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Na poesia de Victor Hugo (1802-1885), o livro Les Orientales marca o aparecimento da sensualidade como assunto poético, para escândalo de alguns contemporâneos, como a história literária regista. Essa sensualidade, suposta em sociedades distantes e de algum modo misteriosas, tornou aceitável que sobre ela se escrevesse, tendo ganho enorme popularidade, e desencadeou a vaga orientalizante que até meados do século permeou a sociedade francesa, da pintura à moda, levando a sua influência ao resto da Europa.

 

A imitação do poema Sultan Achmet do livro Les Orientales por Henrique O’Neill (1823-1889) publicada em O Trovador no início dos anos 1850, e a seguir transcrita, é dela um exemplo.
A versão de O’Neill suaviza a sensualidade explícita do poema de Victor Hugo com a utilização de descrições ou vocábulos mais neutros que o original, p.ex: em vez de a abrir o poema como Victor Hugo escreve:

À Joana, a Granadina, / Sempre cantante e ladina, /

temos em O’Neill:

Nobre filha de Granada / Para ver um leve riso / Nessa face descorada /“;

ou então o termo debochado a meio do poema de Hugo, que desaparece na imitação de O’Neill, entre muitos outros exemplos.

Henrique O’Neill acrescenta ainda uma segunda sextilha, que o original não contém, para nos dizer que o sultão daria a vida para da bela apenas ouvir a voz; satisfazendo com esta declaração platónica o pudor de quem o lê.

 

Trata-se de um curioso exercício de assimilação e adaptação a um gosto puritano, de um poema transgressor, permitindo a sua leitura em português sem grande escândalo das boas consciências de leitoras e leitores da época.

 

 

O Sultão e a Cristã imitação de Victor Hugo por Henrique O’ Neill

— Nobre filha de Granada
Para ver um leve riso
Nessa face descorada
Dera meus paços doirados
E meus negros beduínos
Sobre camelos montados.

— Para tua voz ouvir
Com palavras de ternura
O que quiseras pedir
To dera, cristã gentil:
Dera a vida, a alma dera,
E mil céus, se fossem mil.

— Senhor, faze-te cristão,
Sou cristã, não posso ouvir
Juramentos dum sultão:
Se me queres por amante
Põe em vez da meia lua
Uma cruz nesse turbante.

— Anjo, demónio, mulher,
Muito mais do que me pedes
Aqui te juro fazer,
Se prometes de me dar
Os teus braços por cilícios
E por contas teu colar.

 

 

 

O Sultão Achmet 

poema de Victor Hugo em tradução de Manuela Parreira da Silva

À Joana, a Granadina,
Sempre cantante e ladina,
Disse o sultão com ardor:
— Eu daria sem favor
O meu reino por Medina,
Medina por teu amor.

— Faz-te cristão, rei sublime!
Pois não é bom que se afirme
O prazer ter encontrado
Nos braços de um debochado.
Não quero fazer um crime:
Já me basta um pecado.

— Com as pérolas cuja graça,
Minha rainha, realça
Do teu colo o branquear,
Eu farei por te agradar,
Se quiseres que eu faça
Rosário do teu colar

Outubro de 1828

 

 

 

Sultan Achmet original de Victor Hugo

À Juana la grenadine,
Qui toujours chante et badine,
Sultan Achmet dit un jour :
— Je donnerais sans retour
Mon royaume pour Médine,
Médine pour ton amour.

— Fais-toi chrétien, roi sublime !
Car il est illégitime,
Le plaisir qu’on a cherché
Aux bras d’un turc débauché.
J’aurais peur de faire un crime.
C’est bien assez du péché.

— Par ces perles dont la chaîne
Rehausse, ô ma souveraine,
Ton cou blanc comme le lait,
Je ferai ce qui te plaît,
Si tu veux bien que je prenne
Ton collier pour chapelet.

                  Octobre 1828

 

 

 

Notícia bibliográfica

O poema de Victor Hugo (1802-1885) é o poema XXIX do livro  Les Orientales, e pode ser encontrado em variadas edições de bolso.

A imitação do poema de Victor Hugo Sultan Achmet por Henrique O’Neill (1823-1889), O Sultão e a Cristã, foi publicada na revista O Trovador.

A tradução rimada do poema original por Manuela Parreira da Silva, foi transcrita de Victor Hugo, Poemas, Assírio & Alvim, Lisboa, 2002.

O assunto do poema de Victor Hugo ecoa um Ghazal de Hafez de Chiraz, o nº3. Leitores curiosos encontram a poesia de Hafez de Chiraz (séc. XIV), Le Divan, traduzida do persa e comentada em francês por Charles-Henri de Fouchécour, em Éditions Verdier, 2006.

Abre o artigo a imagem de um pormenor da pintura de Alexandre-Marie Cole (1798-1873), La belle orientale.

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