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Do vasto funda da literatura grega antiga respigo hoje algumas facécias de  Philogelos, (O Gracejador) na tradução portuguesa. Obra de autoria desconhecida e compilação em data incerta, mas posterior ao séc. IV, atribuída a dois autores, Hiérocles e Filágrio, é uma colecção de gracejos em que os ecos de alguns deles, transformados, chegaram até nós (p. ex. os nºs 9 ou 148). Escolho sobretudo idiotices, ou piadas com e sobre idiotas, afinal muito do alimento das cenas de comédia e “apanhados” nas televisões dos nossos dias.

De caminho, acompanho a escolha com algumas gravuras com fisionomias humanas, presumo que inventadas, incluídas na obra De humana physiognomonia (1586), de Giovanni Battista della Porta (1535-1615), constituindo elas um mosaico de plausíveis espécimes de humanidade.

Eis a escolha:

3.  Um indivíduo, ao consultar um médico idiota, fez a seguinte afirmação: – “Doutor, sempre que me levanto depois de dormir, sinto-me zonzo durante uma meia hora, mas depois fico bem.” Ao que o médico respondeu: – “Então espere meia hora antes de se levantar.”

9. Um idiota tentou ensinar o seu burro a não comer tanto, não lhe dando alimento. Todavia, como o burro morresse, ele exclamou. “Que grande desgraça!  Mal eu o tinha ensinado a não comer, dá-lhe para morrer!”

93. Tendo verificado que uma escada tinha vinte degraus a subir, um néscio procurou indagar quantos é que tinha a descer.

88. Quando escalou uma montanha escarpada ao regressar a casa de uma viagem, um simplório, admirado, constatou: “Não consigo entender. Da primeira vez que passei por aqui era uma descida. Como é possível que tenha mudado tão depressa para uma subida?”

11. Pretendendo saber que aspecto tinha enquanto dormia, um imbecil pôs-se à frente de um espelho com os olhos fechados.

15. Tendo sonhado que tinha pisado um prego, um desmiolado resolveu pôr uma ligadura no pé. Explicou o porquê a um amigo, que indagou o que lhe tinha acontecido. “Não admira que nos chamem parvos!”, explicou o amigo. “O que é que te deu para dormires descalço?”

70. Ao chegar para visitar um amigo doente, um idiota foi informado pela esposa que o seu amigo já tinha partido. – “Então quando ele regressar, diga-lhe que eu estive aqui.”

104. Um avarento colocou-se a si mesmo como herdeiro no próprio testamento.

154. Em Cumas, alguém perguntou aos condolentes do funeral de um distinto cidadão: “Quem é o morto?” Um dos habitantes de Cumas voltou-se e apontou o dedo, esclarecendo: “É aquele ali, que vai estendido no carro fúnebre”.

171. Um homem de Cumas entregou o corpo do seu pai que tinha falecido em Alexandria a um embalsamador. Voltou mais tarde para ir buscá-lo, mas o embalsamador, que estava rodeado de outros corpos, perguntou que marca distintiva é que o seu pai tinha. – “Tossia muito.”

247. Um misógino estava a enterrar a sua falecida mulher. “Quem é que ganhou o descanso eterno?”, perguntou alguém. “Eu, agora que me vi livre dela.”

148. Um barbeiro tagarela perguntou a um engraçadinho: “Como é que eu devo cortar o teu cabelo?”. “Em silêncio” – disse ele.

206. Perguntou-se a um cobarde: “Que navios são mais seguros – navios de guerra ou navios mercantis? “Navios atracados.” – foi a sua resposta.

207. Tendo passado a noite inteira a sonhar que estava a ser perseguido por um urso, um caçador cobarde comprou uns cães e pô-los a dormir consigo.

Termino com uma brejeirice, que a colecção também contém.

251. Uma mulher tinha um escravo atrasado mental. Mas quando ela se apercebeu que ele possuía uma protuberância excepcionalmente grande, desenvolveu uma paixão por ele. Cobriu a cara com uma máscara para que ninguém a reconhecesse e levou-o para a cama. Mas nisto ele identificou de quem se tratava. Então chegou ao pé do senhor da casa e disse com uma risada: “Senhor, senhor! Dormi com a dançarina mascarada e a senhora estava lá dento!”

 

in Hiérocles e Filágrio, Philogelos (O Gracejador). Tradução do grego, introdução e notas: Reina Marisol Troca Pereira, Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos, Universidade de Coimbra, 2013.

A numeração que antecede cada facécia é a desta edição.

Fecho o artigo com a imagem de abertura da obra De humana physiognomonia onde podemos ver um retrato do seu autor, Giovanni Battista della Porta.