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Quem ontem fui já hoje em mim não vive.
Bebe, que tudo é líquido e embriaga,
E a vida morre enquanto o ser revive.

 

Tendo como ponto de partida a versão inglesa por Edward Fitzgerald, dos quartetos de Omar Khayyam (1048-1132), publicada em 1910, Fernando Pessoa (1888-1935) apropria-se dos poemas para nos dar a sua visão desolada e amarga da vida por volta de 1930:


Vamos vivendo, e somos o que somos
Até que a quem não somos morte acuda.

 

ou neste outro poema:


Bebe. Se escutas, ouves só o ruído
Que ervas ou folhas trazem ao ouvido.
É do vento, que é nada. Assim é o mundo:
Um movimento regular de olvido.

 

 

Nestas reflexões estamos longo da atmosfera de festa e alegria que o vinho induz, e em variados poemas que aqui trouxe no passado recente se regista.

Para o poeta, a festa parece não existir, mas, como tantas vezes na sua poesia, sob a desolada lucidez, se alegria não há, o sonho às vezes espreita:

Olhando o mar, sonho sem ter de quê.
Nada no mar, salvo o seu mar, se vê.
Mas de se nada ver quanto a alma sonha!

 

e a esperança é algo para cultivar:


Não queiras, com submissa segurança,
Ter saudade de ter esperança.
Tem antes saudade de a não ter.

 

Deixo-o, leitor, com a escolha poética:

 

 

*
Tudo o que passa, porque passa, é nada.
Tudo o que fica coisa é parada.
O que nem passa ou fica não existe.
Bebe, que não há estada nem há estrada.

Devoto do que já não sei o que é,
Ao templo fui pelo meu próprio pé.
Mas vi que o templo era uma taberna.
Ali fiquei ébrio da minha fé.

Doze vezes o sol amável muda
De signo e sem ajuda nos ajuda.
Vamos vivendo, e somos o que somos
Até que a quem não somos morte acuda.
5-11-1933

 

 

**
Quanto fui jaz. Quanto serei não sou.
No intervalo entre o que sou e estou
A natureza, exterior, tem sol.
Mas, se tem sol, há sol. Ao sol me dou.

Não queiras, com submissa segurança,
Ter saudade de ter esperança.
Tem antes saudade de a não ter.
Entre o que a paz te não dará descansa.

Nada ‘speres, que nada salvo nada
Obtém que ‘supera: é como quem à estrada
Lance olhos de esperar que alguém lhe chegue
Só porque a estrada é feita para andada.

Ninguém suporta o peso mau dos dias
Salvo por interpostas alegrias.
Bebe, que assim serás o intervalo
Entre o que criarás e o que crias.

Quantas vezes o mesmo poente alheio
Sobre meu sonho, como um sonho, veio.
Quantas vezes o tive por augusto.
Tantas, tornado noite, perde o enleio.

Bebe. Se escutas, ouves só o ruído
Que ervas ou folhas trazem ao ouvido.
É do vento, que é nada. Assim é o mundo:
Um movimento regular de olvido.
4-10-1932

 

 

***
Olhando o mar, sonho sem ter de quê.
Nada no mar, salvo o seu mar, se vê.
Mas de se nada ver quanto a alma sonha!
De que me servem a verdade é a fé?

Ver claro! Quantos, que fatais erramos,
Em ruas ou em estradas ou sob ramos,
Temos esta certeza, e sempre e em tudo
Sonhamos e sonhamos e sonhamos.

As árvores longínquas da floresta
Parecem, por longínquas, ‘star em festa.
Quanto acontece porque se não vê!
Mas do que há ou não há o mesmo resta.

Se tive amores? Já não sei se os tive.
Quem ontem fui já hoje em mim não vive.
Bebe, que tudo é líquido e embriaga,
E a vida morre enquanto o ser revive.

Colhes rosas? Que colhes, se hão-de ser
Motivos coloridos de morrer!
Mas colhe rosas. Porque não colhê-las
Se te agrada e tudo é deixar de haver?
20-1-1933

 

Poemas transcritos de Canções de Beber na Obra de Fernando Pessoa, Edições de Arte, lda, Lisboa, 1997.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Henri de Toulouse-Lautrec (1864-1901).

 

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