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Uma escrita velada, em que o pudor se alia à palavra, percorre a poesia de Fernando Guimarães (1928). São poemas densos, de sentimento e emoção contidos, onde uma imensa cultura espreita, e sobressai ao longo do tempo um quase constante diálogo com a música erudita.

É com saboreada demora que leio esta poesia. Os artefactos artísticos, sobretudo pintura, além da música, e que dão o mote à maior parte dos poemas, leva-me a navegar pela minha própria fruição deles.

Poesia que nos conduz para a dimensão estética da vida, na forma usa em grande extensão o soneto para o relato poético, exigente instrumento na concisão e rigor.

Escolho por este calor de verão alguns poemas entre os poucos que dão conta de uma terna visão do amor, toda ela feita da música do entendimento:

Escuta só a voz
que traz a harmonia
dos rios que prolongam
em nós a poesia

 

Num registo mais carnal, acrescento dois poemas recheados de belos versos. O primeiro publicado em 1956 no livro A Face junto ao Vento:
Vem esconder dentro de mim,
onde o teu ser a medo principia,

— desenho nu feito das
linhas da tarde e do horizonte…

e termino com o poema A Posse, publicado no livro Como Lavrar a Terra, em 1975:

Um rosto sobre o peito o que escutava?
A canção, um contorno de mamilos
breve, se erguida a curva nas espáduas
era o desejo, e calma, largos rios.

 

Eis os poemas:

 

Poema

Vem esconder dentro de mim,
onde o teu ser a medo principia,
a longa curva sem rosto ou fim
de uma harmonia

que não escutes mas
fique suspensa como uma fonte:
— desenho nu feito das
linhas da tarde e do horizonte…

 

A Posse

Que súbita suspeita — dália enorme —
passara como a sombra nos teus cílios,
se a manhã chega enquanto de nós foge
o tempo que já tinha destruído.

Um rosto sobre o peito o que escutava?
A canção, um contorno de mamilos
breve, se erguida a curva nas espáduas
era o desejo, e calma, largos rios.

Cabelos desgrenhados, fugitivos,
e vento não havia, ou quase chama
nos rins, na pele, um cancro que consome

este pecado casto, e já os lábios
se fecham, quando rápida ou mais funda
em nós cresceu a ferida dos sentidos.

Poemas transcrito de Algumas das Palavras, Poesia Reunida 1956-2008, edições Quasi, V. N. Famalicão, 2008.

Abre o artigo a imagem de um desenho de Henri Matisse (1869-1954) para poemas de Pierre de Ronsard (1524-1585).

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