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A próxima e esperada robotização generalizada da produção em todos os sectores da actividade económica gerará o desaparecimento em massa de empregos, mesmo qualificados, sem que a reorientação da ocupação de vastas camadas da população se perspective.
Há nesta alteração dos sistemas de produção, com a diminuição drástica do emprego humano, uma contradição insanável nos termos actuais: Se a grande maioria passar a não ter trabalho porque passou a produzir-se em massa mais barato com robots, de onde virá às largas massas sem trabalho o dinheiro para comprar o que se produz? Não existindo quem compre, para que servirá a produção?
A antevisão de que começa a falar-se é a de uma polarizarão social entre alguns muito ricos, donos de negócios robotizados potencialmente rentáveis, e uma imensa massa sem recursos a quem o estado providenciaria um rendimento mínimo por via da cobrança de impostos aos muito ricos. Todos pobrezinhos e sem trabalho.
Serão muito complexas as relações sociais numa sociedade que se desenhe assim. O modelo em que temos vivido desde a eclosão da primeira revolução industrial chegará ao fim com as suas oportunidades de mobilidade social e “subir na vida”.
Os ajustamentos ocorrerão inevitáveis, lentos e dolorosos.

É do hoje e não desta revolução anunciada que fala o poema que a seguir entrego à meditação dos leitores,  a Ode ao Cidadão Anónimo, uma das ODES OCAS de E. M. de Melo e Castro (1932).
Medindo-se com o prosaico do nosso quotidiano, esta e as restantes catorze Odes do livro 15 Odes Ocas escritas entre 2009 e 2013, entre Portugal e Brasil, dão-no conta de uma reflexão necessária sobre cada um de nós enquanto ser social e sobre a forma como integramos/participamos neste universo onde a nossa vida ainda decorre.
Surgem no poema Ode ao Cidadão Anónimo muitas das perplexidade e contradições com que hoje nos confrontamos e para as quais as respostas certas não existem. Simplesmente se o try and error da ciência é sempre uma tragédia para muitos quando ensaiado nas sociedades humanas, a adopção política de medidas do passado para os novos problemas também não é solução que se aplauda ou apoie. Haja dúvidas para que as respostas possam surgir.

Ode ao Cidadão Anónimo

Tu, cidadão anónimo, igual a ti próprio e a mim/outro
Que compras tudo o que és capaz de comprar
E deitas para o lixo tudo o que compraste

Que ganhas a tua vida perdendo a tua vida
Vida que é pequena e que só tens uma
Mas finges ignorar

Que pagas as contas que fazes sem saber porquê
Mas esperas descontos nos contos do vigário
que os teus credores te contam

Tu que ainda há pouco alimentavas a ilusão
de que o que fazes é produtivo para o teu país,
vais verificando dia a dia
que o teu trabalho é inútil principalmente para ti
porque um dia te despedem
até ficares despido

porque quem não precisa de ti não quer senão o teu voto
e tu que te lixes no lixo
porque o trabalho que fizeste toda a vida
é muito mais bem feito por qualquer robot
e ninguém dá por isso se não for feito
por isso és despedido
Assim desfruta a tua liberdade de desempregado
o melhor que puderes
porque és livre e por isso descartável

Está é a mais extraordinária descoberta da sociologia neoliberal
cibernetizada e deves ficar feliz com isso!

Mas não digas a ninguém.
Chora essa tua felicidade sozinho.

Se és velho, nunca vás para uma casa de repouso.
Finge que trabalhas.
Finge que te pagam, mesmo sabendo que nada recebes
Porque dá mais gozo não receber um salário venenoso
Que é teu
Mas irá fortalecer o sistema capitalista
E o igualmente selvagem neoliberalismo…
De que tanto gostas
E em que votaste à toa!

Transcrito de 15 Odes Ocas, editor Pé de Mosca, 2013.

 

Os leitores que não conheçam o poeta e a sua obra podem encontrá-lo em vídeos YouTube.

 

Abre o artigo uma pintura de Magritte (1898-1967).

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