Continuo as voltas poéticas pela beleza feminina, desta feita o seu poder, com um poema (24) da colecção de Anacreonteas, poesias à maneira de Anacreonte, compostas bastante mais tarde, e das quais já falei no blog.

 

Detalhes sobre esta colecção de poesias encontram os leitores no artigo [Anacreontica XXXIII].

 

Mas voltando ao poema de hoje, trata o poema de especificar as capacidades que o criador distribuiu de forma diferenciada entre as espécies animais incluindo homens e mulheres.
Nesta distribuição assimétrica, tendo o criador deixado para o final a mulher, quando a ela chegou, apenas a beleza que seduz lhe sobrava. Daí as mulheres a terem recebido na abundância e características que lhes permitem, ao usá-la, derrotar qualquer homem, e todos sabemos como a beleza reveste as mais variadas formas.

 

Do poema grego original transcrevo quatro versões: uma primeira pela pena inspirada de António Feliciano de Castilho (1800-1875). Acompanhando a par e passo o poema original, dá-nos uma graciosíssima poesia em português.
Também o jovem Almeida Garrett (1790-1854) pelos seus trinta anos se mediu com o poema, embora com resultado poeticamente menos feliz que Castilho, e aqui também arquivo.
A seguir, uma tradução actual, fiel do original grego, sem preocupação de fazer poesia em português, por  Carlos A. Martins de Jesus.
Finalmente, Francisco M. G. da Silveira Malhão (1757-1809) dá-nos uma paráfrase com algumas liberdades poéticas em relação ao poema original.

 

Conservei os títulos atribuídos pelos diversos tradutores.

 

Vejamos primeiro Das Mulheres, versão por António Feliciano Castilho:

 

 

Das Mulheres

Deu ao touro a natureza
duras pontas por defesa;
ao corcel a pata bruta;
pé volante à lebre hirsuta;
ao leão presas tiranas.
Deu ao peixe as barbatanas;
vôo ao pássaro; ao varão
deu enfim, deu a razão.

À mulher a natureza
já não tinha mais que dar!…
Tinha apenas a beleza;
só com isso a pode armar.
Quem por lança e por escudo
tem beleza, que mais quer?
Vencem ferro, e fogo, e tudo,
os encantos da mulher.

 

 

 

Na mesma linha de aproximação fiel ao original e com preocupação de poesia em português, A Força da Mulher, versão de Almeida Garrett:

 

A Força da Mulher

Ao touro deu corneas pontas
A próvida natureza,
Deu à lebre a ligeireza,
E a dura pata ao corcel.

A voar ensina as aves,
A nadar ao peixe mudo;
E deu ao leão sanhudo
O dente destruidor:

Aos homens deu a prudência;
À mulher não pôde dá-la…
Acaso quis deserdá-la,
Ou então com que a dotou?

Por armas e por defesa
Deu-lhe as formas engraçadas
Que o ferro, o fogo, as espadas,
Que tudo podem vencer.

 

 

 

A seguir, a tradução directa a partir do grego por Carlos A. Martins de Jesus:

 

 

A Natureza chifres aos touros
deu e cascos aos cavalos,
agilidade de pés às lebres,
aos leões uma boca com dentes,
aos peixes a aptidão de nadar,
às aves a capacidade de voar
e aos homens a inteligência:
para as mulheres nada restava.
Que fazer? Deu-lhes a beleza
em vez de todos os escudos,
em vez de todas as espadas.
E vence mesmo sobre o ferro
e o fogo a mulher que seja bela.

 

 

 

Finalmente a paráfrase de Francisco Manoel Gomes da Silveira Malhão, Ao poder da formosura, dando conta da fluência versificatória que caracteriza a sua poesia:

 

 

Ao poder da formosura

Ao toiro, ao cavalo, às aves,
Aos mudos peixes do mar,
Deu prudente a natureza
Com que a força repulsar.

Ao toiro pôs-lhe na fronte
As pontas de arremeter;
Ao cavalo deu nas patas
Com que fugir, e ofender.

Às aves deu leves penas
Que fendem os densos ares,
Aos peixes as barbatanas
Que rasgam os fundos mares.

Ao leão sanhudo, e fero,
Além das garras valentes,
Deu-lhe boca larga, e funda,
Armada de agudos dentes.

Ao homem, este ser dotado
De mais alta perfeição,
Deu-lhe madura prudência,
Deu-lhe sagrada razão.

Por acaso das mulheres
A mãe comum se esqueceu?
Esgotou os seus tesoiros!
E ao frágil sexo que deu?

Deu-lhe mais; deu-lhe a beleza,
Impenetrável escudo!
Arma por si mais valente,
Que ferro, que fogo, e tudo!

Porque o rosto feiticeiro,
Duma galante mulher,
Abranda o peito mais duro,
Resiste ao maior poder.

 

 

Em apêndice, e para os leitores de grego, a versão do poema hoje generalizadamente aceite.

 

24
Φύσις κέρατα ταύροις,
ὁπλὰς δ’ ἔδωκεν ἵπποις,
ποδωκίην λαγωοῖς,
λέουσι χάσμ’ ὀδόντων,
τοῖς ἰχθύσιν τὸ νηκτόν,
τοῖς ὀρνέοις πέτασθαι,
τοῖς ἀνδράσιν φρόνημα·
γυναιξὶν οὐκέτ’ εἶχεν.
τί οὖν; δίδωσι κάλλος
ἀντ’ ἀσπίδων ἁπασῶν,
ἀντ’ ἐγχέων ἁπάντων·
νικᾶι δὲ καὶ σίδηρον
καὶ πῦρ καλή τις οὖσα.

 

 

Notícia bibliográfica

 

Poemas transcritos das seguintes obras:

António Feliciano de Castilho (1800-75), A Lyrica de Anacreonte, Paris, 1866;

Almeida Garrett (1790-1854), Flores sem fruto; Lisboa, IN, 3ª Ed., 1874;

Francisco da Silveira Malhão (1757-1809), As Odes de Anacreonte Parafraseadas, Impressão Regia, Lisboa, 1804;

Carlos A. Martins de Jesus, Anacreontea, Poemas à maneira de Anacreonte, editor José Ribeiro Ferreira, colecção Florir Perene nº 12, Coimbra, 2000.

 

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