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António de Sousa — alguns poemas e um retrato por Natália Correia

03 Domingo Mar 2019

Posted by viciodapoesia in Poesia Portuguesa do sec. XX

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António de Sousa, Natália Correia

(Pela face das nuvens passa, breve,
o apelo da tarde que desmaia,
e, leve, a espuma no debrum da praia
borda o lençol do mar a flores de neve.)
…

 

 

António de Sousa (1898-1981), o poeta que se fez esquecer, nas certeiras palavras de Natália Correia (1923-1993) numa evocação biográfica do homem (1), não fora por outros poemas, pelo menos pelo soneto que citei a abrir merece lugar na nossa memória.

 

Da pessoa do poeta aproveito a saborosa evocação de Natália Correia na obra referida na nota (1), para dele dar um retrato a quem do homem nada sabe:

…
Descrevo-o tal como o conheci entre a [Livraria] Sá da Costa e a [Livraria] Bertrand (2) no desafogo tertuleiro da indignação selada pela censura em que o pontificado dos Aquilinos e Sérgios (3) embasbacavam os jovens. Eu, então muito moça; e António de Sousa já entrado nos cinquenta era uma aparição abstrusa naquela tábua de valores falantes em que o magistério do político, do literário e do filosófico triangulava o nosso anseio de mudar as coisas. Logo no físico taurino bandarilhado por fantasias se lhe estampava a extravagância de um arcaboiço de matulão basquetebolista desmazelado por uma alma famélica de estrelas.
…
O contrastante emanava dele com uma candura comovente. A tricana e o fado de Coimbra para o qual enluarou trovas garganteadas por António Menano e Edmundo de Bettencourt (4) tinham-se-lhe pegado ao peito. Mas por entre os relâmpagos da boémia pastoreava almas evangelicamente, em devota função que lhe cumpria como secretário-geral da Young Men’s Christian Association fundado por evangélicos americanos. Este misticismo que nada tinha de beatério, apimentado por apetites carnais que lhe vinham ao lume dos olhos, casavam-se com uma inocência poética que, orvalhando as sentenças dos papas das tertúlias, era rocio mais calhado à frescura dos meus anos e à atracção pelo insólito que me espicaçava o duende dos versos. António Sérgio que era severo por disciplinada introversão de veemências românticas, não tinha paciência para o brincalhotar erótico de António de Sousa que arregalava o olho quando a beleza com saias lhe passava ao pé.
…

 

Apresentado o poeta com a opulência da prosa de Natália Correia, tendo de passagem deixado esquiço de um tempo e personagens desaparecidos, e também um pouco de retrato pessoal da poetisa, eis o soneto, absolutamente surpreendente na sua perfeição formal para transmitir um complexo de imagens e sentimentos a espreitar dum panteísmo não enunciado:

 

 

Sem título

(Pela face das nuvens passa, breve,
o apelo da tarde que desmaia,
e, leve, a espuma no debrum da praia
borda o lençol do mar a flores de neve.)

— Que distância, meu Deus! — Como te deve
doer ver-nos olhar-te desta praia,
sobre o Outro Mar onde este mar desmaia,
escuro à prece e escuro à vida breve!

(Pensar em Deus à hora do sol-posto…
— Quanta saudade, à voz de portugueses,
se deu, assim, com lágrimas no rosto?!)

Tarde do Mundo, eis-me de terra ao mar,
última luz num rumo de reveses:
um sonho que se morre, devagar.

Poema de abertura do livro Terra ao Mar, 1954.

 

 

Acrescento alguns outros poemas, talvez auto-retratos do poeta, tendo em conta o perfil traçado acima por Natália Correia.

 

Historieta

Macia, a mão do Destino
foi de flores, até um dia.
Eu, sempre moço-e-menino,
sem saber que me bebia
aquela doce loucura
de quem de si não procura
senão ser.

Depois,
a vida e eu fomos dois …

E, sem querer,
morro de ter que a viver!

 

 

Nuvem

Lá longe, aonde a vida me começa
— sorria por engano o sol de inverno —,
não sei que deus me fez sua promessa
e fui outro menino, ávido e terno.

Mas a infância passou, nua e depressa
— subira o sol como um clarão de inferno —,
e fiquei-me neste ar de quem ingressa:
grotesco, trivial, falso e moderno.

— Número sete, um passo em frente! — Pronto!
(A voz que me chamava, certa e calma,
não viu que eu avançava cego e tonto.)

Achou-me assim o tal que me perdeu.
— Ó nuvem! — tarde triste da minh’alma —
quem por seus sonhos sofre como eu?

 

 

Encontro

Marinheiro dum céu que me perdera,
com sete luas ao luar de Outono,
dos meus sonhos nenhum te concebera,
nem te cantava a minha voz sem dono.

Adormeci. As tuas mãos de cera
desfolharam carícias no meu sono.
E Deus, que da minh’alma se esquecera,
de teus beijos floriu este abandono.

Adormeci. À hora da partida,
à luz que os fortes bebem como vinho,
adormeci, para fugir à vida.

Vieste. Sei agora porque sou:
era sonhar — não ser — o meu caminho.
Fugi à vida — a vida começou.

 

 

Bancarrota

Esperei por mim em vão. Suando rezas,
pragas, versos subtis, ruivas saudades,
arrastei minhas horas indefesas
entre chusmas e fundas soledades.

Tive palácios de imortais certezas,
com seus jardins de passear vaidades;
virtudes compassadas e burguesas
e dor sem nome, como o preso às grades.

Fui o fiel-conviva-de-banquetes,
o-pálido-com-alma-pra-vender
nos mercados dos filhos de seus pais.

Subi-me ao céu nas canas dos foguetes;
fiz-me ladrão de sonhos pra vencer,
e sei apenas que não posso mais!

Poemas transcritos de Livro de Bordo, segunda edição, Publicações Europa-América, Lisboa, 1957.

 

 

Notas minhas:

(1) A Ilha de Sam Nunca, Atlantismo e Insularidade na Poesia de António de Sousa, Secretaria Regional dos Assuntos Culturais, Angra do Heroísmo, 1982.

Com a morte da mulher em 1963, e posteriormente de um filho, recolhe o poeta definitivamente a casa de outro filho, onde, alheio ao mundo, cai numa apatia invulnerável a afectos, até que gravemente doente vem a falecer no hospital em 1981 após agonia prolongada.

(2) Livrarias antigas ao Chiado, em Lisboa, vizinhas do mítico café Brasileira.

(3) Aquilino Ribeiro (1885-1963) e António Sérgio (1883-1969), aqui retratados como  expoentes da oposição intelectual ao salazarismo que também foram.

(4) Cantores famosos de fado de Coimbra, tendo Edmundo de Bettencourt sido também poeta notável.
Aproveito para registar que o poema Cravos de Papel, cantado por Amália com ligeiras adaptações naquele álbum que é a sua mais perfeita realização, Com Que Voz, Amália canta poetas da língua portuguesa na música de Alain Oulman, é de António de Sousa. O poema original é de uma mestria absoluta a captar a brejeirice malandra das quadras populares:

 

 

Cravos de Papel

1
Tenho sete namoradas
na Rua de Lá Vem Um.
Sete facas apontadas
ao coração em jejum.
                 2
Meu compadre S. João
das fogueiras, das cantigas!
— Ficarei par ou parnão
no jogo das raparigas?
                 3
Não julge lá que me enjeita,
assim, com duas razões!
(O meu demónio aproveita
as melhores ocasiões… )
                 4
Meninas, vossos amores
lembram-me a água corrente.
Na margem, prados e flores;
ao meio… afoga-se a gente!
                 5
Amorzinho, lua nova,
rica fruta de pomar!
— Quem será que tira a prova
do vinho do teu lagar?

in Livro de Bordo, segunda edição, Publicações Europa-América, Lisboa, 1957.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma fotografia minha feita há anos na Ericeira.

 

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Uma cantiga de amigo sobre a mulher só

08 Quinta-feira Ago 2013

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Cantiga de Amigo, Natália Correia

16É da idade média que nos chega este canto de solidão nocturna.

Gira o mundo, aumenta a variedade na farmácia, mas o remédio continua a ser o mesmo:

Diferente é a noite quando ele aparece / meu lume e senhor e o dia me traz; / pois apenas chega logo a luz se faz.

Vamos então à cantiga com modernização de Natália Correia.

Sem o meu amigo sinto-me sózinha
e não adormecem estes olhos meus.
Tanto quanto posso peço a luz de Deus
e Deus não permite que a luz seja minha.
Mas se eu ficasse com o meu amigo
a luz agora estaria comigo.

Quando eu a seu lado folgava e dormia
depressa passavam as noites; agora
vai e vem a noite, a manhã demora;
demora-se a luz e não nasce o dia.
Mas se eu ficasse com o meu amigo
a luz agora estaria comigo.

Diferente é a noite quando ele aparece
meu lume e senhor e o dia me traz;
pois apenas chega logo a luz se faz.
Vai-se agora a noite, vem de novo e cresce.
Mas se eu ficasse com o meu amigo
a luz agora estaria comigo.

Padres-nossos já rezei mais de um cento
implorando Àquele que morreu na cruz
que cedo me mostre novamente a luz
em vez destas longas noites de Advento.
Mas se eu ficasse com o meu amigo
a luz agora estaria comigo.

Pode dar-se o caso de a cantiga ser uma profunda modernização  de uma poesia de Pedr’ Eanes Solaz, o que não tenho a certeza, cuja  primeira quadra canta assim:

Eu velida nom dormia / lelia doura / e meu amigo venia / ed oi lelia doura

de acordo com a transcrição proposta por Rip Cohen na edição crítica de 500 Cantigas d’Amigo.

Na erudita nota do editor, lelia doura pode ser lida como líya ddáwara ‘a mim a vez (= é a minha vez) em árabe andaluz. líya, um alomorfe de li ‘a mim,’ ‘para mim’, é foneticamente /leia/, e lelia pode ser ou um erro por leiia.

Ed oi é romance ibérico arcaico < et hodie com vocalização do -t- intervocálico no interior da expressão.

Na dúvida sobre a correspondência, e porque o português arcaico é de difícil leitura, não transcrevo a totalidade da canção e aqui fica a informação onde pode ser encontrada.

500 Cantigas d’Amigo, edição critica de Rip Cohen, Colecção Obras Clássicas da Literatura Portuguesa, Campo de Letras Editores, 2003, pag. 287.

 

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Entre a Idade Média e Jorge de Sena, uma questão de lingua

10 Sexta-feira Set 2010

Posted by viciodapoesia in Crónicas, Poesia Antiga

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João Airas de Santiago, João Garcia de Guilhade, João Soares Coelho, Jorge de Sena, Natália Correia

Iluminura 06x500

A linguagem do amor tem na língua o seu principal trunfo e por vezes um grande problema, isto quando, por vergonha, gestos de proverbial eficácia são afastados do horizonte da comunicação. Raramente apenas a linguagem dos dedos constitui um substituto eficaz. No entanto, a combinação de ambos pode traduzir-se num sortilégio de afrodisíaco efeito.

O detalhe do percurso da língua é seguramente mais adequado para um menu e aqui pretenderemos apenas abordar questões de léxico, sem procurar pôr em evidência a sumptuosa satisfação que o sabor da língua pode provocar.

Há palavras que se deixam pronunciar melhor que outras, e do encontro de línguas resulta muitas vezes uma linguagem de desejo em que o fogo surge, qual fósforo sobre palha seca, conseguindo mesmo humedecer zonas onde a língua depois passeia com efeito avassalador.

Muitas vezes não há palavras para descrever o êxtase, outras, a conotação obscura inibe os protagonistas do uso da lingua de as aplicar.

Um inventário exaustivo de palavras portuguesas de origem erudita ou vulgar para retratar todas estas actividades do amor, reduz-se ao parco conjunto que todos conhecem. Menos lhes conhecerão a antiguidade.

Na verdade, depois das palavras antigas, usadas sem alteração durante séculos, apenas a lingua francesa trouxe alguma frescura e sofisticação a uma actividade que vivia quase sem palavras.

Socorro-me de dois poemas de João Garcia de Guilhade incluídos no Cancioneiro Medieval – Cantigas de Escarnio e Maldizer, para ilustrar a antiguidade de cono e foder

Poema 166

Martim jograr, que gram cousa:

já sempre com vosco pousa

vossa molher!


Vedes m’andar morrendo,

e vós jazedes fodendo

vossa molher!


De meu mal nom vos doedes,

e moir’eu, e vós fodedes

vossa molher!



Poema 167

Martim jograr, ai Dona Maria,

jeita-se vosco já cada dia,

e lazero-m’eu mal


And’eu morrend’e morrendo sejo,

e el tem sempr’o cono sobejo,

e lazero-m’eu mal


Da mia lazeira pouco se sente;

fod’el bom con[o] e jaz caente,

e lazero-m’eu mal.


Acrescento este outro de João Soares Coelho a propósito de impotência masculina, talvez causada por doença venérea como defende o trovador:

Poema 198

Luzia Sánchez, jazedes em gram falha

comigo, que nom fodo mais nemigalha [nemigalha/d’ua vez – nunca mais de uma vez]

d’ua vez; e, pois fodo, se Deus mi valha

fiqu’end’afrontado bem por tercer dia.

Par Deus, Luzia Sánchez, Dona Luzia,

se eu foder-vos podesse, foder-vos-ia.


Vejo-vos jazer migo muit’aguada,

Luzia Sánchez, porque nom fodo nada;

mais se eu vos per i houvesse pagada,

pois eu foder nomposso, peer-vos-ia.   [peer – peidar]

Par Deus, Luzia Sánchez, Dona Luzia,

se eu foder-vos podesse, foder-vos-ia.


Deu-mi o Demo esta pissuça cativa,

que já nom pode sol cospir saíva

e, de pram, semelha mais morta ca viva,

e se lh’ardess’a casa, nom s’ergeria.

Par Deus, Luzia Sánchez, Dona Luzia,

se eu foder-vos podesse, foder-vos-ia.


Deitarom-vos comigo os meus pecados;

cuidades de mi preitos tam desguisados,

cuidades dos colhões, que tragu’inchados,

ca o som com foder e é com maloutia  [doenças (venéreas)]

Par Deus, Luzia Sánchez, Dona Luzia,

se eu foder-vos podesse, foder-vos-ia.


e aqui encontramos “aguada” para tesão e colhões sem modificação. Aparece-nos ainda “pissuça” para pénis, provavelmente forma anterior da piça de hoje que os franceses também aproveitam levando mais longe o termo com o verbo “pisser” para urinar.

As palavras são poucas mas o acervo é vasto pelo que apenas transcrevo mais um poema deste mesmo João Soares Coelho em que parece tratar de um adultério, ainda que a controvérsia exista entre especialistas

Poema 192

Joam Fernándiz, mentr’eu vosc’houver

aquest’amor que hoj’eu com vosqu’hei,

nunca vos eu tal cousa negarei

qual hoj’eu ouço pela terra dizer:

dizem que fode quanto mais foder

pode o vosso mouro a vossa molher.


[E] pero que foss’este mouro meu

já me teria eu por desleal,

Joam Fernándiz, se vos negass’eu

atal cousa qual dizem que vos faz:

ladinho como vós jazedes, jaz

com vossa molher, e m’end’é mal.


E direi-vos eu quant’en vimos nós:

vimos ao vosso mouro filhar

a vossa molher e foi-a deitar

no vosso leit’; e mais vos eu direi

quant’eu do mour[o] aprendi e sei:

fode-a como a fodedes vós.


Perante tantas das palavras dos poemas modificadas ou caídas em desuso com a evolução da língua, espanta como em mais de 700 anos, esta meia-duzia ligada ao sexo permanece inalterada.

Na verdade, no que à linguagem do amor respeita, existem no português moderno tanto limitações de léxico como limitações de formas verbais.

Os verbos enquanto formas linguísticas de expressão da acção, são não só poucos como insuficientes para cobrir em português todas as praticas sexuais conhecidas, deixando assim a língua impossibilitada de transmitir aspectos essenciais da actividade humana com a ênfase, o rigor e a precisão adequados.

Exemplificarei algumas dessas limitações com a actividade sexual mais vulgar, a união dos sexos de duas pessoas. Chamam-lhe pudicamente (?) “fazer amor”. Ora quem ama sabe que o amor não se faz. Nasce, surge, acontece, existe e extingue-se, mas não se faz. Ao que em português agora se chama fazer amor deveria dar-se outro nome.

Escrever a frase  “depois daquela tragédia precisava fazer amor não importava com quem” ou a frase “depois daquela tragédia precisava foder não importava com quem” não são uma e a mesma frase. Em amor, o que importa é com quem. É até a única coisa que importa, daí a desadequação da expressão neste contexto.

A expressão poderá ser aceite em poucas situações. Por exemplo: em publico, dois amantes entreolham-se e a intimidade do olhar permitirá dizer – Vamos fazer? Amor. E aqui “fazer” substitui “foder” num contexto de obsceno interdito.

O problema com a palavra foder para designar esta actividade prende-se com o significado de insulto que também reveste na expressão “vai-te foder” que mancha a união sexual voluntária de duas pessoas com um estigma soez.

Regresso  às Cantigas de Escárnio e Maldizer e a João Garcia de Guilhade para ilustrar estes dois significados de foder – fornicar e lixar. De acordo com Graça Videira Lopes o significado “lixar” deve até ser a primeira leitura do poema:

Poema 164

Elvira lópez, que mal vos sabedes

vós guardar sempre daqueste peom

que pousa vosc[o], e há coraçom

de tousar vosqu’, e vós nom lh’entendedes;

hei mui gram medo de xi vos colher

algur senlheira; e se vos foder, [senlheira – sózinha]

o engano nunca lho provaredes.


O peom sabe sempr’u vós jazedes,

e nom vos sabedes dele guardar

siquer poedes [em] cada logar

vossa maeta o quanto tragedes; [maeta – maleta]

e dized’ora, se Deus vos perdom:

se de noite vos foder o peom,

contra qual parte o demandaredes?


Direi-vos ora como ficardes

deste peom, que tragedes assi

vosco, pousando aqui e ali:

e vós já quando que ar dormiredes

e o peom, se coraçom houver

de foder, foder-vos-á, se quiser,

e nunca del[e] o vosso haveredes.


Ca vos diredes: – Fodeu-m’o peom!

E el dirá: – Boa dona, eu nom!

E u las provas que [vós] lhi daredes?


Tratados que estamos com a antiguidade do foder, temos ainda o caso da palavra fornicação, ou do verbo fornicar, ou então a palavra coito, da qual nem sei se se aplica coitar, pois coito reveste um significado de passado ex: ”houve coito ou não?” e aí é quase uma inquirição policial. Imagine-se o leitor a pensar “esta noite vou coitar com o meu amor”, que tal?

Voltando a fornicação ou fornicar são qualquer delas palavras monstruosas para referir uma actividade magnífica.

Não obstante  fornicação evocar algum contorcionismo, falta-lhe, no entanto, o calor envolvente que caracteriza o acto. Dificilmente se consegue aceitar “que boa fornicação” e então “esta noite sonhei que fornicava a Marylin Monroe” não é sonho que se descreva por estas palavras.

Mas este deambular trazia como propósito a elucidação de que felizmente o francês nos socorreu com a adequada palavra para a actividade sexual envolvendo a língua, sendo certamente incerto que alguém, mesmo com propensão erudita, manifeste em voz alta desejo daquele cunilinguus de tão dificil pronuncia. A tempo o francês  com a sua minette resolveu-nos o problema da forma que Jorge de Sena nos esclarece como segue:

EM LOUVOR DA LÍNGUA PORTUGUESA

Tão forte e tão hipócrita que até

usa nome francês para dizer

o que – heroicamente – faz

todos os dias

à cona da mãe.

É a esta actividade que durante largo tempo a humanidade ocidental chamou “beijo impudico” ainda que não deixasse de o praticar. E é de novo das Cantigas de Escárnio e Maldizer que me socorro  para deixar aqui um poema sobre este mesmo cunilinguus chamado, desta vez da autoria de João Airas de Santiago


Poema 144

Dom Beeito, home duro,

foi beijar pelo obscuro

a mia senhor.


Come home aventurado,

foi beijar pelo furado

a mia senhor.


Vedes que gran desventura:

beijou pela fendedura

a mia senhor.


Vedes que moi grand’abaco:

foi beijar polo buraco

a mia senhor.


A editora do poema aventa a qualificação de home duro feita pelo trovador a D. Beito como hipótese de ironia à sua impotência. É provavelmente uma interpretação restritiva na medida em que desconhecemos qual a conotação em termos da imagem da masculinidade, que o “beijo impudico” revestia, não obstante a controvérsia entre trovadores sobre o assunto conhecida como “affaire Cornilh (1161)”, a qual modernas interpretações defendem que afinal respeita ao desejo de Madame Ayma ser primeiro lambida no cu para conceder os seus favores a Bernatz de Cornilh.

Sabendo que questões de língua devem ser um prazer interminável e não uma sensaboria fico-me por aqui, esquecendo controvérsias de especialistas e questões teóricas em torno da leitura destes poemas.

Uma leitura mais profícua exige um comentário em contexto com as características e temas destas composições. Os leitores interessados encontram-nos nas publicações de especialistas. Neste artigo apenas a curiosidade da linguagem ditou a escolha. Deixo agora a nota bibliográfica que é de justiça.

Noticia bio-bibliográfica

Encontramos noticia sobre a vida e obra dos nossos trovadores no Dicionário da Literatura Medieval Galega e Portuguesa, publicado em 2ª edição pela Editorial Caminho em 2000.

Aí, sob as entradas Johan Airas de Santiago e Johan Garcia de Guilhade, encontramos detalhada informação sobre a obra de ambos e algumas circunstância biográficas conhecidas.

Importa aqui reter que ambos são poetas vivendo no sécul XIII, a compor ao tempo de Afonso X de Castela e do nosso rei D.Dinis, sendo substancialmente mais novos que este. De Johan Garcia de Guilhade sabe-se que é já adulto em 1239.

Nas trancrições  dos poemas medievais usei a edição de Graça Vieira Lopes das Cantigas de Escárnio e Maldizer, publicada pela Editorial Estampa em 2002, no âmbito da colecção Obras Clássicas da Literatura Portuguesa. A numeração que identifica os poemas neste artigo é a atribuída nesta edição.

O poema de Jorge de Sena integra o ciclo “EM LOUVOR DA BOA LINGUAGEM” publicado postumamente em 1980 por Moraes Editores na sua colecção Circulo de Poesia, e inserido no livro SEQUÊNCIAS.

Em nota final deixo a versão de Natália Correia do poema 166 em português moderno publicado por esta em 1965, na nunca demais elogiada Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica:

Martim jogral, que defeita,

sempre convosco se deita

vossa mulher!


Vedes-me andar suspirando;

e vós deitado, gozando

vossa mulher!


Do meu mal não vos doeis;

morro eu e vós fodeis

vossa mulher!

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