Arcimboldo - O homem dos livrosNão sei como seria uma vida sem livros. O saber escrito que os livros guardam é uma dádiva apenas conhecida dos poucos que lêem, e para esses esta conversa é desnecessária.

Numa terrível história de Ray Bradbury filmada há anos por François Truffaut, Fahrenheit 451, um regime tinha proibido os livros, e todos os que fossem encontrados seriam queimados (daí o título da história pois 451 é a temperatura em graus Fahrenheit a que arde o papel). As pessoas para quem a vida sem livros não tinha sentido, fugiram para uma floresta e aí cada um encarregou-se de decorar por inteiro um livro, e assim assegurar a sua transmissão.

Muita gente vive bem sem livros, não é essa a questão. A vida faz-se da experiência de a viver e não de ler a sua ficção. Mas como vivemos tão mais felizes quando acrescentamos ao comezinho dos nossos dias a imensidão dos relatos sobre mundos que de outra forma nunca suspeitaríamos a existência. Há uma alegria interior na leitura que nos empolga, dificilmente comparável com outras experiências. Mas há mais. Nem sempre a vida nos confronta com o bem e o mal na forma decisiva que uma história ficcionada pode fazer. E há os valores. Por exemplo, aprender a verticalidade, a honradez no trato com os outros, valores hoje pouco prezados e de difícil apreensão no quotidiano, e esses, a par de outros, vamos encontrá-los e entender a sua importância em obras de ficção. Tantos outros aspectos podia trazer à conversa. Milan Kundera, num ensaio em defesa do romance, evidencia quanto a invenção do romance como o conhecemos desde o século XIX permitiu ao leitor, no espaço de algumas horas, percorrer anos de vida em ambientes geográficos e sociais que lhe são completamente estranhos no seu que fazer quotidiano, e assim apreender do mundo bastante mais que o horizonte da sua janela.

Foi com Pinóquio em versão ilustrada recebido de oferta aos cinco anos, ao que me recordo, o desvendar do mundo encantado dos livros. Sucederam-se as histórias infantis trazidas de empréstimo da biblioteca itinerante Gulbenkian, no vai-vem semanal das quartas-feiras, até às empolgantes aventuras dos 5. Depois, embarcado nestas aventuras que acrescentavam outras vidas ao meu mundo, vieram os mosqueteiros do Sr. Dumas, as aventuras escocesas e outras de Stevenson, as terríveis lutas narradas por Walter Scott, até que pelos quatorze anos entrei na literatura adulta de As Vinhas da Ira, O Vermelho e o Negro, e O Idiota de Dostoievsky. Foi a partir daí um sem fim de descobertas que também me fizeram quem sou. É sem regresso: quando se ganha o gosto de ler faz falta como pão para a boca. Por isso escrevi a abrir — Não sei como seria uma vida sem livros.

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