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edouard-manet-le-bon-bock-portrait-of-emile-bellot-500pxExiste cada vez mais a consciência de que a vida afectiva não se extingue progressivamente à medida que a idade avança. Pelo contrário, mesmo entre quem envelhece, o reconhecimento da satisfação afectiva para o conjunto do equilíbrio funcional ganha terreno, tal como junto da família que vê os seus maiores envelhecer. Apenas o envelhecimento do corpo dita as adaptações ao exercício dessa afectividade.

 

De uma forma suave e tocante, António Manuel Couto Viana (1923-2010) no poema que a seguir transcrevo — Madrigal da terceira idade para afastar a solidão — dá conta dessa manifestação da necessidade afectiva numa vida em idade avançada: o poeta tinha 82 anos quando o escreveu.

 

 

 

Madrigal da terceira idade para afastar a solidão

 

É um amor discreto,
Ignorado, até.
Só um gesto de afecto,
Um sorriso secreto,
Desfeito, se alguém vê.

 

É um amor tranquilo,
De alguém que quer alguém
Prá solidão do asilo.
— Coração, ao senti-lo,
Nem aceleras, nem…

 

É um amor-amizade.
Um amor-simpatia.
Mas, mesmo assim, ele há-de
Deixar dor e saudade
E gerar poesia.

 

24-11-2005

 

in Disse e Repito, Averno, Lisboa, 2008.

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