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Entre a avalanche de palavras à procura da poesia, às vezes fulge o poema capaz de entrar em nós e aí ficar colado pela verdade extrema da sua perfeição. Hoje refiro-me ao poema Um Estranho no Meu Túmulo de Inês Dias, que a seguir transcrevo. Nele, cada verso é um absoluto na verdade do sentimento que transmite, e o todo dá conta do complexo desencanto de uma paixão que viveu da sua possibilidade entrevista.

Começamos uma relação, e toda a expectativa da felicidade por vir nos acompanha. Às vezes “Chegámos tarde a nós.” como escreve a abrir o poema Inês Dias, e essa é a evidência à posteriori do progressivo desaparecer da felicidade esperada.

No poema acompanhamos o desencanto revelado nos sinais exteriores do viver comum. E em vez do circunstanciado desenvolvimento do que sucedeu, é a mestria poética de Inês Dias que constrói num curto poema o relato da desilusão deste viver.

 

Um estranho no meu túmulo

Chegámos tarde a nós.
Eu tinha a pele gasta, o coração no fio.
Tu eras um longo muro de cimento areado
em que deixava a carne inteira
a caminho do encontro.

A primavera ficava-nos sempre
à esquerda e tu cada vez mais
dentro de mim até não sentir nada,
até estares já do outro lado.
Para trás, a cova matinal na almofada,
o postal entre a leitura suspensa,
o número a chamar de um fantasma.

Se apagar as marcas de onde pousaste
a cabeça sobre a minha vida,
se ganhar novo espaço para o fôlego,
faz-me só um favor:
nunca mais me reconheças.

Transcrito de In Situ, Língua Morta, Abril de 2012.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Christian Schad (1894-1982), Auto-retrato de 1927. A pintura pertence a uma coleção privada.

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