Que fazes tu, poeta? Diz! — Eu canto. Poema de Rainer Maria Rilke

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Miniatura persa 38 1600-10Que fazes tu, poeta? Diz! — Eu canto.

Mas o mortal e monstruoso espanto

Como o suportas? — Canto.

 

Vivo num quotidiano de conforto sem luxos, entregue sempre que possível aos prazeres do espírito. Olho o que me rodeia na intimidade, e revejo os vestígios que guardam a memória do que foi uma vida.

É neste ambiente que surgem as imagens diárias da tragédia das multidões que chegam, quando chegam, às portas do paraíso que não as quer receber.

Gente que aparentemente perdeu, ou deixou para trás, tudo o que ao longo da vida gostou, possuiu, e com a roupa que traz no corpo, a sós, ou com os filhos nos braços, fugiu na barca do paraíso(?), que apenas por misericórdia não se transforma na barca do inferno ao fazer a viagem que os trará às portas deste universo sonhado, onde, com sorte, encontrarão um muro de arame farpado e uma ajuda de sobrevivência.

De que vida é preciso querer fugir para que, não importem os perigos do caminho, mesmo eventualmente a morte, a fuga seja melhor? Não sabemos! Nem as notícias nos dizem. Apenas ouvimos falar de números: tu ficas com tantos, eu não quero nenhuns, eu só aceito loiros (é uma força de expressão), e por aí fora.

Na terra de onde partiram, que se passa? Quem é responsável? Como espera o mundo que o êxodo acabe: quando não restar lá ninguém vivo?

Perguntas a que não sei responder nem aos próceres do mundo parecem preocupar. Entretanto,  os vivos que chegam, com o que trazem na cabeça e a marca indelével de uma experiência terrível, são, com as mortes, tão só a macabra estatística que todos os dias nos relatam. Até quando?

A epígrafe com que abro o artigo é o início de um poema de Rainer Maria Rilke (1875-1926) que a seguir transcrevo em tradução de Jorge de Sena.

Poema de confronto entre a vida e a poesia, deixa por resolver o que todos os dias sentimos como irresolúvel: onde cabe na vida a poesia?

“O SAGE, DICHTER…”

 

Que fazes tu, poeta? Diz! — Eu canto.

Mas o mortal e monstruoso espanto

Como o suportas? — Canto.

E o que nome não tem, tu podes tanto

Que o possas nomear, poeta? — Canto.

De onde te vem o direito ao Vero, enquanto

Usas de máscaras, roupagens? — Canto.

E o que é violento e o que é silente encanto,

Astros e temporais, como te sabem? — Canto.

 

in Poesia do Século XX, Antologia, prefácio e notas de Jorge de Sena, Fora do Texto, Coimbra, 1994.

 

Poema original

 

O sage, Dichter, was du tust?

— Ich rühme.

 

Aber das Tödliche und Ungetüme,

wie hältst du’s aus, wie nimmst du’s hin?

— Ich rühme.

 

Aber das Namenlose, Anonyme,

wie rufst du’s, Dichter, dennoch an?

— Ich rühme.

 

Woher dein Recht, in jeglichem Kostüme,

in jeder Maske wahr zu sein?

— Ich rühme.

 

Und daß das Stille und das Ungestüme

wie Stern und Sturm dich kennen?

— weil ich rühme.

Retratos extraordinários — uma jovem pintada por Ghirlandaio

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Domenico GHIRLANDAIO - retrato de uma jovem - colecção Gulbenkian 600pxNos nossos dias, quando as sociedades se encontram iconicamente impregnadas do erótico, retratos como este são imagens pouco prezadas.

Se se pretender ilustrar a modéstia, o recato, a perfeição de alma até, numa jovem mulher, este retrato da jovem Sassetti, ao que se supõe, pintado por Ghirlandaio (1449-1494), é uma demonstração eloquente: na limpidez do olhar, na atitude de corpo e elegante discrição no vestir.

Retrato onde não existe malícia, nem sombra de sedução, ainda que não se possa dizer que o olhar é de uma mulher ingénua, vemos apenas no conjunto a força tranquila do conhecimento de si, no rosto a firmeza de carácter, e, sobretudo, num olhar limpo, franqueza com que se deve olhar o mundo.

A pintura pertence à colecção Gulbenkian e pode ver-se no respectivo museu em Lisboa.

 

Amor de centauros num fragmento de Metamorfoses de Ovídio

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Rubens - Amor de Centauros 500pxOs seres imaginários parcialmente humanos, nas suas acções e comportamentos lendários dão em geral conta do lado bestial da humanidade. Despidos da razão e livres das convenções das sociedades humanas, permitem o retrato dos instintos à solta, sendo com isso a mitologia que os envolve exemplar.

Hoje são os centauros que vêm à conversa através de dois fragmentos de Metamorfoses de Ovídio na que é conhecida como a batalha com os Lápitas, povo da Tessália na Grécia.

Os centauros são seres monstruosos, meio homem, meio cavalo. Têm busto de homem e às vezes, também as pernas, mas a parte posterior do corpo, a partir do busto, é de cavalo e, pelo menos na época classica, têm quatro patas de cavalo e dois braços de homem. Vivem nas montanhas e nas florestas, alimentam-se de carne crua e têm costumes extremamente brutais.

in Pierre Grimal, Dicionário da Mitologia, Difel, Lisboa, 1992.

 

Transcrevo parte do relato da batalha entre centauros e humanos onde à justiça do pretexto se sucedem as atrocidade da luta.

 

Metamorfoses, Livro XII, 210-225

 

‘O filho do audaciosa Ixíon desposara Hipodamia, e convidara

os ferozes filhos da Nuvem [os centauros] a participar no banquete, em mesas

dispostas em filas dentro de uma gruta coberta por árvores.

Estavam presentes os chefes da Hemónia, eu próprio lá estive;

e o palácio em festa ressoava com a algazarra confusa da turba.

Eis que cantam Himeneu, o átrio enche-se do fumo das tochas,

avança a noiva rodeada de uma caterva de matronas e moças,

ela de deslumbrante beleza. Afortunado chamámos a Pirítoo

por ter tal esposa. Por pouco não nos enganámos no augúrio.

O caso é que, ó Êurito, ó mais feroz dos ferozes Centauros,

o teu coração se inflama, tanto pelo vinho, como pela visão

da jovem, e reina em ti a embriaguez duplicada pelo desejo.

De imediato, reviradas as mesas e destroçado o banquete,

a recente esposa é levada à força, arrastada pelos cabelos.

Êurito rapta Hipodamia, cada um dos outros a que lhe apraz

ou a que podia: era a imagem de uma cidade conquistada!

 

O relato prossegue com a ferocidade da batalha e a bestialidade dos comportamentos até que mais à frente encontramos um casal de centauros capaz dos sentimentos do amor e sacrifício.

Descrição onde a harmonia que a beleza convoca se reparte pelos detalhes da sedução amorosa. Acontece a este amor, pelo decurso da batalha, um pungente desenlace:

 

Metamorfoses, Livro XII, 393-428.

‘Nem a tua formosura, Cílaro, te salvaguardou do combate

(se na verdade, admitimos que tal natureza tem formosura).

A barba despontava e era da cor do ouro, e da cor do ouro

os seus cabelos caíam dos ombros até meio das omoplatas;

no rosto, um vigor encantador; a nuca, os ombros, as mãos,

o peito e tudo aquilo que nele humano era, assemelhava-se

às estátuas aplaudidas de um escultor. A sua parte equina era

irrepreensível, não inferior à humana: dá-lhe pescoço e cabeça,

e seria digno de Castor. Tão apropriado à sela é o seu dorso,

tão robusto e musculoso é o peito. É todo negro, mais negro

que negro pez, mas alva é a cauda, e de cor alva as patas.

Muitas da sua raça suspiraram por ele, mas só Hilómene

o arrebatou: fémea mais deslumbrante entre aqueles seres

meio-amimais jamais habitou nas profundezas das florestas.

Foi a única que conquistou Cílaro, com carícias, com amor

e declarações de amor. E procura também arranjar-se, tanto

quanto o corpo o permite: ora alisa os cabelos com o pente,

ora se atavia com grinaldas de rosmaninho, ora de violetas

e de rosas, outras vezes trazendo brancos lírios;

duas vezes ao dia lava o rosto no ribeiro que desliza do cimo

da floresta de Págasas, duas vezes mergulha o corpo no rio.

E, pendentes do ombro ou do flanco esquerdo, não usa peles,

senão as que lhe assentam bem, e de animais seleccionados.

O amor neles era igual. Deambulavam pelas serranias juntos,

juntos entravam nas grutas. Também então entraram juntos

no palácio do Lapita, e juntos enfrentaram a feroz batalha.

 

‘Quem lançou não se sabe, mas eis que um dardo é disparado

da esquerda e crava-se em ti, Cílaro, pouco abaixo onde o peito

sucede ao pescoço. Ao extraírem o dardo, o coração, atingido

por pequena ferida, vai-se esfriando junto com o corpo todo.

De imediato, Hilómene toma nos braços o corpo moribundo,

e, pressionando com a mão, tenta acalmar a ferida, e encosta

os lábios aos lábios dele, e procura travar a alma que foge.

Mas quando o vê morto, com palavras que o clamor impediu

de chegar aos meus ouvidos, deixou-se cair sobre o dardo

que nele estava cravado, e morreu abraçada ao marido.

 

Transcrito de Ovídio, Metamorfoses, tradução de Paulo Farmhouse Alberto, Livros Cotovia, Lisboa, 2007.

 

Nota iconográfica

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Rubens (1577-1640).

Se a pintura mitológica de Rubens ressuma erotismo, foi através deste  pequeno quadro da colecção Gulbenkian que passei a olhá-la integrando esta dimensão. Enquanto as telas gigantescas nos esmagam com a sua grandiloquência, nesta pintura, que pelas dimensões permite uma simultânea apreensão de conjunto e a observação do pormenor, o nervoso da pincelada dá conta de forma genial, da excitação que move os centauros na sua corrida, que, supomos, é para a materialização do prazer. A força animal que envolve o prazer erótico humano salta nesta alegoria, onde os centauros macho e fémea incorporam a violência do desejo que urge satisfazer.

O Mar e a poesia de Sophia

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Mar e poesia de SophiaNeste Verão temperado onde os dias de calor tórrido parecem apenas ser memória, aquece-me um poema de Sophia de Mello Breyner Andresen (1914-2004), Meio-Dia:

 

MEIO-DIA

 

Meio-dia. Um canto da praia sem ninguém.

O sol no alto, fundo, enorme, aberto,

Tornou o céu de todo o deus deserto.

A luz cai implacável como um castigo.

Não há fantasmas nem almas,

E o ar imenso solitário antigo

Parece bater palmas.

 

in Poesia, 1ª ed 1944

 

Depois de variada turbação, de que também a escrita para o blog se tem ressentido, cheguei finalmente ao mar, e ao que podem hoje ser férias de Verão; e eis-me no Atlântico:

 

ATLÂNTICO

 

Mar,

Metade da minha alma é feita de maresia.

 

in Poesia, 1ª ed 1944

 

Para quem tem o mar como segunda pele, é inexcedível o prazer de percorrer a poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen onde a presença do mar mostra como é possível dar um sentido sempre novo à existência:

 

MAR

 

I

De todos os cantos do mundo

Amo com um amor mais forte e mais profundo

Aquela praia extasiada e nua,

Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.

 

II

Cheiro a terra as árvores e o vento

Que a Primavera enche de perfumes

Mas neles só quero e só procuro

A selvagem exaltação das ondas

Subindo para os astros como um grito puro.

 

in Poesia, 1ª ed 1944

Mar e poesia de SophiaDepois desta curta escolha, resta ao leitor a quem o cheiro a maresia chama, percorrer o itinerário do mar na poesia de Sophia. Por mais distante que dele esteja, senti-lo-á sempre por perto.

Entreacto – poema Ángel González

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Piero di Cosimo - Perseu ataca o monstro - detalhe de Andrómeda libertada por PerseuUm destes dias veio ao meu encontro o poema de Ángel González (1925-2008) que hoje transcrevo, Entreacto, em tradução de Egito Gonçalves (1920-2001).

A campanha eleitoral anima-nos o dia-a-dia televisivo. Nas pausas que o trabalho permite tenho olhado a televisão à hora das notícias.  Perante a conversa e os personagens que fazendo pela vida tentam convencer-nos do que é bom para cada um de nós com:

 

Aqueles

ineficazes e tortuosos diálogos

com referências a ontem, a um tempo

ido,

completam, no entanto,

o panorama esfarrapado que ante nós

se depara, e talvez

então expliquem muitas coisas, sejam

a chave que no final justifique

tudo.

 

(fim de citação), invade-me uma melancolia inaudita, afinal resultado dos tantos anos em que os personagens repetem a peça.

 

Como luva que calça a atmosfera política do Portugal de hoje, é do que talvez alguns também sintam que o poema fala.

Após o fragmento anterior, eis o poema na totalidade da tradução e no original.

 

Entreacto

 

Não acaba aqui a história.

Isto é só

uma pequena pausa para que descansemos.

A tensão é tão grande,

a emoção que a trama desprende é tão

intensa,

que todos,

bailarinos e actores, acrobatas

e o distinto público,

agradecemos

a trégua convencional do entreacto,

e comprovamos

alegremente que tudo era mentira,

enquanto os músicos afinam os violinos.

Até agora, vimos

várias cenas rápidas que preludiavam a morte,

conhecemos o rosto de certos personagens

e sabemos

algo que inclusivamente muitos deles ignoram:

o móbil

da traição e o nome

de quem a praticou.

Não ocorreu ainda nada de definitivo

mas

o desespero e os intérpretes

tentam evitar o rigor do destino

pondo demasiado calor nos seus exuberantes

ademanes, demasiado colorido nos seus sorrisos

falsos,

com que — é evidente — dissimulam

a sua covardia, o terror

que dirige

os seus movimentos no cenário.

Aqueles

ineficazes e tortuosos diálogos

com referências a ontem, a um tempo

ido,

completam, no entanto,

o panorama esfarrapado que ante nós

se depara, e talvez

então expliquem muitas coisas, sejam

a chave que no final justifique

tudo.

Não esqueçamos também

as palavras de amor junto ao tanque

o gesto demudado, a violência

com que alguém disse:

                                     “não”

                                               olhando o céu,

e a surpresa que produz

o torvo jardineiro quando anuncia:

“chove, senhores,

chove

ainda”.

Mas talvez seja cedo para conjecturas:

deixemos

que a tramóia se prepare,

que os que hão-de morrer recuperem o alento,

e pensemos,

quando o drama prosseguir e a dor

fingida

se torne verdadeira em nossos corações,

que nada se pode fazer, que está próximo

o fim que tememos de antemão,

que a aventura acabará, sem dúvida,

como deve acabar, como está escrito,

como é inevitável que suceda.

 

 

Original em castelhano
Entreacto

 

No acaba aquí la historia.

Esto es solo

una pequeña pausa para que descansemos.

La tensión es tan grande,

la tensión que desprende la trama es tan

intensa,

que todos,

bailarines y actores, acróbatas

y distinguido público,

agradecemos

la convencional tregua del entreacto,

y comprobamos

alegremente que todo era mentira,

mientras los músicos afinan sus violines.

Hasta ahora hemos visto

várias escenas rápidas que preludiaban muerte,

conocemos el rostro de ciertos personajes

y sabemos

algo que incluso muchos de ellos ignoran:

el móvil

de la traición y el nombre

de quién la hizo.

Nada definitivo ocurrió todavía

pero

la desesperación está nítidamente

dibujada, y los intérpretes

intentan evitar el rigor del destino

poniendo

demasiado calor en sus exuberantes

ademanes, demasiado carmín en sus sonrisas

falsas,

con lo que -es vidente- disimulan

su cobardía, el terror

que dirige

sus movimientos en el escenario.

Aquellos

ineficaces y tortuosos diálogos

refiriéndose a ayer, a un tiempo

ido,

completan. sin embargo,

el panorama roto que tenemos

ante nosotros, y acaso

expliquen luego muchas cosas, sean

la clave que al final lo justifique

todo.

No olvidemos tampoco

las palabras de amor junto al estanque,

el gesto demudado, la violencia

con que alguien dijo:

«no»,

mirando al cielo,

y la sorpresa que produce

el torvo jardinero cuando anuncia:

«Llueve, señores,

llueve

todavía.»

Pero tal vez sea pronto para hacer conjeturas:

dejemos

que la tramoya se prepare,

que los que han de morir recuperen su aliento,

y pensemos,

cuando el drama prosiga y el dolor

fingido

se vuelva verdadero en nuestros corazones,

que nada puede hacerse, que está próximo

el final que tenemos de antemano,

que la aventura acabará, sin duda,

como debe acabar, como está escrito,

como es inevitable que suceda.

 

Notas bibliográfica e iconográfica

 

O poema foi transcrito de Poesia Espanhola do Após-Guerra, Portugália, Lisboa, s/data.

O poema original foi publicado no segundo livro de poesia de Ángel González, Sin Esperanza Con Convencimiento (1961) e pode ser encontrado na sua Obra Poética (1956-2001), Palabra sobre palabra, Seix Barral, Barcelona, 2004.

A imagem que abre o artigo é um detalhe de Andrómeda libertada por Perseu, pintura a óleo sobre madeira de (1510-1513), pintada por Piero di Cosimo (1461-1522) que pertence à colecção da Galeria Uffizi de Florença.

Alegoricamente a imagem conduz à sobre-humana força temperada da ajuda divina proveniente do Olimpo europeu, que não grego, e aqui personificada em Perseu, de que o governo deu provas ao derrotar o monstro, nas diversas capas que vestiu.

Sarcasmo? Talvez…

agradecemos

a trégua convencional do entreacto,

e comprovamos

alegremente que tudo era mentira,

enquanto os músicos afinam os violinos.

e pensemos,

quando o drama prosseguir e a dor

fingida

se torne verdadeira em nossos corações,

que nada se pode fazer, que está próximo

o fim que tememos de antemão,

que a aventura acabará, sem dúvida,

como deve acabar, como está escrito,

como é inevitável que suceda.

Lembrar a Grécia com Sólon (séc VII-VI a.C.): Seisachtheia e fragmentos poéticos

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O esforço quotidiano de tentar meter a vida dentro do orçamento, à medida que este encolhe, tem-me deixado pouco tempo para o blog.

Vivem-se tempos em que as finanças parecem sobrepor-se a tudo e a todos. Em notas escritas há anos, que hoje ganham foros de actualidade, dava eu conta de forma sarcástica, do que entretanto se tornou uma tragédia vivida por muitos. Dizia-se neles:

I
Vieram listas de números deitar certezas supérfluas
na multidão descontente.

II
Comunicou o governo através da televisão:
“Sai caríssima ao Tesouro a vida dos cidadãos.”

E de uma forma sentida a seguir anunciou:
“As dívidas podem ser pagas oferecendo a própria vida.”

III
Acorrem em catadupa Ministros aos funerais.
Trazem prémios para os mortos,
sorriem,
entram em êxtase,
e partem com os jornais.

Esta entrega da própria vida para pagar dívidas leva-me hoje a Sólon e à sua Seisachtheia, a postura legislativa em que a dignidade humana foi preservada pondo fim à escravatura por dividas, ou seja, a consequência de um indivíduo se tornar escravo de um seu credor quando impossibilitado de pagar as suas dividas na sociedade ateniense de há 2600 anos.

Nestes dias em que a Grécia é uma preocupação financeira para a Europa, têm-se ouvido e lido os maiores despautérios e as mais inanes tolices a propósito da história grega.

Dizer que a civilização ocidental ancora na Grécia clássica não é sem fundamento. Foi lá que o homem pensou os deuses à sua imagem e semelhança. Foi lá que as formas de governo no respeito pelo homem se inventaram, foi lá que a vida do espírito no diálogo entre iguais se praticou, e onde as artes se desligaram do sagrado para integrar a vida quotidiana, criando a harmonia que consola quem nela vive.
De muitas das criações gregas chegaram-nos apenas fragmentos. As guerras com vizinhos e as invasões encarregaram-se disso mesmo. Depois do apogeu, a Grécia foi frequentemente terra devastada, alvo da inveja de quem não tinha ou não fora capaz de conceber as maravilhas que deram dignidade e significado ao Ser Humano. Pelos museus da Europa recolhem-se fragmentos dessa devastação.

Herdámos também, ainda que hoje pareça largamente esquecido, um ordenamento jurídico a fazer 2600 anos. Foi Sólon o artífice de semelhante quadro legal, sendo a abolição da escravatura por dividas o de maior significado.

O quadro de cobrança da divida grega que hoje se desenha, configura também ele, a submissão de um povo à escravatura sem alternativa, se quiser sobreviver no xadrez das dependências globais que caracterizam o nosso mundo.
Soubessem os dirigentes, que pretendem submeter a Grécia, agir de acordo com as palavras sábias de Sólon:

E o povo melhor os seus chefes seguirá,
se não for nem muito soerguido nem rebaixado.
A ambição gera, pois, a insolência, quando uma grande riqueza segue
os homens que espírito sensato não possuem.
Fragmento F 6 W

Não se pense, no entanto que com Sólon estamos perante a defesa de qualquer política de nivelamento ou igualdade, pois, noutro fragmento, o político defende:

Riquezas desejo possuir, mas adquiri-las injustamente

não pretendo: sempre, a seguir, vem a justiça.

É esta ideia de lisura na prossecução dos negócios de dinheiro com a Grécia que parece estar ausente em toda a história recente. Sólon escreveu isto no seio de um seu poema onde o homem e a sociedade se pensam, o qual a terminar refere:

Quanto à riqueza, limite visível para os homens não há:
os que agora, entre nós, maior copia de meios têm,
açodam-se a dobrar; quem poderá satisfazê-los a todos?
O lucro, aos mortais concederam-no os imortais,
mas dele provém a perdição, e quando Zeus
a envia, em forma de punição, ora um ora outro a recebe.

Termino com a totalidade conhecida do fragmento poético F 13 W, a que pertencem as citações anteriores, conhecido como elegia das musas, para lembrar como a dignidade humana pode caber no seio destes negócios de dinheiro, e existindo a legitimidade da busca de riqueza, a justiça deve estar sempre presente nos meios de a alcançar. O arbítrio dos deuses é insondável e aos homens não cabe saber dos meandros da justiça divina. Apenas a justiça entre os homens importa.

F 13 W

Filhas esplendorosas de Mnemósine e de Zeus Olímpico,
Musas Piérides, atendei a minha prece.
Bens da parte dos deuses bem-aventurados me dai e que junto de todos
os homens de boa fama sempre goze;
ser, assim, doce aos amigos e aos inimigo amargo,
àqueles respeitável e a estes temível parecer.
Riquezas desejo possuir, mas adquiri-las injustamente
não pretendo: sempre, a seguir, vem a justiça.
A fortuna que os deuses dão fica ao lado do homem,
firme, desde os alicerces à cumeeira.
Porém, a que os homens honram, com insolência, a ordem devida
não segue, mas, levada por injustas acções,
contrafeita vem atrás e, lesta, se lhe junta a perdição.
Pequeno o seu começo é, como o fogo,
primeiro sem valor, mas em aflição acaba,
já que, para os mortais, as obras da insolência não perduram.
Zeus, porém, supervisiona o fim de tudo e, num repente,,
— tal como logo as nuvens dispersa o vento
primaveril, que ao mar escumoso e estéril
as profundezas revolve e pela terra produtora de trigo
destrói as belas lavouras, até que a mansão escarpada dos deuses atinge,
no céu, e o éter limpo de novo deixa contemplar;
rebrilha sobre a terra pingue o sol vigoroso
e belo: então, nuvem alguma se consegue ainda avistar —
assim avança o castigo de Zeus. Não é a cada falta,
como um homem mortal, que se gera a sua ira,
mas, em todo o tempo, não lhe escapa quem culposo
coração possui e sempre, no fim se revela.
Porém um logo expia a culpa. outro mais tarde; quem a evitar
na sua pessoa, sem que golpe da moira dos deuses o alcance,
sempre acabará por chegar. Inocentes, as faltas pagarão
os seus filhos ou os filhos destes, mais tarde.
Nós, os mortais, tanto o nobre como o vilão, temos este pensar:
célere corre a fama que cada um de si possui,
antes de padecer; é então que se lamenta. Mas, até essa altura,
boquiabertos, em vãs esperanças nos deleitamos.
Aquele a quem penosas enfermidades oprimem,
considera somente que vai ficar são;
outro, embora covarde, pessoa valente julga ser
e boa figura pensa o desengraçado possuir;
e se alguém é pobre, ao jugo da miséria forçado,
conseguir grandes riquezas sempre espera.
Cada um se açoda por seu lado: um pelo mar piscoso erra,
em barcos, na ânsia de lucro para casa trazer:
ventos o arrastam, terríveis,
e em poupar a vida nada cura;
outro, retalhando a terra rica em árvores, todo o ano
serve e dos recurvos arados se ocupa;
outro, das obras de Atena e do industrioso Hefestos
conhecedor, com as mãos ganha a vida;
outro é nos dons das Musas Olímpicas versado
e da adorável sabedoria a medida conhece;
a outro, fê-lo adivinho o senhor que fere ao longe, Apolo,
conhece o mal que, distante, sobre o homem avança,
ele a quem os deuses assistem: mas o destino — sempre —
nem o áugure o pode parar nem os sacrifícios.
Outros, que de Péon rico em remédios oficio exercem,
são médicos, mas também eles não atingem o fim.
Muitas vezes, da pequena dor se gera uma grande agonia
que ninguém consegue aliviar aplicando remédios benfazejos;
e ao que lastimosas doenças remoem e terríveis,
tocam-lhe com as mãos e logo fica saudável.
Assim o Destino aos mortais traz o mal e o bem,
inevitáveis são as dádivas dos deuses imortais.
Em todos os trabalhos existe perigo e ninguém sabe
onde conduzirá o projecto iniciado.
Mas o que bem tenta agir, sem contar,
em grande e penosa perdição cai;
e ao que mal actua, o deus em tudo lhe concede
bom sucesso, libertação da sua imprevidência.
Quanto à riqueza, limite visível para os homens não há:
os que agora, entre nós, maior copia de meios têm,
açodam-se a dobrar; quem poderá satisfazê-los a todos?
O lucro, aos mortais concederam-no os imortais,
mas dele provém a perdição, e quando Zeus
a envia, em forma de punição, ora um ora outro a recebe.

A legislação de Sólon terá sido publicada em 594/3 a.C. segundo a maior parte dos estudiosos.
A tradução dos fragmentos poéticos que vos deixo é da autoria de Delfim Ferreira Leão e encontra-se no seu livro Sólon Ética e Política com mais fragmentos poéticos de Sólon traduzidos e comentados. O livro foi publicado pela FCG, Lisboa 2001.

Acompanham o artigo imagens de esculturas gregas contemporâneas de Sólon.

Nota final

Este artigo foi anteriormente publicado no blog (5 Maio 2012). Como não perdeu um grão de actualidade, trago-o de novo à luz, ao encontro dos novos leitores que o blog entretanto ganhou.

Retratos extraordinários — 10 fotos de Steve McCurry

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Hoje escolho algumas fotografias de retrato do extenso portfólio de Steve McCurry (1950) disponível no seu site. Steve McCurry foi tornado famoso pela foto da rapariga afgã de olhos verdes que fez capa da  revista National Geographic.

Sharbat Gula, Afghan Girl, at Nasir Bagh refugee camp near Peshawar, Pakistan, 1984. National Geographic. "The green-eyed Afghan girl became a symbol in the late twentieth century of strength in the face of hardship.  Her tattered robe and dirt-smudged face have summoned compassion from around the world;  and her beauty has been unforgettable.  The clear, strong green of her eyes encouraged a bridge between her world and the West.  And likely more than any other image, hers has served as an international emblem for the difficult era and a troubled nation." - Phaidon 55 NYC5958, MCS1985002 K035 Afghan Girl: Found National Geographic, April 2002

Se por um lado o impacto humano desta humanidade do século XXI nos comove, impressiona, ou surpreende, é na composição cromática de cada fotografia que se encontra o apelo a olhar uma e outra vez.

Pleased with his day, a Rabari herdsman leads his animals to the spot where they'll bed for the night. He'll sleep with them outdoors on a simple cot called a charpoy, National Geographic, February 2010, India's Nomads, Phaidon, Iconic Images, final book_iconic

A iluminação é quase sempre uniforme, não tirando a composição partido do claro escuro habitual em fotografia de retrato, onde o jogo de luz e sombra joga um papel essencial. Aqui a emoção surge na harmonia do contrate das cores a que o desenho de formas, de surpreendente elegância, dá corpo.

Steve McCurry 4 - ITALYFotos cuidadosamente encenadas, suponho, deixam na memória um rasto da beleza que pela diversidade do mundo se encontra.

Steve McCurry 5 - ETHIOPIAE dão simultaneamente conta da persistente desigualdade que o século XXI conserva.

Steve McCurry 12 - TIBET

AFRICA-10023NF

Steve McCurry 14 - INDIA

Steve McCurry 15 - THAILAND

O Corpo Insurrecto — poema de Luiza Neto Jorge

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Tom Wesselmann - Great American Nude No 20 1961Há na poesia de Luiza Neto Jorge (1939-1989) uma elucidação dos sentidos e da sua força vital tornando evidente como e quanto comandam a vida.  Numa sofisticada linguagem poética onde o requinte da língua se apura, sucedem-se os poemas repassados de uma objectividade sem concessões a qualquer lirismo edulcorado, tornando a sua leitura frequentemente compulsiva.

Transcrevo hoje em jeito de ilustração o poema O Corpo Insurrecto, publicado pela primeira vez no livro Terra Imóvel, Portugália, Lisboa, 1964.

 

O Corpo Insurrecto

 

Sendo com o seu ouro, aurífero,

o corpo é insurrecto.

Consome-se, combustível,

no sexo, boca e recto.

 

Ainda antes que pegue

aos cinco sentidos a chama,

por um aceso acesso

da imaginação

ateiam-se à cama

ou a sítio algures,

terra de ninguém,

(quem desliza é o espaço

para o corpo que vem),

 

labaredas tais

que, lume, crepitam

nos ciclos mais extremos,

nas réstias mais íntimas,

as glândulas, esponjas

que os corpos apoiam,

zonas aquáticas

onde os corpos boiam.

 

No amor, dizendo acto de o sagrar,

apertado o corpo do recém-nascido

no ovo solar,

há ainda um outro

corpo incluído,

 

mas um corpo aquém

de ser são ou podre,

um repuxo, um magna,

substância solta,

com pulmões.

 

Neste amor equívoco

(ou respiração),

sendo um corpo humano,

sendo outro mais alto,

suspenso da morte,

mortalmente intenso,

mais alto e mais denso,

 

mais talhado é o golpe

quando o põem em prática

com desassossego na respiração

e o sossego cru de quem,

tendo o corpo nu,

a carne ardida,

lhe pede o ladrão

a bolsa ou a vida.

 

Transcrito de Luiza Neto Jorge, poesia, Assírio & Alvim, Lisboa, 2001.

A imagem a abrir mostra uma pintura de Tom Wesselmann (1931-2004)Great American Nude No 20, 1961.

A difícil arte do soneto segundo Lope de Vega, Alexandre O´Neill e Manuel Alegre

Arte do sonetoDesde a sua invenção nunca o soneto deixou de desafiar poetas.

Poema de 14 versos em verso decassílabo rimado, ordenado em quatro estâncias geralmente de duas quadras com dupla rima seguidas de dois tercetos.

No seu desenvolvimento o soneto exige ser construído numa espécie de silogismo, como bem lembrava Manuel Borralho no seu Luzes de Poesia (1724), partindo de premissa(s) e rematando com uma conclusão, sendo o último verso do soneto, a certa altura,  chamado de chave de ouro.

Apresentado o tema na primeira quadra, deverá o poema dar continuidade ao assunto que se propõe, desenvolvendo a ideia que lhe subjaz, e concluindo-se de forma coerente com o argumentado.

Sendo uma forma poética de meu especial agrado, e existindo na literatura portuguesa elevado número de sonetos belíssimos, tenho por diversas vezes  transcrito sonetos. Hoje reúno um conjunto especial em que o assunto é a própria dificuldade em escrever um soneto.

Começo por Lope de Vega (1562-1635) que assim respondeu a Violante quando esta  lhe pediu um soneto:

Un soneto me manda hacer Violante / Um soneto me faz fazer Violante

Y en vida nom me he visto en tal aprieto; / Nunca na vida estive tão inquieto;

Catorce versos dicen que es soneto: / Catorze versos dizem que é soneto,

Burla burlando, van los tres delante. / Brinca brincando vão os três diante.

 

Yo pensé que no hallara consonante / Pensei que não achava consoante

E estoy a la mitad de otro cuarteto; / E a metade estou deste quarteto;

Mas, si me hallo en el primer terceto, / Mas, se me vejo no primeiro terceto,

No hay cosa en los quartetos que me espante. / Nada há nos dois quartetos que me espante.

 

Por el primer terceto voy entrando / pelo primeiro terceto vou entrando

Y aún presumo que entré por pie derecho, / E parece que entrei com o pé direito,

Pues fin con este verso le voy dando. / Pois fim com este verso lhe estou dando.

 

Ya estoy en el segundo y aún sospecho / No segundo já vou e até suspeito

Que estoy los trece versos acabando: / que estou os treze versos acabando;

Contad si son catorze, y esté hecho. / Contai se são catorze e já está feito.

Rima: (ABBA / ABBA / CDC / DCD)  /  (ABBA / ABBA / CDC / DCD)

 

No livro Abandono Vigiado publicado por Alexandre O’Neill (1924-1986) em 1960 encontro o soneto QUATORZE VERSOS tendo como epígrafe o primeiro verso do soneto de Lope de Vega transcrito acima.

Deliberada homenagem a um poeta maior, Lope de Vega, pois o poema anterior é também outra homenagem, essa a

João Cabral de Melo e Neto, / Você não se pode imitar, / mas incita a ver mais perto, / com mais atenção e vagar, / o que está como que em aberto, / …,

 

O soneto QUATORZE VERSOS brinca, também ele, com a arte de escrever sonetos, na qual O’Neill foi exímio como neste SONETOS GARANTIDOS… páginas antes no mesmo livro, e que não resisto a transcrever:

SONETOS GARANTIDOS…

 

Sonetos garantidos por dois anos.

E é muito já, leitor que mos compraste

para encontrar a alma que trocaste

por rádios, frigorificos, enganos…

 

essa tristeza sobre pernas faz-te

temeroso e cruel e tonto e traste.

Nem pior nem melhor que outros fulanos,

não vês a Bomba e crês nos marcianos…

 

e é para ti que escrevo, é para ti

que um verso lanço – ó mão! – como o destino,

nel’ ponho mesura, desatino,

 

rasgo, invenção, lugar-comum protesto?

Antes para soldado ou para resto,

escroto de velho, ronco de suíno…

 

 

Mas voltando à difícil arte do soneto temos então no soneto QUATORZE VERSOS uma eloquente demonstração:

 

QUATORZE VERSOS

 

O primeiro é assim: fica de parte.

No segundo já posso prometer

que no terceiro vai haver mais arte.

Mas afinal não houve… Que fazer?

 

Melhor será calar, pois que dizer

nem no sexto conseguirei destarte.

Os acentos errados é favor não ver;

nem os versos errados, que também sei hacer…

 

Ó nono verso porque vais embora

sem que eu te sublime neste décimo?

Ao décimo-primeiro dediquei uma hora.

 

Errei-o. Mas que importa se a poesia,

mesmo que o não errasse, já não vinha?

É este o último e, como os outros, péssimo…

 

 

Ficaria por aqui não fora Manuel Alegre (1936) no seu livro Sonetos do Obscuro Quê publicado em 1993, vir explicitamente a este soneto de Alexandre O’Neill quando se debruçava sobre a arte de escrever poesia em forma de soneto. Temos então, agora de Manuel Alegre:

 

 

Desata-se-me o verso no primeiro

no segundo de vento vai vestido

no terceiro de mar e marinheiro

no quarto está perdido está perdido.

 

Recupero-o no quinto sem sentido

no sexto deito-o à sombra de um sobreiro.

No sétimo com dante digo:”Guido

sê tu no oitavo verso o companheiro”.

 

Porque não espero de voltar no nono

leva-me O’Neill no décimo a um terceto

que aponte já no onze o sul e o sal.

 

Ao décimo segundo chega o sono.

No treze está a chave do soneto

mas nem sempre o catorze é o final.

 

 

A tradução do poema de Lope de Vega é de José Bento.

Lê-se com proveito o artigo SONETO publicado no DICIONÁRIO DE LITERATURA, sob a direcção de Jacinto do Prado Coelho e assinado por António Coimbra Martins.

 

Nota final

Quatorze ou Catorze? Escolha o leitor. Apenas reproduzi o conteúdo das edições impressas que possuo. Antes do Acordo Ortográfico Quatorze seria para Portugal e Catorze para o Brasil.

 

Artigo publicado inicialmente em Fevereiro de 2011 e agora ligeiramente retocado.

A imagem de abertura mostra uma pintura de Maria Noma Bliss, jovem pintora norte-americana.

Uma vida sem livros?

Arcimboldo - O homem dos livrosNão sei como seria uma vida sem livros. O saber escrito que os livros guardam é uma dádiva apenas conhecida dos poucos que lêem, e para esses esta conversa é desnecessária.

Numa terrível história de Ray Bradbury filmada há anos por François Truffaut, Fahrenheit 451, um regime tinha proibido os livros, e todos os que fossem encontrados seriam queimados (daí o título da história pois 451 é a temperatura em graus Fahrenheit a que arde o papel). As pessoas para quem a vida sem livros não tinha sentido, fugiram para uma floresta e aí cada um encarregou-se de decorar por inteiro um livro, e assim assegurar a sua transmissão.

Muita gente vive bem sem livros, não é essa a questão. A vida faz-se da experiência de a viver e não de ler a sua ficção. Mas como vivemos tão mais felizes quando acrescentamos ao comezinho dos nossos dias a imensidão dos relatos sobre mundos que de outra forma nunca suspeitaríamos a existência. Há uma alegria interior na leitura que nos empolga, dificilmente comparável com outras experiências. Mas há mais. Nem sempre a vida nos confronta com o bem e o mal na forma decisiva que uma história ficcionada pode fazer. E há os valores. Por exemplo, aprender a verticalidade, a honradez no trato com os outros, valores hoje pouco prezados e de difícil apreensão no quotidiano, e esses, a par de outros, vamos encontrá-los e entender a sua importância em obras de ficção. Tantos outros aspectos podia trazer à conversa. Milan Kundera, num ensaio em defesa do romance, evidencia quanto a invenção do romance como o conhecemos desde o século XIX permitiu ao leitor, no espaço de algumas horas, percorrer anos de vida em ambientes geográficos e sociais que lhe são completamente estranhos no seu que fazer quotidiano, e assim apreender do mundo bastante mais que o horizonte da sua janela.

Foi com Pinóquio em versão ilustrada recebido de oferta aos cinco anos, ao que me recordo, o desvendar do mundo encantado dos livros. Sucederam-se as histórias infantis trazidas de empréstimo da biblioteca itinerante Gulbenkian, no vai-vem semanal das quartas-feiras, até às empolgantes aventuras dos 5. Depois, embarcado nestas aventuras que acrescentavam outras vidas ao meu mundo, vieram os mosqueteiros do Sr. Dumas, as aventuras escocesas e outras de Stevenson, as terríveis lutas narradas por Walter Scott, até que pelos quatorze anos entrei na literatura adulta de As Vinhas da Ira, O Vermelho e o Negro, e O Idiota de Dostoievsky. Foi a partir daí um sem fim de descobertas que também me fizeram quem sou. É sem regresso: quando se ganha o gosto de ler faz falta como pão para a boca. Por isso escrevi a abrir — Não sei como seria uma vida sem livros.