Sabereis do fogo da paixão por alguns poemas de Ibn Sahl de Sevilha (1212-1251), poeta judeu convertido ao islão no Al-Andaluz, e que hoje transponho para português.

Estes poemas tratam, aparentemente, de uma paixão alimentada na distância e sem correspondência. Dando conta da beleza e atrativo físico do ser amado, os poemas transmitem simultaneamente uma atmosfera febril de desejo e amargura onde a insónia se instala.

Do ser amado sabemos que:

*
Se a lua visse o seu rosto, prostrar-se-ia;
se o quarto crescente visse a sua face,
enrubesceria de vergonha.

 

Tamanha beleza incendeia os sentidos do nosso poeta, que o relata neste belo e conciso poema:

**
Esperava a concessão dos teus favores
deste-me a beber, com a distância, a amargura;
por Deus, acalma o ardente amor em meu peito
deixa-me beber tua saliva de mel.

 

Como a paixão não acalma, no seu fogo arde insone o poeta:

***
A doença da paixão de minha alma não tem outra cura
que beijar os lábios vermelho de tua bela boca.
Por Deus, pergunta pela minha sede aos teus dentes de pérolas,
e à tua fresca saliva de mel por meu fogo.
Que vai acontecer-me à alma, que por teu amor pereceu,
se não aceitas ouvir-me as queixas?
Cortaste-me as noites com a espada da insónia a tal ponto
que me converti pela mirada de teus olhos negros
num escravo ladrão.

 

A febre da paixão pode ter tomado proporções excessivas, a ponto de ser preciso ao poeta desculpar-se perante os outros:

****
Deixai de reprovar-me a paixão e desculpai-me,
emprestai-me vossas lágrimas se choro,
não censureis sua paixão a alguém como eu,
louco de amor. Sentísseis vós o que eu sinto,
mandar-me-íeis ignorar o sono:
pois eu, pela paixão, estou privado dele.
Vós conheceis o sono, mas meus olhos,
na amargura do tempo, não conhecem a união com o descanso.
Amigos, dizei-me a verdade,
que sabor tem o sono, que eu já o esqueci?

 

Antes que o poeta se consuma e acabe em cinzas, terminemos.
Estas paixões poéticas alheadas da vida de todos os dias, seus avatares e limitações, são alimento de alma sem consequência de maior, felizmente…

 

Versão portuguesa dos poemas por Carlos Mendonça Lopes.

 

Abre o artigo a imagem de uma miniatura persa de autor e época não identificados.

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