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Uma vez mais amor e afastamento são o pretexto para a poesia, aqui o soneto 44 de Shakespeare (1564-1616) numa peculiar versão de Vasco Graça Moura (1942-2014), o qual nos dá um belíssimo soneto em português.
Recusando aqui e ali a fidelidade lexical, a tradução de Vasco Graça Moura transporta para português a especiosa forma da expressão shakespeariana, como certamente os leitores com domínio do inglês comprovam pela leitura do original que à frente também transcrevo.

 

Soneto 44

Fosse-me carne opaca pensamento,
a vil distância não me deteria
e de remotos longes num momento
até onde te encontras eu viria.
Nem importava que tivesse os pés
no ponto que é de ti mais afastado:
o pensamento vai de lés a lés
mal pensa no lugar a que é chamado.
Mas mata-me pensar que em mim não pensas
para saltar as milhas quando vás;
feito de terra e água em partes densas,
espero em ânsias o que o tempo traz.
  Nem lentos elemento trazem mais
  do que choros, da nossa dor sinais.

Tradução de Vasco Graça Moura
in Os Sonetos de Shakespeare, versão integral, Bertrand Editora, 2007.

 

 

SONNET 44

If the dull substance of my flesh were thought,
Injurious distance should not stop my way;
For then, despite of space, I would be brought,
From limits far remote, where thou dost stay.
No matter then although my foot did stand
Upon the farthest earth removed from thee,
For nimble thought can jump both sea and land
As soon as think the place where he would be.
But ah, thought kills me that I am not thought,
To leap large lengths of miles when thou art gone,
But that, so much of earth and water wrought,
I must attend time’s leisure with my moan,
  Receiving naught by elements so slow
  But heavy tears, badges of either’s woe.

Transcrito de The Oxford Shakespeare, Complete Sonnets and Poems, Oxford 2002.

 

 

 

Abre o artigo a imagem de um fragmento da pintura de Antonio del Pollaiuolo (1431-1499), Apolo e Dafne, da coleção da National Gallery de Londres.

 

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