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Olhar e ver são gestos sensoriais que por si só desencadeiam a emoção, com uma pequena nuance: ver contém uma intermediação intelectual que apenas no olhar não existe. E nesta intermediação intelectual reside o mundo que nos faz seres sensíveis aos outros, ao outro, ao que nos rodeia.
No modo de olhar o outro que nos olha reside muitas vezes o enigma do mundo para lá dos detalhes em redor.

Os objectos criados sem propósito funcional, que pela sua especial capacidade de desencadear a emoção ao olhar e ver, chamamos obras de arte, tocam-nos tanto mais, desencadeando emoções de profundidade variável, quanto os instrumentos de saber e reflexão que possuímos. Para os poetas eles são, por vezes, simultaneamente, desafios de expressão emocional, e poucas vezes os poemas conseguem viver sem a companhia da obra de arte que os viu nascer. Dos raros, Ode a Uma Urna Grega de Jonh Keats é um deles, que outro dia aqui virá.

Hoje ocupo-me do poema Enigma de Haroldo de Campos (1929-2003), sobre o busto esculpido da rainha egípcia Nefertiti.
Depois de uma descrição visual da escultura na sua aparência, o poeta detém-se sobre a mutilação que o tempo trouxe à escultura e a representação enigmática da cegueira que ela acaba por mostrar:


o direito
o tempo milenar cegou-o:
 esbranca-se no gesso
fitando em alvo o nada
de dentro da moldura
oval-amêndoa
do rimel

seu enigma está aí —
nesse branco esgazeado
que turba há (quantos?)
séculos o semblante
irretocável de rainha

Ao vê-la naquela tarde, na solidão da cave de um museu recheado de beleza, foram outros ou pensamentos que me assaltaram: a mutilação do corpo, como a olhamos, como viveremos com ela se nos acontece? Procuramos a beleza do corpo, hoje tanto ou mais que noutras épocas. Se a mutilação nos calha passamos a ser menos belos? De que beleza falamos? E voltamos a Platão e à beleza que está na alma. Mas uma alma mutilada é ainda a mesma e idêntica antes e depois da mutilação? Porque é sempre do que sentimos nos outros e pelos outros com quem nos relacionamos que o enigma reside.

 

enigma

a rainha nefertiti
lábios de desenho perfeito
perfeita a linha do nariz
cútis bronzeada pelos raios
ultra-violeta de aton-ra o sol
jubilante do egito
uma elegante tiara trapezoide
azul-grafite
encimando-lhe a testa
sobre uma faixa de ouro
(e deixando se ainda listar
por uma outra banda áurea
com engastes de vermelho safira
e o símbolo — dourado sempre —
do poder real: o cetro
verticalmente inscrito
de alça dupla)

seu
pescoço delgado de modelo de dior
orna-o tripla fileira de colares de cor
as sobrancelhas e pálpebras
delineadas com meticuloso
traço rímel-negro
por hábil mão maquiladora
e nos olha
a rainha nos olha
(que a olhamos)
impassível:
quase-sorriso na carnação
túmida dos lábios
fixa-nos pupila
castanho-verde
do olho esquerdo

o direito
o tempo milenar cegou-o:
 esbranca-se no gesso
fitando em alvo o nada
de dentro da moldura
oval-amêndoa
do rimel

seu enigma está aí —
nesse branco esgazeado
que turba há (quantos?)
séculos o semblante
irretocável de rainha
Berlim 14 out. 1998

in haroldo de campos, entremilênios, Editora Perspectiva S. A., São Paulo, 2009.

Abre o artigo uma imagem da escultura do busto da rainha egípcia Nefertiti, que se guarda no Neues Museum de Berlim.

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