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Ter encanto é uma qualidade que apenas ou outros podem reconhecer em nós. Dá-nos certamente satisfação, e há quem viva mal quando não sente esse reconhecimento.
Perder o encanto com o tempo parece um lugar comum de aceitação universal. Ninguém se pergunta porque nos parece isso natural. E será?
O encanto, que não a beleza física, é uma soma de variadas qualidades onde cada um valoriza umas mais que outras. E no entanto, nenhum de nós consegue aceitar que o encanto aumenta à medida que envelhecemos.

 

Há algum tempo, num artigo de opinião do NYTimes, uma investigadora universitária dava conta dos resultados de uma pesquisa sobre as reações a palavras para designar as pessoas mais velhas, e o próprio envelhecimento. A única exclusão era a palavra old (velho) por, no entender dos estudiosos, a palavra carregar elevado peso pejorativo, e tratava-se de a substituir na linguagem comum.
Quando li o artigo, este trazia mais de mil comentários em muito poucos dias, e por uma vez, cada comentário era mais preciso, elegante, e lúcido que o artigo, sendo os comentários, afirmativos à uma do orgulho de ser velho, aceitando a palavra velho com naturalidade e ridicularizando todos e cada um dos termos alternativos propostos no estudo.

 

Ter envelhecido, e tirar proveito da vida vivida é onde reside o encanto; na manifestação vigorosa da satisfação de aproveitar o melhor que a vida entretanto trouxe está o segredo. E isso, só o sabemos depois de a vida viver.

 

Num poema de início do século XX, Karle Wilson Baker (1878-1960), dá conta do desejo de ganhar encanto com o tempo:
Let me grow lovely, growing old — / …

 

deixando uma interrogação para a qual não tem resposta:

Why may not I, as well as these,
Grow lovely, growing old?

 

Na verdade, é cada um de nós quem precisa de a encontrar, e perceber como tal resposta pode mudar o sentido da vida que vivemos.

 

 

Poema

Que eu tenha mais encantos, com o tempo —
Como sucede às coisas preciosas:
Oiro, marfim, as sedas, como as rendas
Ganham em não ser novas.

Que saudáveis que são as árvores velhas,
E as velhas ruas têm outro assento;
Porque não hei-de então ser como elas,
Que têm mais encantos com o tempo?

Tradução de Herculano de Carvalho
in Oiro de vário tempo e lugar, Asa Editores, 2001.

 

 

Poema original

Let me grow lovely, growing old —
So many fine things do:
Laces, and ivory, and gold,
And silks need not be new;

And there is healing in old trees,
Old streets a glamour hold;
Why may not I, as well as these,
Grow lovely, growing old?

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Fernando Botero (1932), Casal dançando.

 

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