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António Feliciano de Castilho e o macaco janota

31 Domingo Mar 2019

Posted by viciodapoesia in Poesia Portuguesa sec XIX

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António Feliciano de Castilho

Para recreio de alguns leitores que apreciam dar folga à transcendência, trago vez por outra, poesia de autores obscuros, uns, esquecidos e ilustres no seu tempo, outros.
Hoje uma ironia poética de António Feliciano de Castilho (1800 -1875), As Metamorfoses do Macaco.

No poema, António Feliciano de Castilho entretém-se, e nós com ele, a brincar com O Janota:

…
Mira-se, exulta. Só nota
Perfeições no todo seu.
Hoje chamam-lhe “janota”,
Bicho incógnito a Lineu.
(*)

 

Com elegância, para evitar o desprimor de alguns dos seus contemporâneos, A. F. Castilho evita um nome comum, chamando ao seu macaco janota, Jacó.

Servindo-se da sua proverbial mestria versificatória e rítmica, António Feliciano de Castilho dá-nos em quadras heptassilábicas de rima abab nunca repetida, uma pérola de graça e inocência satírica. Nele lemos uma caricatura acerba de quem se desgosta da sua pessoa e procura por todos os meios noutro se transformar.

Acrescento no final um pequeno glossário para elucidação de alguns vocábulos no poema que me pareceram de inteligência menos comum ao leitor de hoje, ainda que o seu significado decorra com facilidade da leitura.

 

 

As Metamorfoses do Macaco

Jacó, flor das raças monas
E aluno de um piemontês,
Fazia entre mil gaifonas
Coisas que o demo não fez.

Quanto via, arremedava
Por modo tão natural,
Que o piemontês lhe chamava
Daguerreótipo animal.

Se falasse assombraria;
Porém, mesmo sem falar,
Em toda a macacaria
Era um bichinho sem par.

Um dia em certa barraca
De uma feira, onde brilhou,
Com arte mais que velhaca,
Lustroso espelho empalmou.

Viu-se; pasmou. «Que diabo!
Pois eu tenho a cara assim?!
Ó bruxas, de mim dai cabo,
Ou condoei-vos de mim!

Machuchas mestras de tretas,
Se cabe em vós pio dó,
Deixai-me o dom das caretas,
No mais transformai Jacó.»

Bruxinha de génio gaio
Despachou-lhe a petição.
Eis, o mono, papagaio!
Eis nova consumição!

«O meu falar é mui rico!
Quanto às penas, guapo estou!
Mas este bico!… este bico!
Quem tal ratice inventou?!

Bruxa honrada! eu to aconselho,
Vá nova transformação.»
Diz: torna a encarar o espelho…
Vê-se estrelado pavão!

Espaneja-se garboso!
Ama-se; está como um dez.
Senão quando… ai, desditoso!
Repara… que horrendos pés!

Novo rogo impertinente:
«Por esta vez, e não mais»,
Diz a velha impaciente,
«Quero ceder aos teus ais.

Do que tu mesmo aprovaste
Nas três formas que te dei,
Para teu consolo baste,
Que esta final te armarei;

Terás as visagens ricas,
O papagaial palrar;
Do pavão as galas ricas…
Pegar no espelho! mirar!»

Mira-se, exulta. Só nota
Perfeições no todo seu.
Hoje chamam-lhe «janota»,
Bicho incógnito a Lineu.
(*)

 

(*) Glossário
Dez —Eestá como um dez: sente-se o máximo.
Empalmar — Furtar com destreza.
Gaifona — Trejeito.
Gaio — Alegre, Jovial, Folgazão.
Janota — Aqui usado no sentido de Peralta: indivíduo afectado nos modos ou trajes.
Lineu — Inventor da classificação das espécies vivas.
Machuchas — Diz-se de pessoas que têm influência.
Mono — Macaco.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Otto Dix (1891-1969), O negociante Max Roesberg, de 1922.

 

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Anacreôntica XXXIII em versão de António Feliciano de Castilho

26 Quinta-feira Set 2013

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Anacreônticas, Anacreonte, António Feliciano de Castilho, Francisco da Silveira Malhão

Everdingen_Caesar_van-Nymphs_Offering_the_Young_Bacchus_Wine_Fruit_and_FlowersConhecem-se como Anacreônticas um conjunto de 60 poesias em grego, escritas ao tempo do Império Romano, em época tardia, em imitação dos temas e efeitos estilísticos do poeta grego Anacreonte (séc. VI a.C.). Durante séculos estes poemas foram atribuídos a Anacreonte.

Segundo os estudiosos da obra, e a julgar pelas características estilísticas, métricas e prosódicas dos poemas, estes terão sido escritos entre os séculos II e IV d.C.

As Anacreônticas têm sido, provavelmente, o texto grego de maior êxito logo após os poemas épicos de Homero, pois as edições sucederam-se de forma continuada nas línguas europeias, desde a sua primeira publicação moderna em 1554.

Não assim em Portugal. Tenho noticia de uma versão de Francisco da Silveira Malhão (1757-1809), As Odes de Anacreonte Parafraseadas, publicada em 1804, o qual, desconhecedor do grego, escreveu agradáveis versos a partir da versão francesa que conheceria; e a tradução a partir do grego, também por via da versão francesa, de António Feliciano de Castilho (1800-75), A Lyrica de Anacreonte.

Trago ao blog noticia desta deliciosa colecção com o poema XXXIII em tradução de Castilho, onde uma discreta malícia espreita, contada num fluir de saborosa leveza.

A noite passada

à hora em que a Ursa,

mais perto discursa

da mão do Boieiro,

e o sono profundo

no grémio fagueiro

por todo esse mundo

restaura os mortais,

em meio era a noite;

o exemplo dos mais

no leito eu seguia;

sereno dormia…

À porta imprevisto

Cupido me bate!

À pressa me visto;

redobra o rebate;

acudo a correr.

“Sou eu — diz de fora —

não tens que temer;

sou um pequenino

que vaga, a tal hora,

molhado e sem tino,

perdido no escuro,

pois lua não há!”

Ouvi-lo gemendo

de mágoa me corta;

a lâmpada acendo,

franqueio-lhe a porta…

em casa me está!

Descubro (em verdade

mentido não tinha)

gentil criancinha

com arco e carcaz.

Remexo nas brasas

da minha lareira;

restauro a fogueira;

as mãos, que são gelo,

lhe aqueço nas minhas,

lhe espremo o cabelo,

lhe enxugo as azinhas;

já frio não faz.

— “Vejamos se a chuva

(dizia e sorria)

a corda do arco

me não danaria!”

Levanta-o do chão;

recurva-o, dispara

no meu coração.

A frecha que o vara

parece um tavão.

Eu, dores danadas,

e o doudo às risadas

de gosto a pular!

— “Meu caro hospedeiro,

(me diz prazenteiro)

agora é folgar.

Permite me ausente;

meu arco está são…

Quem fica doente

é teu coração!”

Termino com uma das paráfrases de Francisco da Silveira Malhão.

As moças louçãs me dizem:

—”Anacreonte estás velho,

vê as cãs, consulta as rugas,

perante um fiel espelho.”

Que vale que esteja calvo

ou tenha a fronte rugosa,

s’inda sinto as mesmas forças

duma idade vigorosa!

Por isso mesmo, que perto

vejo o prazo à minha vida,

e sempre a levei contente,

tenha o seu fim divertida.

Noticia bibliográfica

António Feliciano de Castilho traduziu as Anacreônticas como se de obras de Anacreonte se tratassem, e como durante séculos foi convicção aceite. Hoje está definitivamente estabelecido que se trata de um conjunto de poemas escritos sete ou oito séculos mais tarde, tomando o prestigio da obra do poeta como modelo.

Não existindo em português, de meu conhecimento, uma edição actual anotada, remeto o leitor curioso de considerações eruditas e da versão grega hoje aceite, para uma tradução directa grego/castelhano, com notas abundantes sobre as opções de tradução: Anacreônticas, edição de Luís Arturo Guichard, Ediciones Cátedra, Madrid, 2012. Nesta edição os poemas aqui transcrito trazem respectivamente os números XXXIII e VII. Na tradução de António Feliciano de Castilho, A Lyrica de Anacreonte, Paris, 1886, o poema é o nº3. Na versão de Francisco da Silveira Malhão, As Odes de Anacreonte de Teos parafraseadas, o poema é a Ode XI.

Dos sessenta poemas que compõem actualmente a colecção, Castilho traduziu 53, Malhão 55.

Em ambos os poemas modernizei a ortografia e uniformizei a pontuação.

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Os treze anos – o poema de António Feliciano de Castilho e a voz de Amália

11 Quarta-feira Maio 2011

Posted by viciodapoesia in Convite à música, Poesia Antiga

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Amália, António Feliciano de Castilho

Neste passeio pela poesia dos românticos faço hoje paragem em António Feliciano de Castilho (1800 – 1875) acompanhado de Amália Rodrigues.

A personalidade literária e humana do poeta é de tal forma gigantesca e o domínio que exerceu sobre o panorama literário português e brasileiro nos 50 anos da vida activa foi tal, que seria estulticia pretender abordá-lo em poucas linhas. Lá virá com o cuidado que merece.

Hoje apenas transcrevo na integra o poema OS TREZE ANOS, cantilena como o autor sub-titulou, composto aos 40 anos, em 1840, e que Amália cantou parcialmente como Pedro Gaiteiro com a musica de Alain Oulman.

Pedro Gaiteiro na voz de Amália

https://s3-eu-west-1.amazonaws.com/viciodapoesiamedia/Am%C3%A1lia+Rodrigues+Maldi%C3%A7%C3%A3o+02+pedro+gaitero.mp3

OS TREZE ANOS

 Cantilena

Hortas da calçada do duque, Páscoa do espírito santo de 1840

Já tenho treze anos, / Que os fiz por Janeiro:

Madrinha, casai-me, / Com Pedro gaiteiro.

 

Já sou mulherzinha; / Já trago sombreiro;

Já bailo ao domingo / Co’as mais no terreiro.

 

Já não sou Anita, / Como era primeiro,

Sou a senhora Ana, / Que mora no outeiro.

 

Nos serões já canto, / Nas feiras já feiro,

Já não me dá beijos / Qualquer passageiro.

 

Quando levo as patas, / E as deito ao ribeiro,

Olho tudo à roda / De cima do outeiro,

 

E só se não vejo / Ninguém pelo arneiro,

Me banho co’as patas / Ao pé do salgueiro.

 

Miro-me nas águas / Rostinho trigueiro,

Que mata d’amores / A muito vaqueiro.

 

Miro-me olhos pretos / E um riso fagueiro,

Que diz a cantiga / Que são cativeiro.

 

Em tudo, madrinha, / Já por derradeiro

Me vejo mui outra / Da que era primeiro.

 

O meu gibão largo / D’arminho e cordeiro

Já o dei à neta / Do Brás cabaneiro,

 

Dizendo-lhe – Toma / Gibão domingueiro,

D’ilhoses de prata, / D’arminho e cordeiro.

 

A mim já me aperta, / E a ti te é laceiro;

Tu brincas co’as outras, / E eu danço em terreiro.

 

Já sou mulherzinha, / Já trago sombreiro;

Já tenho treze anos, / Que os fiz por Janeiro.

 

Já não sou Anita, / Sou a Ana do outeiro;

Madrinha, casai-me, / Com Pedro gaiteiro.

 

Não quero o sargento, / Que é muito guerreiro,

De barbas mui feras, / E olhar sobranceiro.

 

O mineiro é velho; / Não quero o mineiro:

Mais valem treze anos / Que todo o dinheiro.

 

Tão pouco me agrado / Do pobre moleiro,

Que vive na azenha / Como um prisioneiro.

 

Marido pretendo / De humor galhofeiro,

Que viva por festas, / Que brilhe em terreiro.

 

Que em ele assomando / Co’o tamborileiro,

Logo se alvorote / O lugar inteiro.

 

Que todos acorram / Por vê-lo primeiro;

E todas perguntem / Se ainda é solteiro.

 

E eu sempre com ele, / Romeira e romeiro,

Vivendo de bodas, / Bailando ao pandeiro.

 

Ai, vida de gostos! / Ai céu verdadeiro!

Ai Páscoa florida, / Que dura ano inteiro!

 

Da parte, madrinha, / De Deus vos requeiro;

Casai-me hoje mesmo / Com Pedro Gaiteiro.

 

OS TREZE ANOS foi publicada em 1844 no livro Escavações Poéticas, livro que o próprio autor chama no prólogo … um museu de fragmentos desconexos.

Num poema em que o autor faz correr a inspiração para um retrato de adolescente, a sua versificação sem mácula ganha um sabor genuinamente popular.

OS TREZE ANOS não é um poema representativo da obra poética de António Feliciano de Castilho (1800 – 1875), embora estas criações de aparente desenfado surjam uma  vez por outra entre os diversos exercícios poéticos a que se entrega, pretendendo plasmar em português uma arte poética solidamente teorizada.

Noutra ocasião à sua poesia voltarei.

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