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A paisagem na memórias ou a poesia dos lugares, são  expressões que me ocorrem à leitura de muita da poesia de Tomas Tranströmer (1931-2015).
Quase sempre, os poemas partindo do trivial levam-nos subrepticiamente para o essencial da existência, induzindo no leitor uma reflexão que permanece bem para lá de concluída a leitura. Deixo como ilustração o poema As recordações olham para mim.

 

 

As recordações olham para mim

Uma manhã de Junho quando ainda é cedo para acordar
mas demasiado tarde para voltar a pegar no sono.

Embrenho-me pelo arvoredo repleto de recordações
e elas seguem-me com os seus olhares.

Autênticos camaleões, elas não se mostram,
diluem-se literalmente no cenário.

E embora o gorjeio dos pássaros seja ensurdecedor,
estão tão perto de mim que ouço como respiram.

 

Tradução de Alexandre Pastor

Transcrito de Tomas Tranströmer, 50 Poemas, Relógio d’Água Editores, Lisboa, 2012.

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura digital a partir de uma fotografia tirada em Tavira no início dos anos 70. Foto e pintura fi-las ambas num tempo a que não volto. A cidade representada é outra e a mesma que hoje existe. E em mim junta o prazer de hoje à memória de tempos frequentemente felizes.

Carlos Mendonça Lopes

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