Desde a sua invenção nunca o soneto deixou de desafiar poetas.

Poema de 14 versos em verso decassílabo rimado, ordenado em quatro estancias geralmente de duas quadras com dupla rima seguidas de dois tercetos.

No seu desenvolvimento o soneto exige ser construido numa espécie de silogismo, como bem lembrava Manuel Borralho nas suas Luzes de Poesia (1724), partindo de premissa(s) e rematando com uma conclusão, sendo o último verso do soneto, a certa altura,  chamado de chave de ouro.

Apresentado o tema na primeira quadra, deverá o poema dar continuidade ao assunto que se propõe, desenvolvendo a ideia que lhe subjaz, e concluindo-se de forma coerente com o argumentado.

Sendo uma forma poética de meu especial agrado, e existindo na literatura portuguesa elevado número de sonetos belíssimos, tenho por diversas vezes falado e transcrito sonetos. Hoje reúno um conjunto especial em que o assunto é a própria dificuldade em escrever um soneto.

Começo por Lope de Vega (1562-1635) que assim respondeu a Violante quando lhe pediu um soneto:

 

Un soneto me manda hacer Violante / Um soneto me faz fazer Violante

Y en vida nom me he visto en tal aprieto; / Nunca na vida estive tão inquieto;

Catorce versos dicen que es soneto: / Catorze versos dizem que é soneto,

Burla burlando, van los tres delante. / Brinca brincando vão os três diante.


Yo pensé que no hallara consonante / Pensei que não achava consoante

E estoy a la mitad de otro cuarteto; / E a metade estou deste quarteto;

Mas, si me hallo en el primer terceto, / Mas, se me vejo no primeiro terceto,

No hay cosa en los quartetos que me espante. / Nada há nos dois quartetos que me espante.


Por el primer terceto voy entrando / pelo primeiro terceto vou entrando

Y aún presumo que entré por pie derecho, / E parece que entrei com o pé direito,

Pues fin con este verso le voy dando. / Pois fim com este verso lhe estou dando.


Ya estoy en el segundo y aún sospecho / No segundo já vou e até suspeito

Que estoy los trece versos acabando: / que estou os treze versos acabando;

Contad si son catorze, y esté hecho. / Contai se são catorze e já está feito.

Rima: (ABBA / ABBA / CDC / DCD)  /  (ABBA / ABBA / CDC / DCD)

No livro Abandono Vigiado publicado por Alexandre O’Neill (1924-1986) em 1960 encontro o soneto QUATORZE VERSOS tendo como epígrafe o primeiro verso deste soneto de Lope de Vega.

Deliberada homenagem a um poeta maior, pois o poema anterior é outra homenagem, essa a

João Cabral de Melo e Neto, / Você não se pode imitar, / mas incita a ver mais perto, / com mais atenção e vagar, / o que está como que em aberto, / …,

o soneto QUATORZE VERSOS brinca, também ele, com a arte de escrever sonetos, na qual O’Neill foi exímio como nestes SONETOS GARANTIDOS… páginas antes no mesmo livro, e que não resisto a transcrever:

SONETOS GARANTIDOS…

Sonetos garantidos por dois anos.

E é muito já, leitor que mos compraste

para encontrar a alma que trocaste

por rádios, frigorificos, enganos…


essa tristeza sobre pernas faz-te

temeroso e cruel e tonto e traste.

Nem pior nem melhor que outros fulanos,

não vês a Bomba e crês nos marcianos…


e é para ti que escrevo, é para ti

que um verso lanço – ó mão! – como o destino,

nel’ ponho mesura, desatino,


rasgo, invenção, lugar-comum protesto?

Antes para soldado ou para resto,

escroto de velho, ronco de suíno…

Mas voltanto à dificil arte do soneto temos então no soneto QUATORZE VERSOS uma eloquente demonstração:


QUATORZE VERSOS

O primeiro é assim: fica de parte.

No segundo já posso prometer

que no terceiro vai haver mais arte.

Mas afinal não houve… Que fazer?


Melhor será calar, pois que dizer

nem no sexto conseguirei destarte.

Os acentos errados é favor não ver;

nem os versos errados, que também sei hacer


Ó nono verso porque vais embora

sem que eu te sublime neste décimo?

Ao décimo-primeiro dediquei uma hora.


Errei-o. Mas que importa se a poesia,

mesmo que o não errasse, já não vinha?

É este o último e, como os outros, péssimo…

Ficaria por aqui não fora Manuel Alegre (1936) no seu livro Sonetos do Obscuro Quê publicado em 1993, vir explicitamente a este soneto de O’Neill quando se debruçava sobre a arte de escrever poesia em forma de soneto. Temos então, agora de Manuel Alegre:

Desata-se-me o verso no primeiro

no segundo de vento vai vestido

no terceiro de mar e marinheiro

no quarto está perdido está perdido.


Recupero-o no quinto sem sentido

no sexto deito-o à sombra de um sobreiro.

No sétimo com dante digo:”Guido

sê tu no oitavo verso o companheiro”.


Porque não espero de voltar no nono

leva-me O’Neill no décimo a um terceto

que aponte já no onze o sul e o sal.


Ao décimo segundo chega o sono.

No treze está a chave do soneto

mas nem sempre o catorze é o final.

Vamos pois dormir, a conselho do poeta, não sem antes referir que a tradução do poema de Lope de Vega é de José Bento e que se lê com proveito, o artigo SONETO publicado no DICIONÁRIO DE LITERATURA, sob a direcção de Jacinto do Prado Coelho e assinado por António Coimbra Martins.

 

Nota final: Quatorze ou Catorze? Escolha o leitor. Apenas reproduzi o conteúdo das edições impressas que possuo. Antes do Acordo Ortográfico Quatorze seria para Portugal e Catorze para o Brasil.

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