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Matéria dos sentidos, a ópera é das manifestações artísticas aquela onde a razão sossobra como exigência de um gostar. É no absoluto triunfo do irracional que o sublime se manifesta. E aí, o prazer é quase infinito.

Quem me conhece sabe desta minha paixão. Como seria de esperar tenho as minhas preferências e algumas de ilha deserta. Hoje partilho convosco a que é, provavelmente a ária que mais vezes ouvi, em dezenas de interpretações: Casta Diva. A todas as interpretes sobrepõe-se Montserrat Caballé, e a ela regresso frequentemente.

Norma - Caballé Orange 1974

De um espectáculo memorável no Théatre Antique d’Orange em 20 de Julho de 1974 em que a Caballé cantou a Norma, saiu-me esta homenagem com a audição de Casta Diva:

Do silêncio,
da noite de breu
ergue-se um som de flautas.
Quente, o vento varre o palco nu.
Um foco apenas.
De negro, alta, imóvel, o cabelo esvoaçante,
canta.
Do sussurro, a voz ergue-se
cresce
soluça
estrondeia
e extingue-se.

Silêncio!

Colados à cadeira,
ouvimos…

Da paixão o canto…

Por momentos
a beleza passou sobre nós.

Deixo-vos a gravação da ária no disco de estreia da Diva publicado em 1966.

Casta Diva – o poema original em italiano

Casta Diva, che inargenti
queste sacre antiche piante,
a noi volgi il bel sembiante,
senza nube e senza vel.

Tempra, o Diva,
tempra tu de’ cori ardenti,
tempra ancora lo zelo audace,
spargi, in terra, ah, quella pace
che regnar tu fai nel ciel, etc.

… 


Fine al rito ; e il sacro bosco
sia disgombro dai profani.
Quando il Nume irato e fosco
chiegga il sangue dei Romani,
dal druidico delubro
la mia voce tuonerà.

Cadrà! punirlo io posso…
(Ma, punirlo, il cor non sa.)

(Ah! bello a me ritorna
del fido amor primiero:
e contro il mondo intiero
difesa a te sarò.
Ah! bello a me ritorna
del raggio tuo sereno;
e vita nel tuo seno
e patria e cielo avrò, etc)

( Ah!
Ah! , bello a me ritorna, etc.)

(Ah! riedi ancora qual eri allora,
quando il cor ti diedi allora, etc.
ah, riedi a me.)
Norma parte, seguida por todos em ordem

Giuditta Pasta (1797-1865) foi a cantora que estreou Norma em Milão a 26 de Dezembro de 1831, e cujo retrato vos deixo.

Giuditta Pasta - Norma da estreia

Nota erudita

Casta Diva é uma ária da ópera Norma de Vincenzo Bellini(1801-1835), expoente do romantismo musical italiano.

A acção da ópera decorre na Gália (França) ocupada pelos Romanos, por volta de 100 anos da nossa era. Norma, sacerdotisa dos Druidas, vive uma paixão secreta pelo general romano ocupante, do qual tem 2 filhos.

A ária Casta Diva é uma invocação cerimonial à deusa da floresta solicitando um sinal para romper a paz com os romanos e expulsá-los do país.

Na ária jogam-se a complexidade de sentimentos do dever perante o povo, da vontade de liberdade, e do amor pelo inimigo (Ma, punirlo, il cor non sa.) (Mas puni-lo não sabe o coração). Norma por um lado faz as invocações rituais coadjuvada pelo coro, e por outro em inflexão da linha melódica dá-nos conta da complexidade dos seus sentimentos perante a quebra dos votos de castidade e desejo de viver com o inimigo.

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