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A poesia com Deus pelo caminho é hoje pouco apreciada. E, no entanto, a presença de um qualquer sentimento religioso é um universal, ainda que umas vezes difuso e outras intelectualmente rejeitado.

Num curioso e fascinante livro, A Criação do Sagrado, Walter Burkert argumenta sobre uma possível raiz biológica do sentimento religioso, sem base outra que o seu conhecimento dos mitos e da história das religiões, afirmando que: Poderemos continuar a conceber a religião, paralela à linguagem e à arte e, acima de tudo, em estreita simbiose com ambas, como um híbrido de grande longevidade entre as tradições culturais e biológicas.

Os surpreendentes estudos em neurociência identificando a simbiose biologica de emoções, sentimentos e cultura, que prosseguem, certamente nos darão noticia num futuro próximo do quão fundamentada pode ser a tese do Professor Burkert.

Não sei que caminhos levam à necessidade de Deus, ou à sua revelação, sendo certo que se trata sempre de um percurso que é matéria de fé, onde a razão está ausente e a alegria interior se procura. O que segue é que o sentimento de Deus tem dado lugar a muita poesia.
Hoje recupero de um esquecido Manuel Paço D’Arcos (????-????) o poema que a seguir transcrevo, o qual convida exactamente a esse caminho místico:

Esquece tudo que foi um engano profundo,
Um errado caminho.
Traz contigo somente os sonhos de criança
E vamos todos, numa turba imensa,
Com os olhos no Céu,
E na alma a esperança,

E o poema prossegue num caminhar para Deus depois de, a abrir, convidar o leitor a virar costas mundo em que vive:

Homem,
Larga a ruina fumegante do teu mundo

concluindo como o papel redentor da religião é o guia para Edificar a Cidade do Amor.

 

Eis o poema integral:

 

Homem,
Larga a ruina fumegante do teu mundo
E vem comigo para o meu País do Sul
Onde a terra é virgem e o céu é sempre azul.
Esquece tudo que foi um engano profundo,
Um errado caminho.
Traz contigo somente os sonhos de criança
E vamos todos, numa turba imensa,
Com os olhos no Céu,
E na alma a esperança,
Levando Deus em nós e na sua presença,
E só em seu louvor,
Edificar a Cidade do Amor,
No meu País do Sul,
Lá, onde a terra é virgem e o Céu é sempre azul!

Transcrito de Manuel Paço D’Arcos, A Ilha e o Mar, Edições Ática, Lisboa, 1952.

 

Notas iconografia e bibliográfica

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Anselm Kiefer (1945), Bohemia Lies by the Sea, de 1996, pertencente ao MET de Nova York.
O pintor foi buscar este título a um poema do mesmo nome da austríaca Ingeborg Bachmann (1926 – 1973), no qual esta reflecte sobre a necessidade de conhecer e ter o que não existe, traduzida no poema pela metáfora do território da Europa central, a Bohemia, existir à beira-mar.
A pintura dá-nos a ver esse caminho de gente e coisas para lado nenhum, talvez em busca do sonho, ou de qualquer desejo inominado.

O poema de Ingeborg Bachmann pode ser encontrado no original, Böhmen liegt am Meer, e em tradução inglesa, Bohemia Lies by the Sea, no livro Darkness Spoken, The Collected Poems, Zephir Press, 2006.

A Criação do Sagrado, Walter Burkett, Edições 70, Lisboa, 2001.

 

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