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Van Gogh - Esplanada em ArlesVolver às rimas suaves,
Aos metros embaladores,
Cantar o canto das aves,
A aurora, a brisa e as flores…

Vibrar na deposta lira
Dos trovadores sepulcrais
Delidas queixas d’Elvira,
Zelos de bardo, fatais…

Para que nessa ficção,
De outras apenas diferente,
Ao fogo do coração
Arda a razão descontente.

A espaços encontramos ao ler poesia aquela especial forma de dizer dos homens e do mundo que nos emociona. Acontece tal em alguns poemas de Reinaldo Ferreira (1922-1956), poeta de curta vida e obra póstuma, que hoje visito.

Ingénua e juvenil interrogação do Eu em muitos dos poemas, há no verso uma fragilidade pressentida que, associada ao desencanto sobre a vida que os poemas relatam, comovem o leitor despreconceituado.

Aí fica uma pequena escolha.

*
Duma outra infância inventada,
Guardo memórias que são
Reais reversos do nada
Que as verdadeiras me dão.

Estas, se acaso regressam,
Em tropel e confusão
Ao limiar-me, tropeçam
No corpo das que lá estão.

Assim mentindo as raízes
Do meu confuso começo,
Segrego imagens felizes
Com que as funestas esqueço.

*
Olhos iguais, outro olhar,
Silêncios da mesma voz,
Memória vaga e lunar
Do sol que fôssemos nós…

Assim erramos incertos,
Juntos, distantes, cansados,
Mordendo o pó nos desertos
Onde houve relvas e prados.

E a Vida escoa-se, enquanto
O tempo, alheio à vontade,
Desliza, remoto pranto
Duma tranquila orfandade.

*
Eu, Rosie, eu se falasse, eu dir-te-ia
Que partout, everywhere, em toda a parte,
A vida égale, idêntica, the same,
É sempre um esforço inútil,
Um voo cego a nada.
Mas dancemos; dancemos
Já que temos
A valsa começada
E o Nada
Deve acabar-se também,
Como todas as coisas.
Tu pensas
Nas vantagens imensas
Dum par
Que paga sem falar;
Eu, nauseado e grogue,
Eu penso, vê lá bem,
Em Arles e na orelha de Van Gogh…
E assim entre o que eu penso e o que tu sentes
A ponte que nos une — é estar ausentes.

Termino com uma desencantada e possível visão do Futuro, escrita a partir da sociedade colonial de Moçambique dos anos 50 do século XX :

O FUTURO

Aos domingos, iremos ao jardim.
Entediados, em grupos familiares,
Aos pares,
Dando-nos ares
De pessoas invulgares,
Aos domingos iremos ao jardim.
Diremos, nos encontros casuais
Com outros clãs iguais,
Banalidades rituais,
Fundamentais.
Autómatos afins,
Misto de serafins
Sociais
E de standardizados mandarins,
Teremos preconceitos e pruridos,
Produtos recebidos
Na herança
De certos caracteres adquiridos.
Falaremos do tempo,
Do que foi, do que já houve…
E sendo já então
Por tradição e formação
Antiburgueses
— Solidamente antiburgueses—,
Inquietos falaremos
Da tormenta que passa
E seus desvarios.

Seremos aos domingos, no jardim
Reaccionários.

Transcrevi os poemas da primeira edição da obra poética, POEMAS, coligida por Eugénio Lisboa, suponho, e editada em Lourenço Marques, hoje Maputo, em 1960, por Imprensa Nacional de Moçambique.

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