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Memória de uma noite num poema de António Feijó

28 Quarta-feira Maio 2014

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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António Feijó, Tom Wessellmann

Tom Wesselmann - Grande nu americano 1963

Encontros fortuitos, paixões de ocasião, nem sempre as noites deixam memória, e às vezes quando deixam, são memória dolorosa que não apetece recordar. Estas, se se recordam em poesia, são poemas amargos, de quem está de mal com a vida. Não assim com António Feijó (1859-1917) e a noite relatada no poema Passeio Bucólico.

Em António Feijó há uma constante bonomia, um estar de bem consigo, que mesmo nos transes mais dolorosos faz do seu verso uma cativante companhia.

No poema com que hoje brinco, além da verosimilhança da história, encontramos a mescla de graça e ironia que atravessa sobretudo a sua poesia reunida nos livros Bailatas e Novas Bailatas.

 

Começa o poema com a descrição de um dia de inverno sem intempérie, propiciando o bem-estar que o bom tempo traz:

 

Na gema de um inverno atravessado

De ventanias, trovoadas, neve,

Nem d’encomenda um dia assim banhado

De sol, e sem a viração* mais leve.

 

vão em passeio poeta, companheira e o belo tempo.

 

Nem d’encomenda!… e os beijos que nós demos

Por essa estrada! Já não tinham conta…

Quantas loucuras infantis fizemos!

E que apetite, para a ceia pronta!

 

Anoiteceu, e com o apetite aberto, também para a comida, o nosso par ceia:

 

Mas havia mais hóspedes à mesa;

Tivemos de guardar certa aparência…

Foi somente depois da sobremesa

Que trocámos um beijo, e com decência.

 

Resguardadas as efusões amorosas em nome da decência, do resto da noite diz-nos o poeta:

 

O que após se passou…, a musa cala,

Pois não há rimas nem palavras de oiro

Para exprimir o amor que nos embala

Na posse do mais íntimo tesoiro!

 

Podemos facilmente adivinhar o que este falso pudor esconde. Só que, manhã chegada, a coisa ficou difícil. Senão vejamos:

 

Mas quando de manhã nos separámos,

Foi como um mundo inteiro que desaba!

Gritos, soluços, pranto que chorámos…

O sonho, quando é bom, logo se acaba!

 

E a inevitável despedida, pois era amor de um dia, acontece:

 

Ah! Como os nossos corações batiam,

Recordando as noturnas maravilhas!

 

Perante tanto encanto, tremendo seria o desgosto com a separação. Ao poeta ficamos a saber que:

 

Dos meus olhos as lágrimas corriam

Silênciosas e grandes como ervilhas…

 

Da mulher que tanta felicidade trouxe não mais saberemos. A vida continua e,

 

Depois, como era feira, na estalagem,

Entre um rumor de viola e de fandango,

Sozinho, à mesa, sem a tua imagem,

Devorava essas lágrimas com frango!

 

Satisfeito o corpo nas necessidades básicas, ficou, pelo lido, a memória desta aventura de um dia, que o poeta remata ao recordá-la:

 

E assim se terminou esta aventura

Em Vila Nova de Famalicão;

Mas a lembrança dela ainda perdura,

Aquecendo o meu velho coração…

 

A história está contada. Resta a leitura sequencial do poema que a seguir vos entrego.

Passeio Bucólico

 

Lembras-te quando fomos de passeio

A Vila Nova de Famalicão?

Que lindo dia! Um dia igual não creio

Que se torne a encontrar nesta estação.

 

Na gema de um inverno atravessado

De ventanias, trovoadas, neve,

Nem d’encomenda um dia assim banhado

De sol, e sem a viração* mais leve.

 

Nem d’encomenda!… e os beijos que nós demos

Por essa estrada! Já não tinham conta…

Quantas loucuras infantis fizemos!

E que apetite, para a ceia pronta!

 

Mas havia mais hóspedes à mesa;

Tivemos de guardar certa aparência…

Foi somente depois da sobremesa

Que trocámos um beijo, e com decência.

 

O que após se passou…, a musa cala,

Pois não há rimas nem palavras de oiro

Para exprimir o amor que nos embala

Na posse do mais íntimo tesoiro!

 

Mas quando de manhã nos separámos,

Foi como um mundo inteiro que desaba!

Gritos, soluços, pranto que chorámos…

O sonho, quando é bom, logo se acaba!

 

Ah! Como os nossos corações batiam,

Recordando as noturnas maravilhas!

Dos meus olhos as lágrimas corriam

Silenciosas e grandes como ervilhas…

 

Depois, como era feira, na estalagem,

Entre um rumor de viola e de fandango,

Sozinho, à mesa, sem a tua imagem,

Devorava essas lágrimas com frango!

 

E assim se terminou esta aventura

Em Vila Nova de Famalicão;

Mas a lembrança dela ainda perdura,

Aquecendo o meu velho coração…

 

*vento

 

Transcrito de Novas Bailatas, 1926. Modernizei a ortografia.

A imagem de abertura respeita a uma pintura de Tom Wessellmann de 1963, Grande num americano.

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O Livro da Vida por António Feijó

04 Domingo Maio 2014

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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António Feijó

India sec XIX maternidadeA

Vai do nascer ao morrer em cada um de nós, na presença ou na memória, a mãe, razão e mistério de quem somos no acaso da vida.

 

Há um recato que me exigo ao assinalar no blog o Dia da Mãe. E se às mulheres é possível a simultaneidade de serem filhas e mães e com isso viver os sentimentos cruzados que daí derivam, aos homens apenas resta o sentimento filial, e nele incluir o espanto da graça de existir.

 

Por este Dia da Mãe que hoje se comemora em Portugal transcrevo de António Feijó (1859-1917) o poema O Livro da Vida, lição de que à vida, mais vale vivê-la que procurar-lhe nos livros o sentido. Mas é bom seguir na vida acompanhado pelos livros: na experiência dos outros encontramos muito do que em nós por vezes é incompreensível, e a poesia torna evidente.

 

O Livro da Vida

 

Absorto, o Sábio antigo, estranho a tudo, lia…

— Lia o “Livro da Vida, — herança inesperada,

Que ao nascer encontrou, quando os olhos abria

Ao primeiro clarão da primeira alvorada.

 

Perto dele caminha, em ruidoso tumulto,

Todo o humano tropel num clamor ululando,

Sem que ele de sobre o Livro erga o seu magro vulto,

Lentamente, e uma a uma, as suas folhas voltando.

 

Passa o estio, a cantar; acumulam-se invernos;

E ele sempre, — inclinada a dorida cabeça, —

A ler e a meditar postulados eternos,

Sem um fanal que o seu espírito esclareça!

 

Cada página abrange um estádio da Vida,

Cujo eterno segredo e alcance transcendente

Ele tenta arrancar da folha percorrida,

Como da mina obscura a pedra refulgente.

 

Mas o tempo caminha; os anos vão correndo;

Passam as gerações; tudo é pó, tudo é vão…

E ele sem descansar, sempre o seu Livro lendo!

E sempre a mesma névoa, a mesma escuridão.

 

Nesse eterno cismar, nada vê, nada escuta:

Nem o tempo a dobrar os seus anos mais belos,

Nem o humano sofrer, que outras almas enluta,

Nem a neve do inverno a pratear-lhe os cabelos!

 

Só depois de voltada a folha derradeira,

Já próximo do fim, sobre o livro, alquebrado,

É que o Sábio entreviu, como numa clareira,

A luz que iluminou todo o caminho andado…

 

Juventude, manhãs de Abril, bocas floridas,

Amor, vozes do lar, éstos do sentimento,

— Tudo viu num relance em imagens perdidas,

Muito longe, e a carpir, como em nocturno vento.

 

Mas então, lamentando o seu estéril zelo,

Quando viu, a essa luz que um instante brilhou,

Como o Livro era bom, como era bom relê-lo,

Sobre ele, para sempre, os olhos cerrou…

 

in Sol de Inverno, ultimos versos, (1915), Aillaud & Bertrand, Paris-Lisboa, 1922

 

A imagem de abertura mostra uma escultura proveniente da Índia, talvez do século XIX.

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Orlando Innamorato — Um poema de António Feijó

25 Quinta-feira Fev 2010

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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António Feijó

No deambular desenfadado com que vou lendo poesia, encontrei este Orlando Innamorato, pérola de ironia saída da inspiração de Ignácio de Abreu e Lima, pseudónimo de António Feijó (1859-1917), onde o poeta dá conta dos seus diversos amores e vicissitudes peculiares.

 

 

ORLANDO INNAMORATO

O meu primeiro amor

Chamava-se Maria

Leonor;

O segundo, Sophia

Eulália Pimentel;

O terceiro, que lembro com fervor,

Chamava-se Rachel…

Era um anjo exilado, uma pomba sem fel!

De todas foi a mais amada …

Quando a perdi (levou-a a Morte), oh dor immensa!

Ficou-me a alma encarcerada

Dentro da praça d’Olivença,

Onde Ella tinha o berço e a virginal morada!

Das outras, a primeira, a Maria Leonor

(esta lembrança é um horror!)

Trahiu-me com um primo, um primo d’ella e meu,

Estoira-vergas desvairado,

Só por tocar guitarra e por cantar o fado

Melhor do que eu.

A segunda, Sophia Eulália Pimentel,

Donzella gothica e feudal,

Foi apenas a visão, sonho de Menestrel

Em velha Côrte medieval…

Muitas outras depois, muitas outras mulheres,

Doido romantico, adorei;

Ah! quantas ilusões e quantos malmequeres

Por todas ellas desfolhei!

Mas nenhuma deixou recordação tão doce

Como a linda Rachel…

Ah! se ella viva fôsse,

Quanta impura triaga, quanto fel

Eu teria evitado

Como homem casado!

Mas … lá diz o ditado:

Casamento e mortalha

No céu se talha,

Embora ás vezes o casamento

Seja um tormento,

Que mais parece fogo do Inferno

Que bico de obra das mãos do Eterno…

Foi por essa razão

Que simultaneamente e sucessivamente,

Com o meu coração

Atormentado e doente,

Me consagrei a amar

As mais diversas criaturas,

Mas já sem intenção de me casar:

Alem do mais, por serem duras

As minhas circunstâncias actuaes,

E bicudos os tempos para taes

Cavallarias.

Jamais, depois, tomei mulher senão a dias!

É um deleite a variedade…

Para o provar, meu tio abbade,

Com eloquencia e grande erudição, citava

A resposta que Luis XIV sempre dava

Ao confessor,

Quando este lhe exprobava inconstancias d’amor:

Nem sempre gallinha,

Nem sempre rainha…

Imagina, por isso,

Oh Thomásia! Oh sereia!

Já não digo a paixão, mas o immenso derriço,

Que a ti me prende e enleia,

Vendo que já lá vão três semanas e meia

Desde que estás ao meu serviço!

Conservei a ortografia da 1ª edição do poema.

 

 

 

O poema foi publicado em 1926 no livro NOVAS BAILATAS, livro póstumo tal com SOL DE INVERNO publicado em 1922 e por muitos considerado como a sua obra-prima.

Os poemas reunidos em Bailatas e Novas Bailatas apresentam-se num registo “… misto singular de ironia e de sensibilidade, de graça bufa e de melancolia , às vezes, parecem haver sido escritas por um Pierrot, ao mesmo tempo sentimental e charivárico”, como os caracteriza Luis de Magalhães na notável noticia biobibliográfica com que apresenta  SOL DE INVERNO.

É neste SOL DE INVERNO que Alberto d’Oliveira, dedicatário de ORLANDO INNAMORATO, num texto a que chamou “António Feijó, o que morreu de amor”, faz através da correspondência trocada por ambos, uma comovida evocação dos últimos meses da vida do poeta após a morte da esposa.

À época, António Feijó era embaixador de Portugal na Escandinávia e os excertos da correspondência publicados deixam entrever o peso de se ter nascido meridional e poeta: “Do estio setentrional ficou-me apenas a inenarrável melancolia. Não imagina como pesa ao meu espírito esta paisagem, composta monotonamente de lagos, pinheiros e rochedos, sob uma luz pálida, misto de aurora e poente, tão triste, tão triste, que parece a obra de um Deus infeliz.”

É um poeta e escritor brilhante quem assim escreve.

Lida como um todo, a poesia de António Feijó revela, na sua perfeição formal, um exercício de inteligência como poucas vezes encontramos na poesia portuguesa.

E aqui fica a belíssima alegoria à morte do amor com o passar do tempo publicado em  SOL DE INVERNO:

 

O AMOR E O TEMPO

Pela montanha alcantilada
Todos quatro em alegre companhia,
O Amor, o Tempo, a minha Amada
E eu subíamos um dia.

Da minha Amada no gentil semblante
Já se viam indícios de cansaço;
O Amor passava-nos adiante
E o Tempo acelerava o passo.

– «Amor! Amor! mais devagar!
Não corras tanto assim, que tão ligeira
Não pode com certeza caminhar
A minha doce companheira!»

Súbito, o Amor e o Tempo, combinados,
Abrem as asas trémulas ao vento…
– «Por que voais assim tão apressados?
Onde vos dirigis?» – Nesse momento,

Volta-se o Amor e diz com azedume:
– «Tende paciência, amigos meus!
Eu sempre tive este costume
De fugir com o Tempo… Adeus! Adeus!»

 

 

 

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