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Refeito do choque de um acidente grave: despiste, capotamento, e carro para a sucata, de onde saí ileso, regresso à poesia.
Da multidão de pensamentos que nos assaltam no rescaldo de experiência tão marcante, é a crença no milagre que acaba por preencher o imenso da interrogação.
Se medimos o pulso ao mundo pela nossa experiência pessoal, olhar em volta e colocar em contexto essa experiência é parte essencial de um recentrar a importância do que nos acontece no mais vasto contexto da envolvente. O poema de Guillevic (1907-1997), Lição de Coisas, que a seguir transcrevo, para isso mesmo chama a atenção.
Lição de Coisas
O sangue é um líquido complicado
Que circula. É de um vermelho
Que aliás não se vê e que muda
Como uma planura sob várias luas.
O sangue contém corpos numerosos
Dos quais algumas pessoas sabem a fórmula.
É o nosso sangue. É ele
Que anda à volta, que volta,
Que alimenta.
O sangue derrama-se facilmente,
Basta-lhe apenas uma abertura.
O sangue de um morto por acidente
Não é o mesmo, na rua,
Que o de um morto pela liberdade,
Derramado na mesma rua.
Tem cada qual um modo particular
De ser vermelho e de gritar.
Tradução de David Mourão-Ferreira
in Vozes da Poesia Europeia III, Colóquio Letras nº165, Set-Dez 2003.
Abre o artigo uma foto de Christopher Anderson, fotógrafo da Magnum, intitulada New York City 2008.
