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Quanto permanece em nós de um intenso amor que se quebrou? No poema de Ada Negri (1870-1945), Aquele que passa, é uma resposta a esta interrogação que encontramos. Não é evidentemente a única. Depende apenas de como terminou, e de como em nós ele viveu.

 

Amores há em que a partilha é tal que à medida do passar do tempo fica progressivamente indistinta a parte que em cada um é original e de raiz, e qual parte é a absorção do outro que se ama no desejo de simbiose que esse amor traz. É de um amor algo assim que o poema de Ada Negri nos fala:


E em ti não há membro nem ponta de carne ou átomo de alma que não tenha uma marca de amor.
Que tu viveste apenas para amar aquele que te amava,

 

E este amor na sua força, contraria o envelhecimento, no sentido de gastar a vida que passou. Diz-nos o poema quanto um amor intenso é fonte de juventude perene:

O desconhecido que passa e te acha ainda digna de uma fugidia palavra de desejo,

E nem que quisesses podias arrancar de ti essa veste que o amor teceu.
Ele, ignaro, em ti já não bela, em ti já não jovem, saúda a graça do deus:
Respira, passando, em ti já não bela, em ti já não jovem, o aroma precioso do deus:

 

 

Aquele que passa

O desconhecido que passa e te acha ainda digna de uma fugidia palavra de desejo,
Talvez porque na sombra da noite tão doce de Maio
Ainda resplendem teus olhos, ainda tem vinte anos a ligeira figura deslizante,
Não sabe que foste amada, por aquele que amaste amada, em plena e soberba delícia de amor,
E em ti não há membro nem ponta de carne ou átomo de alma que não tenha uma marca de amor.
Que tu viveste apenas para amar aquele que te amava,
E nem que quisesses podias arrancar de ti essa veste que o amor teceu.
Ele, ignaro, em ti já não bela, em ti já não jovem, saúda a graça do deus:
Respira, passando, em ti já não bela, em ti já não jovem, o aroma precioso do deus:
Só porque o levas contigo, doce relíquia à sombra de um sacrário.

 

Tradução de Jorge de Sena
Transcrito de Poesia do Século XX, Antologia, tradução, prefácio e notas de Jorge de Sena, Fora do Texto, Coimbra, 1994.

 

 

Abre o artigo a imagem de um desenho de Arpad Szenes (1897-1985) com um retrato de Maria Helena Vieira da Silva (1908-1992). Para os leitores familiarizado com a biografia do casal de pintores, talvez seja menos despropositada a razão da escolha desta imagem para acompanhar este poema.

 

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