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O pó da história reina sobre os esplendores da arte bizantina de Ravena, pretexto de meditação sobre o efémero do poder e a dimensão terrena dos seus tenentes. O tempo passa, os poderosos morrem, a arte guarda vestígios dessa existência, e apenas a poesia resiste ao tempo:


À noite, inclinado entre as colinas,
Só, pondo os séculos à prova,
Dante — perfil aquilino —
Canta para mim da Vida Nova.

 

Assim termina Aleksandr Blok (1880-1921) a sua reflexão poética sobre a cidade e a história na belíssima versão de Augusto de Campos do poema Ravena que a seguir transcrevo.

 

 

 

Ravena

Tudo o que é instante, tudo o que é traço
Sepultaste nos séculos, Ravena.
Como uma criança, no regaço
Da eternidade estás, serena.

Sob os portais romanos os escravos
Já não trazem mosaicos pelas vias.
O ouro dos muros arde
Nas basílicas lívidas e frias.

Os arcos dos sarcófagos desfazem,
Sob o beijo do orvalho, as cicatrizes.
Nos mausoléus azinhavrados jazem
Os santos monges e as imperatrizes.

Todo o sepulcro gela e cala,
Os muros mudos, desde o umbral,
Para não acordar o olhar de Gala*,
Negro, a queimar por entre a cal.

Das pesadas de sangue e dor e insídia
O rasto já se apaga e se descora.
Para que a voz gelada de Placídia*
Não se recorde das paixões de outrora.

O longo mar retrocedeu, longínquo.
As rosas circundaram as ameias,
Para que os restos de Teodorico
Não sonhem com a vida em suas veias.

Onde eram vinhedos — ruínas —
Gentes e casa — tudo é tumba.
Sobre o bronze as letras latinas
Troam nas lages como trompa.

Apenas no tranquilo e atento olhar
Das moças de Ravena, mudamente,
Às vezes uma sombra de pesar
Pelo irrecuperável mar ausente.

À noite, inclinado entre as colinas,
Só, pondo os séculos à prova,
Dante — perfil aquilino —
Canta para mim da Vida Nova.

 

 

Tradução de Augusto de Campos
in Linguaviagem, editora Schwartz, São Paulo, 1987.

 

 

* Gala Placídia – https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Mausoléu_de_Gala_Plac%C3%ADdia

 

O artigo de Wikipédia no link anterior disponibiliza abundante informação sobre Gala Placídia, a sua biografia, e o mausoléu em Ravena referido nas quadras 3 e 4 do poema.

 

 

Abre o artigo a imagem de um mosaico, O Bom Pastor, na luneta sobre a porta de entrada no mausoléu de Gala Placídia em Ravena.

 

 

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