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Demitir-se da esperança — poemas de Günter Kunert

17 Terça-feira Nov 2015

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Diego Rivera, Günter Kunert

Diego Rivera - Dia de FinadosAlguém alertava por estes dias quanto a indiferença é um perigo maior nas sociedades ocidentais hoje. Na verdade, as mortes por centenas correm todos os dias nas televisões sem sobressalto cívico evidente. Apenas a morte à porta de casa ainda consegue mobilizar por momentos a dor. E, no entanto, neste mundo que é o nosso, volta a ser necessário separar as águas entre quem quer viver connosco e quem que se exclui do convívio humano do século XXI.

Foi há menos de trinta anos que na Europa os regimes onde o arbítrio era lei se desmoronaram. Duraram quase cinquenta anos, e enquanto duraram, mesmos para aqueles que acreditaram na verdade das palavras, a esperança foi morrendo, levada pela espera de um paraíso que nunca chegou.

Transcrevo hoje dois poemas de Günter Kunert (1929) poeta alemão que viveu adulto no que foi até 1989 a Alemanha de Leste (RDA), a qual deixou em 1979 fixando-se perto de Hamburgo na RFA. São poemas escritos num contexto de desilusão e perda de ideais, e disso dão conta de forma exemplar.

A Pergunta

 

Esperar o quê

os mortos calam-se ou são silenciados

só nas bichas para lojas vazias

se verifica crescimento contínuo:

A agitação não traz

senão benção

fraternidade em papel de jornal

para embrulhar

 

Nenhuma hora regressa

e cada novo dia executa

o anterior com maior esforço:

 

Uma história curta e brutal

cheia de longas promessas

que já não conseguem abafar

as tuas perguntas

 

Tradução de Ana Tönnies

 

 

(DE)MISSÃO

 

Demitir-se da esperança

como uma carta sem endereço

impossível de entregar e

não dirigida a ninguém

 

Como um peso

Como aquele bloco de mármore

que sempre me fugia

até que eu percebi que não

fazia sentido o esforço

de o empurrar continuamente

para a minha boa consciência

 

Uma esperança incurável

por fim dolorosamente

insuportável

um corpo estranho enquistado

encrostado e endurecido

monstruosidade

que me não pertence e a que

não quero pertencer

 

A mais difícil missão é:

saber demitir-se

Aqueles que começam pela esperança

já aprenderam a sua

lição

 

Tradução de João Barrento

 

 

in 90 Poemas de Günter Kunert, tradução colectiva, com seis desenhos de Mário Botas e um ensaio de João Barrento, edição apáginastantas, Lisboa, 1983.

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