• Autor
  • O Blog

vicio da poesia

Tag Archives: Paul Celan

Árvore Cintilante e um outro poema de Paul Celan

13 Terça-feira Out 2015

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

≈ 2 comentários

Etiquetas

Paul Celan, Y. K. Centeno

Azul 11Transcrevo dois poemas de Paul Celan (1920-1970) acompanhados de citações de Y. K. Centeno extraídas da sua introdução à Antologia Poética de Paul Celan, Sete Rosas Mais Tarde.

O amor está morto na obra de Paul Celan. Perdeu a qualidade redentora. O que dele fica são apenas fragmentos, imagens que não se ordenam numa estrutura superior unificada. Porque esse é o limite que atingem, o limiar que ultrapassam: o da unificação harmoniosa num universo e numa relação de que o amor foi brutalmente cortado.

Y. K. Centeno

 

O TEU

ALÉM-ESTAR esta noite,

Com palavras te trouxe de volta, aí estás,

tudo é verdadeiro e um esperar

pelo verdadeiro.

 

O feijão trepa frente

à nossa janela: imagina

quem a nosso lado cresce e

o vê.

 

Deus, assim o lemos, é

parte de nós e um outro, disperso:

na morte

de todas as vidas ceifadas

vinga ele.

 

Para além

nos conduz o olhar,

com esta

metade

convivemos.

 

Dir-se-á que Celan guarda ainda, nalguns textos, um ou outro fiapo de cor e luz. Mas isso torna a realidade ainda mais pungente: nunca o fiapo ilumina um olhar, o seu ou o de outrem. Não é luz condutora, é antes marca de uma fractura irredutível, é memória, é saudade, é desgosto profundo pelo que se perdeu, o todo, o tudo da vida.

Y. K. Centeno

 

Árvore Cintilante

 

Uma palavra

pela qual te perdi com prazer:

a palavra

Jamais.

 

Era,

e por vezes também tu o sabias,

era

uma liberdade.

Nadávamos.

 

Ainda te lembras que eu cantava?

Com a árvore cintilante cantava, com o leme.

Nadávamos.

 

Ainda te lembras que nadavas?

Aberta estavas ante mim,

estavas ante mim, estavas

ante mim ante

minha ante-

cipada alma.

Eu nadava por nós dois. Não nadava.

Nadava a árvore cintilante.

 

Ela nadava? Havia

um charco em volta. Era o lago infinito.

Negro e infinito, assim suspenso,

assim suspenso, mundo abaixo.

 

Ainda te lembras que eu cantava?

 

Esta —

oh, esta deriva.

 

Jamais. Mundo abaixo. Eu não cantava. Aberta

estavas ante mim ante

a alma errante.

 

Poemas do livro A Rosa de Ninguém [Die Niemandsrose] (1963), À memória de Ossip Mandelstamm.

Poemas transcritos de Paul Celan, Não Sabemos mesmo O Que Importa, Cem Poemas, tradução e posfácio de Gilda Lopes Encarnação, Relógio d’Água, Lisboa, 2014.

A poesia de Paul Celan é uma poesia solitária em busca de um destinatário atento. A linguagem, extremamente privada e opaca, reinventada, se quisermos, a estranheza das imagens e das associações, com especial incidência na obra tardia, não permitem uma interpretação linear ou unívoca por parte do (providencial) leitor.

Do posfácio de Gilda Lopes Encarnação.

Citações de Y. K. Centeno transcritas de Paul Celan, Sete Rosas Mais Tarde, Antologia Poética, Selecção, tradução e introdução de João Barrento e Y. K. Centeno, Edições Cotovia, Lisboa, 1993.

 

Notícia bibliográfica

O leitor interessado na obra do poeta, e que não domine o alemão, encontra-a integralmente traduzida em espanhol na Editorial Trotta de Madrid, Paul Celan obras completas, em tradução de José Luis Reina Palazón (a primeira tradução integral para uma língua estrangeira da obra de Paul Celan), 7ªedição em 2013.

Em português, com tradução e posfácio de João Barrento, Livros Cotovia editou em 1998 (e reimpressão em 2008), Poemas do Espólio, antologia denominada A Morte É Uma Flor.

A antologia dos poemas traduzidos para inglês pelo poeta Michael Hamburger, Poems of Paul Celan, editada por Anvil Press Poetry é outra edição a considerar com 172 poemas traduzidos, 1995, reimpressão em 2013.

Nota

A imagem que abre o artigo mostra uma pintura minha, Azul 11, óleo s/tela, de 2003/4.

Partilhar:

  • Tweet
  • Carregue aqui para enviar por email a um amigo (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Clique para partilhar no WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Pocket
  • Clique para partilhar no Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

O mundo harmonioso dos publicitários e poema de Paul Celan

19 Sexta-feira Abr 2013

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

≈ Deixe um comentário

Etiquetas

Malika Favre, Paul Celan

background3_700x560 _clean

Sabemos todos, ainda que nos apeteça esquecer, que a mensagem publicitaria, no melhor dos casos, faz da parte boa o todo que nos anuncia.

Ao ver as fotos que pessoa amiga me enviou hoje de Luzern (Lucerna), na Suíça, recordei uma campanha publicitária que na tentativa de vender uma imagem de paraíso da Suíça, um publicitário imaginou para a promoção turística do país associada a um fabricante de relógios e joalharia. Imaginou ele, neste caso ela, o mundo de brincar que vos mostro hoje, pretendendo fazer crer que aquela atmosfera lá se encontra. Será?

background3_700x560 +cyclist_clean

Rotating_landscape_layered_1500x560

Rotating_landscape_layered_1500x560

Estes publicitários são uns exagerados, dizia há anos um deles.

background4_City_700x560 _sketch8

Termino com o poema de Paul Celan (1920-1970) Gelo, Éden.

Gelo, Éden

Num País Perdido andou
a lua pelo juncal,
e o que connosco gelou
vê e arde como um sol.

Vê, tem olhos como os mais,
dois mundos claros de esperança.
Noite, noite, pantanais,
vê, tem olhos, a criança.

Vê, vê, nós estamos a vê-lo,
vejo-te a ti, tu a mim.
Ressuscitará o gelo
antes da hora do fim.

O poema pertence ao livro A Rosa de Ninguém em tradução de João Barrento.

Os desenhos são de Malika Favre, designer francesa, e foram concebidos para uma campanha “Velo chic” do grupo Bucherer em 2012.

Partilhar:

  • Tweet
  • Carregue aqui para enviar por email a um amigo (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Clique para partilhar no WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Pocket
  • Clique para partilhar no Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

Visitas ao Blog

  • 2.352.544 hits

Introduza o seu endereço de email para seguir este blog. Receberá notificação de novos artigos por email.

Junte-se a 894 outros subscritores

Página inicial

  • Ir para a Página Inicial

Posts + populares

  • O funcionário cansado — poema de António Ramos Rosa
  • Vozes dos Animais - poema de Pedro Diniz
  • Al andar se hace el camino - Alguns poemas de Antonio Machado

Artigos Recentes

  • Sonetos atribuíveis ao Infante D. Luís
  • Oh doce noite! Oh cama venturosa!— Anónimo espanhol do siglo de oro
  • Um poema de Salvador Espriu

Arquivos

Categorias

Create a free website or blog at WordPress.com.

Privacy & Cookies: This site uses cookies. By continuing to use this website, you agree to their use.
To find out more, including how to control cookies, see here: Cookie Policy
  • Subscrever Subscrito
    • vicio da poesia
    • Junte-se a 894 outros subscritores
    • Already have a WordPress.com account? Log in now.
    • vicio da poesia
    • Subscrever Subscrito
    • Registar
    • Iniciar sessão
    • Denunciar este conteúdo
    • Ver Site no Leitor
    • Manage subscriptions
    • Minimizar esta barra
 

A carregar comentários...
 

    %d