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No seu desenho aforístico, o poema Table Talk de Wallace Stevens (1879-1955) põe-nos perante a evidência do papel do acaso e ausência de determinismo no que à vida respeita.
Diz-nos ele que a vida é, em grande medida, coisa de acontecer gostarmos, não de dever —  Life, then, is largely a thing / Of happens to like, not should. E sugere-nos que, no seu correr, sem interrogações, gostemos do que acontecer gostarmos: One likes what one happens to like. Sem mais. Pois, a vida quando acaba, é para sempre: Granted, we die for good.
E assim, com a despreocupação de uma conversa de café, somos levados a pensar quanto o sem sentido de muitas das angústias que nos atravessam a existência.

Seguem-se três interessantes exercícios de tradução sobre este poema. Elas dão-nos conta, de forma lapidar, quanto o exercício de tradução em poesia é reinterpretação do poema original para além das consabidas alterações de métrica e ritmo inerentes às diferenças linguísticas. A reinterpretação revela-se logo na tradução do título, Table talk. E temos de Conversa à mesa a Conversa Familiar, e Conversa de café. Depois, ao longo do poema, as diferenças nas opções de tradução abundam. A começar pela primeira palavra do poema, Granted, Concedido. Temos alteração do tempo verbal para Concedo, ou então Claro, ou ainda com inversão na posição de Granted no verso, e a sua tradução por é certo.
Poderia continuar quase palavra a palavra, o que seria sobremaneira enfadonho, pelo que lhe deixo, a si, leitor, o exercício de fruir outras diferenças e sentir como as variadas opções de tradução encaminham a leitura do poema em diferentes direcções.

 

 

 

Conversa de café

Claro, morremos para sempre.
A vida, então, é em grande parte uma coisa
De acontecer gostar-se, não de ter de.

E isso, também, claro, porque é que
Acontece eu gostar de arbustos vermelhos,
Relva cinzenta, e céu cinzento-esverdeado?

Que mais resta? Mas vermelho,
Cinzento, verde, porquê essas de entre todas?
Isso não é o que eu disse:

Não essas de entre todas. Mas essas.
Gosta-se do que acontece gostar-se
Gosta-se do modo como o vermelho cresce.

Não tem nenhuma importância.
Acontecer gostar-se é um
Dos modos como as coisas acontecem calhar.

Tradução de Luísa Maria Queiroz de Campos
in Wallace Stevens, Ficção Suprema, Assírio & Alvim, Lisboa, 1991.

 

 

 

Conversa à mesa

Morremos de vez, é certo.
Por isso, a vida é uma coisa,
De que acontece, ou não, gostar.

Mas, sendo assim, porque me acontece
Gostar do mato vermelho,
Da erva cinzenta, e do céu verde-cinza?

E que mais? Mas vermelho,
Cinzento, verde, porquê, especialmente?
Não foi isso o que eu disse:

Não esses, especialmente. Apenas, esses.
Gostamos do que acontece gostarmos.
Gostamos da maneira como o vermelho cresce.

Não tem nenhuma importância.
Acontecer gostar é uma das maneiras
Que as coisas têm de acontecer.

Tradução de Maria Andersen de Sousa
in Wallace Stevens, Antologia, Relógio d’Água, Lisboa.

 

 

 

Conversa Familiar

Concedo: quando se morre é para sempre.
E a vida é em grande parte coisa
De acontecer gostar, não de o dever.

E concedido também isto, porque acontece que eu
Goste do mato vermelho,
De relva cinzenta, da cinza verde do céu?

Que mais resta? Mas porquê de entre todos esses,
O vermelho, o cinzento, o cinzento verde?
Não foi isso o que eu disse:

Gosta-se do que gostar nos acontece.
Não de entre todos esses. Mas esses.
Gosta-se da maneira como o vermelho cresce.

Importante não deverá ser.
Acontecer gostar é uma
Das coisas que acontece acontecer.

Tradução de Victor Palla
in Poemas do Inglês, Ler Editora, Lisboa, 1985.

 

 

 

Table talk

Granted, we die for good.
Life, then, is largely a thing
Of happens to like, not should.

And that, too, granted, why
Do I happen to like red bush,
Grey grass and green-gray sky?

What else remains? But red,
Gray, green, why those of all?
That is not what I said:

Not those of all. But those.
One likes what one happens to like.
One likes the way red grows.

It cannot matter at all.
Happens to like is one
Of the ways things happen to fall.

1935?

in Opus Posthumous, 1957
Transcrito de Wallace Stevens, Collected Poetry & Prose, The Library of America, 1997.

 

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Pierre-Auguste Renoir (1841-1919), Almoço de barqueiros.

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