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Numa inventariação exaustiva das relações amorosas, suas implicações sociais, morais, e mesmo legais, Agátias, o Escolástico (536-582 d. C.) dá conta num epigrama recolhido na Antologia Grega (302 do vol. 5) de uma visão masculina do sexo onde o sentimento está ausente, e apenas a satisfação do desejo imperioso se procura.

 

Epigrama

Que caminho seguir para o amor? Nas ruas,
lamentarás a luxúria ávida da mulher lasciva.
Se te aproximares do leito de uma virgem, espera-te
um casamento legal ou o castigo reservado aos sedutores.
Sustentar o amor insípido duma mulher legítima
quem o suportaria, se ela o exigisse como coisa devida?
O leito do adultério é detestável e estranho ao amor,
e dormir com os rapazes é igual perversidade.
A viúva corrupta toma por amante o primeiro que aparece
e enche a cabeça de pensamentos lúbricos.
A pudica, ainda mal se entregou ao amor,
é picada pelo ferrão de um cruel arrependimento
e sente horror do seu acto; e, movida por um resto de pudor,
bate em retirada, com o anúncio do fim da ligação amorosa.
Se tiveres uma relação com a tua escrava,
resigna-te a tornares-te a ti próprio um escravo.
Se for a escrava de outro, a lei aplicar-te-á uma marca infamante,
por atentares contra um ser que pertence a outro.
Diógenes evitou tudo isto, ele que cantava
o hino nupcial com a mão, sem necessitar de Laís.

Agátias, o Escolástico

 

A objectividade de inventário é a marca de água deste poema, dispensando considerações de psicologia e estados de alma, mostrando, numa modernidade compatível com os nossos dias, como lidar com o desejo do corpo, procurando sexo não problemático. Como se lê, depois de enumerar as consequências nefastas das variadas situações, o nosso poeta termina recomendando a masturbação [cantava o hino nupcial com a mão] como saída para esse desejo que queima:

Diógenes evitou tudo isto, ele que cantava
o hino nupcial com a mão, sem necessitar de Laís.

Dizendo tudo o que pretende, em matérias onde a linguagem com facilidade foge ao decoro, Agátias, o Escolástico, e com ele o tradutor Albano Martins, conseguem a elegância de um poema revelador de uma particular mentalidade e tempo, que em diferentes pontos toca o nosso.

Poema transcrito de “do mundo grego outro sol”, Antologia Palatina e Antologia de Planudes. Seleção, tradução e notas de Albano Martins. Edições ASA, Porto 2002.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Bernard van Orley (1491/2-1542).
Bernard (ou Bernaert ou Barend) van Orley, nasceu e morreu em Bruxelas. Em vida conhecido como o Rafael do Norte, foi sobretudo pintor de assuntos religiosos e retrato. Foi também autor de cartões para tapeçarias, e conhecem-se algumas suas pinturas profanas com laivos do erotismo presente em pinturas da Flandres e Alemanha da época.

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