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O ciclópico acto (1), como uma vez lhe chamou  Luiza Neto Jorge, tem num poema de Francisco de Medrano (1570-1607) uma expressão lírica bem ao gosto da poesia do século XVI, a que a tradução de Jorge de Sena faz plena justiça: Seguiu-se um grande gozo ao pasmo louco / … / que todo o meu sensível pôs em calma.

A pressão do sexo nos humanos é uma constante, e é de sempre, pelo que em todas as épocas surge na palavra poética. Apenas variam os termos da sua formulação, adequando-os ao gosto da época que os viu surgir. Neste nosso tempo afortunado, com o acesso à criação universal ao alcance da curiosidade mais exigente, podemos permitir-nos o luxo da sua fruição independentemente de épocas e geografias. E hoje vem um exemplo feliz de um jovem poeta espanhol pouco mais novo que Camões escrevendo sobre os enigmas do êxtase da paixão.

 

 

 

Soneto

 

Não sei como, nem quando, nem que cousa
senti que me inundava de doçura:
sei que a meus braços veio a formosura,
de gozar-se comigo cobiçosa.

 

Sei que chegou, se bem, com temerosa
vista, mal pude olhar sua figura:
logo pasmei, como o que em noite escura,
perdido o tino, o pé mover não ousa.

 

Seguiu-se um grande gozo ao pasmo louco
— não sei quando, nem como, nem que há sido
que todo o meu sensível pôs em calma.

 

Ignorá-lo é saber: pois que é bem pouco
o que pode abarcar o só sentido,
enquanto isto me coube na só alma.

 

Tradução de Jorge de Sena.

Transcrito de Poesia de 26 Séculos, antologia, tradução, prefácio e notas de Jorge de Sena, edição Fora do Texto, Coimbra, 1993.

 

 

 

Nota à margem

 

(1) Não resisto a um pequeno desvio ao assunto que me traz.
Na dúvida ao escrever acto ou ato, pelo acordo ortográfico de 1990, ocorreu-me quanto o novo acordo ortográfico pode atar as possibilidades de agir. Afinal, de acto a ato, passamos da acção à prisão nas malhas da ortographia.
Feito o desvio, volto com o leitor ao relato em que acção se pede, e atado, só por pontual diversão.

 

 

 

Iconografia

 

Abre o artigo a imagem de um detalhe da pintura de Lucas Cranach o Velho (1472-1553), adequadamente chamada A Idade de Ouro, onde homens e mulheres nus fruem os prazeres da vida em mútua companhia.
A pintura feita por volta de 1530, terá talvez mais setenta anos que o poema, mas são ambos certamente água da mesma fonte de alegrias.

 

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