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À medida que as gerações que viveram a experiência directa das guerras mundiais do século XX desaparecem, e deixam de ter peso eleitoral nas democracias ocidentais, a retórica nacionalista que a elas conduziu reaparece e aviva a chama onde ela verdadeiramente nunca se extinguiu.
A paz de que a Europa Ocidental tem usufruído nos últimos 70 anos é sem paralelo na sua história, e é uma conquista frágil, sempre à beira de desaparecer, esmoreça a vontade dos homens para a preservar.

 

Lembrar as consequências da guerra, de qualquer guerra, é um exercício de higiene mental  que vale a pena continuar a fazer. E não são só as estatísticas de mortos e destruições, são sobretudo os casos de A ou B que conhecemos, ou alguém perto de nós conheceu que nos podem tocar mais directamente e fazer interiorizar o que não queremos que volte a acontecer.

 

Entre os poemas de Siegfried Sassoon (1886-1967), poeta e soldado que viveu a experiência da WWI, escolho o poema Tem alguma importância? no qual se evidencia o contraste entre a tragédia pessoal de quem experimentou a carnificina guerreira, e a atmosfera social que, respeitando-a, a incorpora na banalidade dos dias, desresponsabilizando-se cada um da sua contribuição, eventualmente pela indiferença ou complacência, se não mesmo aplauso, para que tivesse acontecido

 

Vivemos hoje pelo mundo uma atmosfera atroadora de apelos à discórdia, à quezília, ao ódio, indutora dos desastres de guerra que outras gerações viveram.
Talvez a cada geração não baste a memória da tragédia dos outros e precise viver directamente a sua. Cabe a quem não o aceita, a exigência de contra ela erguer a voz.

 

 

Tem alguma importância?

Tem alguma importância? — ficar sem pernas?…
As pessoas serão sempre tão bondosas.
E não deves mostrar que te impressiona
Ver os outros, que voltam da caçada
Devorar bolinhos de leite e bacon com ovos.

Tem alguma importância? — ficar cego?…
Há admiráveis obras de assistência aos cegos.
E as pessoas serão sempre tão bondosas;
Enquanto te sentas na varanda, a recordar
E viras a cara para o calor do Sol.

Têm alguma importância? — estes pesadelos do poço?…
Podes beber, esquecer, acabar embriagado.
E as pessoas não vão espalhar que tu estás louco:
Sabem que te bateste pela pátria
E ninguém quer viver incomodado.

Tradução de Victor Palla
in Poemas do Inglês, Ler Editora, Lisboa, 1985.

 

 

Poema original

 

Does it matter?

Does it matter? -losing your legs?
For people will always be kind,
And you need not show that you mind
When others come in after hunting
To gobble their muffins and eggs.

Does it matter? -losing you sight?
There’s such splendid work for the blind;
And people will always be kind,
As you sit on the terrace remembering
And turning your face to the light.

Do they matter-those dreams in the pit?
You can drink and forget and be glad,
And people won’t say that you’re mad;
For they know that you’ve fought for your country,
And no one will worry a bit.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de George Grosz (1893-1959).

 

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