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Há dias, numa prenda de anos antecipada, bebemos um vinho tinto reserva de 2007 da Quinta do Noval,  uma daquelas pérolas que fazem alguns vinhos do Douro sem paralelo.

Embora goste de beber, não gosto de me embriagar, o que na minha vida poderá ter acontecido duas ou três vezes. Ao começar da cabeça à roda, paro.

O vinho, presença e invenção das culturas mediterrânicas, que se estendem até à Pérsia, na definição de região mediterrânica de Orlando Ribeiro, mestre geógrafo nunca demais lembrado, o vinho, dizia eu, de invenção dos países onde as manifestações de cultura mais antigas se mostram, foi aqui, sempre, artigo de luxo e bebê-lo sinal de privilégio. É Orlando Ribeiro quem no-lo ensina:

O vinho é, tradicionalmente, um produto de qualidade, fino, variado e diverso como tudo o que é bom. Precisamente por não ser indispensável entre os artigos de consumo é que o vinho constitui produto requintado de uma grande civilização. (in Mediterrâneo, Ambiente e Tradição, pág. 97, ed.FCG, 1987).

A poesia, refinado eco cultural e social do homem, tem alguns tesouros em torno do vinho, sendo entre os mais divulgados, talvez, os que surgem nos Robaiyyat(*) de Omar Jayyam, poeta persa que terá vivido nos séc XI-XII:

Agora que a juventude vivo

beberei vinho, pois bebê-lo me compraz;

não mo deiteis em cara; apesar de amargo, é bom

amargo ele deve ser, pois amarga  me é a vida.

ou este:


Um antigo mestre encontrei na taberna

pedi-lhe notícias dos que já se foram;

disse-me: bebe vinho; muitos como nós

se foram e nenhum jamais regressou.


Outros há, e um cancioneiro exaustivo do vinho está por fazer.

É a propósito de beber vinho que trago um poema medieval, arqui-conhecido na forma cantada, evidenciando outra poesia medieval que não a de Francisco de Assis aqui deixada antes.

Dá ele conta de variados sem-pretexto necessários para beber. De caminho fala-nos da variegada paisagem humana que povoa aquele universo.

O poema, In Taberna quando sumus, escrito em latim medieval, integra uma colecção de canções descobertas na abadia beneditina de Beuren, no coração dos Alpes bávaros, no inicio do século XIX, das quais Carl Orff (1895-1982) retirou algumas e re-musicou de forma original, em 1953, criando uma das peças do repertório clássico mais conhecidas e populares: Carmina Burana.

A colecção terá sido redigida no final do século XIII, dando forma escrita a um património que circulava de boca em boca desde o século XII. Os estudos recentes do manuscrito terão permitido a atribuição de autoria em alguns poemas.

Trata-se da mais importante fonte da poesia em latim do século XII. Colecção heterogénea onde coexistem dramas litúrgicos, poemas morais, poemas de amor, canções de beber e convites ao jogo, enfim toda a panóplia da vida da época.

Esta In Taberna quando sumus pertencerá ao grupo das canções de goliardos e de clérigos vagantes, gente que deambulava de terra em terra fazendo pela vida e por gozar dela. É um pouco a vida de que Francisco de Assis desistiu para se entregar aos votos de pobreza e propagação da fé.

Deixo-vos com uma interpretação da peça e o texto da versão latina cantada. Acrescento a preciosa versão que do poema fez Jorge de Sena e publicou em Poesia de 26 Séculos.

 CARMINA BURANAIn Taberna quando sumus

In taberna quando sumus

In taberna quando sumus,
Non curamus quid sit humus,
Sed ad ludum properamus,
Cui semper insudamus.
Quid agatur in taberna,
Ubi nummus est pincerna,
Hoc est opus ut queratur,
Sic quid loquar, audiatur.

Quidam ludunt, quidam bibunt,
Quidam indiscrete vivunt,
Sed in ludo qui morantur,
Ex his quidam denudantur,
Quidam ibi vestiuntur,
Quidam saccis induuntur.
Ibi nullus timet mortem,
Sed pro Baccho mittunt sortem:


Primo pro nummata vini,
Ex hac bibunt libertini;
Semel bibunt pro captivis,
Post hec bibunt ter pro vivis,
Quater pro Christianis cunctis,
Quinquies pro fidelibus defunctis,
Sexies pro sororibus vanis,
Septies pro militibus silvanis.


Octies pro fratribus perversis,
Nonies pro monachis dispersis,
Decis pro navigantibus,
Undecies pro discordantibus,
Duodecies pro penitentibus,
Tredecies pro iter agentibus.
Tam pro papa quam pro rege
Bibunt omnes sine lege.


Bibit hera, bibit herus,
Bibit miles, bibit clerus,

bibit ille, bibit illa,
Bibit servus cum ancilla,
Bibit velox, bibit piger,
Bibit albus, bibit niger,
Bibit constans, bibit vagus,
Bibit rudis, bibit magus.


Bibit pauper et egrotus,
Bibit exul et ignotus,
Bibit puer, bibit canus,
Bibit presul et decanus,
Bibit soror, bibit frater,
Bibit anus, bibit mater,
Bibit ista, bibit ille,
Bibunt centum, bibunt mille.


Parum sexcente nummate
Durant, cum immoderate
Bidunt omnes sine meta,
Quamvis bibant mente leta;
Sic nos rodunt omnes gentes,
Et sic erimus egentes.
Qui nos rodunt confundantur
Et cum iustis non scribantur, Io!

E agora a versão de Jorge de Sena em português

Dos Carmina Burana,  In Taberna…

Na taberna quando estamos,
De mais nada nós curamos,
Que do jogo que jogamos,
Mais do vinho que bebemos,
Quando juntos na taberna,
Numa confusão superna
Que fazemos nós por lá?
Não sabeis? Pois ouvi cá.


Nós jogamos, nós bebemos,
A tudo nos atrevemos.
O que ao jogo mais se esbalda
Perde as bragas, perde a fralda,
E num saco esconde o couro,
Pois que um outro conta o ouro.
E a morte não val’um caco
Pra quem só joga por Baco.


Nossa primeira jogada
É por quem paga a rodada.
Depois se bebe aos cativos,
E a seguir aos que estão vivos,
Quarta roda, aos cristãos juntos.
Quinta roda, aos fieis defuntos.
Sexta, às putas nossas manas,
E sete às bruxas silvanas.


Oito, aos manos invertidos.
Nove, aos frades foragidos,
Dez, se bebe aos navegantes,
Onze, é para os litigantes,
E doze, dos suplicantes,
E treze, pelos viandantes.
Pelo Papa e pelo Rei
Bebemos então sem lei.


Bebem patroa e patrão,
Bebem padre e capitão,
Bebe o amado e bebe a amada,
Bebem criado e criada,
Bebe o quente e o piça fria,
Bebe o da noite e o do dia,
Bebe o firme, bebe o vago,
Bebe o burro e bebe o mago.


Bebe o pobre e bebei rico,
Bebe o pico-serenico,
Bebe o infante, bebe o cão,
Bebem cónego e deão,
Bebe a freira e bebe o frade,
Bebe a besta, bebe a madre,
Bebem todos do barril,
Bebem cento, bebem mil.


Nenhuma pipa se aguenta
Com esta gente sedenta,
Quando bebe sem medida
Quem de beber faz a vida.
E quem de nós se fiou,
Sem cheta s’arrebentou.
E quem de nós prejulgava,
Se quiser, que vá à fava.

Bebamos, pois, bebamos, à felicidade dos dias por vir.

Por esta época, e ainda era mesquita a igreja de Santa Maria em Tavira, nasceu na  cidade ABÛ ‘UTHMÂN sobre cuja poesia já escrevi, e para onde vos remeto, dando de novo conta deste círculo infindável que a poesia é:

ABÛ ‘UTHMÂN – meu conterrâneo

Notas e referências

(*) Robaiyyat é o plural de Robai, estrofe de quatro versos dodecassilabos em que rimam o primeiro e o segundo e o quarto, ficando livre o terceiro. Significa canto ou copla.

As traduções de Robaiyyat incluídas foram feitas a partir de versões castelhanas traduzidas directamente do farsi. Em Poesia de 26 Séculos tem Jorge de Sena algumas belas versões de Robaiyyat de Omar Jayyam.

As gravações de Carmina Burana de Carl Orff são às dezenas. Embora conheça algumas, a minha preferência vai para a que aqui deixei em fragmento, provavelmente por razões sentimentais. Foi a primeira que conheci e trouxe-a da Polónia nos idos de 70, daquela viagem que já aqui contei em Uma Aventura Polaca. A gravação Supraphon com solistas, coro e a orquetra de Praga, tem direcção do maestro Václav Smetácek, e contem as três cantatas cénicas de Carl Orff, TRIONFI,  onde se inclui CARMINA BURANA juntamente com CATULLI CARMINA e TRIONFO DI AFRODITE.

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