecido por Colheita de Trigo.

 

Há anos (2012), por esta época, transcrevi aqui no blog este mesmo fragmento de Hesíodo mas numa tradução de José Ribeiro Ferreira. As ligeiras diferenças nas opções de vocabulário não alteram o mérito de qualquer das traduções.

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Poemas para o verão: Hesíodo (séc VIII a.C,) a abrir

26 Quinta-feira Jul 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga, Poesia Grega

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Abel Grimmer, Bruegel, Hesíodo

Verão, quando é “o vinho melhor / mais ardentes as mulheres e moles os homens;” segundo a sabedoria de Hesíodo nos seus mais de 2700 anos, é também tempo de poesia. E para este Verão reuni um grupo variado de poemas onde, da Rússia à América, a estação nos surge.

Dou a primazia a um fragmento do poema Trabalhos e Dias de Hesíodo (séc VIII a.C,) o mais antigo poeta grego cujo nome se conhece, e bastas vezes referido no blog.

Quando o cardo floresce e a sonora cigarra,
pousada nas árvores, espalha o melodioso canto,
pela fricção das asas, na penosa estação do calor,
nessa altura são mais gordas as cabras e o vinho melhor,
mais ardentes as mulheres e moles os homens;
Siriús abrasa-lhes a cabeça e os joelhos,
fica-lhes ressequida a pele pelo calor. É tempo então
de gozar a sombra de uma rocha, o vinho bíblino,
um pão de qualidade, leite de cabra que já não amamenta,
carne de vitela apascentada nos bosques, que ainda não pariu,
e de cabritos tenros. Bebe então o vinho rubro,
sentado à sombra, saciado o coração com o festim,
o rosto voltado de frente para a frescura do Zéfiro;
e de uma fonte que corre perene e límpida,
deita três partes de água e a quarta de vinho

Trabalhos e Dias (582-596)
Tradução de José Ribeiro Ferreira
Edição INCM, Lisboa 2005

A abrir o artigo vem um desenho de Bruegel (1525-1569) conhecido por Verão.

Termino com a pintura de um seguidor, Abel Grimmer (1570-1619) – Verão, feita provavelmente meio século mais tarde.

Veja o leitor as diferenças como exercício de Verão.

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Trabalhos e Dias

07 Quinta-feira Out 2010

Posted by viciodapoesia in Crónicas, Poesia Grega

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Hesíodo

 

 

É urbana a minha memória dos cheiros da terra. São, nos mercados as bancas da hortaliça se por acaso entre elas despontam ervas aromáticas: coentro, salsa, hortelã; que me devolvem aquela espécie de segurança despreocupada apanágio da infância.

Quando, chegado Outubro, acontecia a feira anual de sementes, frutos secos e gado, bujigangas e figurinhas de barro para o presépio à mistura,  em grandes sacos de serrapilheira lá estavam –  peros: vermelhos, raiados, verdes, bravo d’esmolfe; e então, era a alegria num odor inebriante, talvez perdido para sempre.

É em vão que da prateleira do supermercado levo para casa bolinhas verdes a que chamam peros bravo d’esmolfe, pois aberto o saco, cheiro não há, e o sabor é vago a qualquer coisa indistinta.

Na volta do fim da tarde passei à porta da preciosa charcutaria de bairro e havia, em caixotes, cheirosos, peros bravo d’esmolfe. Entrei e comprei. As tâmaras da Tunísia e Israel, os figos da Turquia, nada disso ainda chegou, mas já há as frutas em açucar da abençoada fábrica Convento da Serra, de Elvas. Se até há uns anos eram as ameixas deles a minha perdição, desde que apareceram figos, não resisto. Com a minha paixão por figos em qualquer estádio, frescos, secos, com açucar, cristalizados, recheados  ou em doces os mais diversos, quase me sinto perto dos deuses do Olimpo de quem se diz alimentarem-se a figos e mel.

Na verdade é uma paixão vinda da mais tenra infância. Voltava eu da escola de aprender a ler, mal feitos os três anos, e ao passar em casa da bisavó corria para as algibeiras daqueles saiões rodados onde sempre havia figos secos e torrados. Mais tarde, era o caixote de madeira providenciado anualmente pelo meu avô para o inverno, cheio de figos arrumados às camadas separadas por pauzinhos de funcho, a fonte das delicias. Interrompia brincadeiras para amiúde ir buscar 1 ou 2 figos e o caixote com custo ultrapassava o Natal.

Como algures aqui escrevi, sou decididamente uma criatura do mediterrãneo. Neste folhear de memórias ocorre-me o prazer com que descobri o mercado das Ramblas em Barcelona, espectáculo único para os sentidos de qualquer gourmet, ou os passeios há 30 anos pelos mercados de rua nas cidades italianas, de Veneza a Nápoles, hoje praticamente inexistentes por milagre da nossa senhora da união.

O acaso das leituras cruzadas destes últimos dias conduziu-me ao mediterrâneo. Leio Orlando Ribeiro numa viagem fascinada pela paisagem, gentes e cultura. De um fôlego li a última história de mestre Camileri deambulada na Sicilia, e demoradamente caminho na edição de José Ribeiro Ferreira de Trabalhos e Dias de Hesíodo.

Na documentação que acompanha a tradução de Trabalhos e Dias encontro o esquema do arado descrito por Hesíodo e usado há mais de 2600 anos na Grécia. Na página seguinte do livro aparece o esquema do arado usado em pleno século XX na freguesia onde nasci e cresci em tudo semelhante ao arado grego da antiguidade.

Estas continuidades devolvem-me um sentido único de pertença a um mundo do qual gosto de guardar e transmitir a herança.

É Outubro, é mês de lavoura, tempo da passagem do grou pela Grécia vindo dos países nórdicos a caminho de África para aí hibernar e nos Trabalhos e Dias Hesíodo recomenda para esta altura:


…

Presta atenção, quando escutares o grito do grou,             448

no alto, entre nuvens, ele que seu lamento, ano a ano, repete:

dá-te o sinal do trabalho de lavra, a estação do inverno                   450

te anuncia, pluviosa, e punge o coração do que não tem bois.

Então engorda os bois de chifres recurvos, em casa.

Pois é fácil dizer: “empresta-me a junta de bois e o carro”;

mas fácil é também recusar: “ já há trabalho para os meus bois”.

O homem rico fala, em espírito, em construir um carro;                   455

louco, nem sequer sabe que cem são as peças desse carro,

as quais deve ele, primeiro, ter o cuidado de reunir em casa.

Logo que brilha para os mortais o tempo da lavoura,

aprestai-vos então em conjunto, escravos e tu próprio,

a arar a terra, seca ou húmida em cada estação da lavoura,           460

esforçando-te desde manhã, para que os campos produzam.

…

 


Talvez nesta eterna viagem algum dos grou de Hesíodo tenha transportado Nils Holgerssons na sua viagem maravilhosa.

Uma vez por outra sabe bem voltar à infância.

 

Noticia bibliográfica:

O fragmento transcrito do poema Trabalhos e Dias, de Hesíodo, foi retirado da edição conjunta de Teogonia e Trabalhos e Dias de Hesíodo, publicada pela Imprensa Nacional – Casa da Moeda em 2005 na colecção Biblioteca de Autores Clássicos e da responsabilidade de Ana Elias Pinheiro – Teogonia , e José Ribeiro Ferreira – Trabalhos e Dias.

 

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