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Beija-me, minha alma, doce espelho e guia

Preencho o blog como se de um jardim aberto ao mundo se tratasse. E hoje vou colher, para  aqui plantar, no jardim de poesia erótica do Siglo de Oro.

Publicou José Bento em 1997, na Assírio & Alvim, com o título Jardim de Poesias Eróticas do Siglo de Oro, uma escolha pessoal de 51 poesias retiradas dos 144 poemas reunidos em Poesía erótica del siglo de Oro.

Dá o poeta e tradutor, na Nota Introdutória, as razões da escolha de que cito: Não tem este meu jardim outro objectivo que não seja recrear-me, ao ler e traduzir estes versos, e procurar recrear outros que porventura os apreciem, estando por mim excluído qualquer intuito erudito, de que não sou capaz.

Subscrevo integralmente o propósito no que ao conteúdo do blog se refere, agradeço penhorado ao poeta ter-nos dado o prazer de todo o seu labor de tradutor, tantas vezes genial, e entre as poesias que maior gozo me deram neste livro escolho a que traz na edição o nº 45

Beija-me, minha alma, doce espelho e guia,

beija-me, acaba, dá-me este contento,

e cada beijo teu engendre um cento,

sem que cesse jamais esta porfia.

 

Beija-me cem mil vezes cada dia,

pra que, chocando alento com alento,

saiam deste int’rior contentamento

doce suavidade e harmonia.

 

Ai, boca, venturoso o que te toca!

Ai, lábios, ditoso é o que vos beija!

Acaba, vida, dá-me este contento,

 

dá-me já tal gosto com tua boca.

Beija-me, vida: tudo em mim lateja.

Aperta, morde, chupa, mas com tento.

Dispenso-me de clarificar o que beija a boca pois a chave de ouro que conclui o soneto é perfeitamente elucidativa.

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Merda! Sou lúcido. – Coitado do Álvaro de Campos!

vicio da poesia

Cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da Baixa

Aquele homem mal vestido, pedinte por profissão que se lhe vê na cara,

Que simpatiza comigo e eu simpatizo com ele;

E reciprocamente, num gesto largo, transbordante, dei-lhe tudo quanto tinha

(Excepto, naturalmente, o que estava na algibeira onde trago mais dinheiro:

Não sou parvo nem romancista russo, aplicado,

E romantismo, sim, mas devagar…)


Sinto uma simpatia por essa gente toda,

Sobretudo quando não merece simpatia.

Sim, eu sou também vadio e pedinte,

E sou-o também por minha culpa.

Ser vadio e pedinte não é ser vadio e pedinte:

É estar ao lado da escala social,

É não ser adaptável ás normas da vida,

Às normas reais ou sentimentais da vida –

Não ser Juiz do Supremo, empregado certo, prostituta,

Não ser pobre a valer, operário explorado,

Não ser doente de uma doença incurável,

Não ser sedento de justiça ou…

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Homenagem a Magritte com um pouco de cinema à mistura

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Nesta fotografia, homenagem à obra de Magritte (1898-1967),  é a reflexão sobre o significado do que  vemos além do olhar, para onde toda a sua pintura nos convoca, que pretendo registar. Segue-se a pintura que lhe deu origem.

Numa cena notável do filme O caso Thomas Crown, remake, a ilusão criada pela multiplicação da mesma imagem inspirada na pintura de Magritte com um vulto de homem com sobretudo, chapéu de coco e maçã na cara, impedindo o reconhecimento do personagem procurado no museu, quando supostamente pretende devolver a pintura de Monet roubada, é um caso particularmente feliz desta reflexão, que de resto todo o filme é, ao fazer girar o argumento em torno da pintura autentica e da sua imitação.

Evidentemente para lá do caso humano que a história protagoniza naquela leveza de champanhe que o faz um dos meus filmes preferidos de sempre, não contribui menos para essa preferência a cena de dança que se constitui o momento de viragem na história, deixando os personagens de Pierce Brosnan/René Russo de ser adversários para passarem a ser cúmplices apaixonados. O vestido negro transparente com que René Russo perde a cabeça, julgando estar a caçar, contribui decisivamente para que esta seja uma das cenas de maior erotismo no cinema alguma vez filmadas.

Termino convidando-vos a olhar o mundo na perspectiva Magritte, depois de nestes dias vos ter arrastado ao prosaico quotidiano.

Primeiro a mobilidade:

Segue-se a paisagem e a natureza

Temos em cima, e em baixo, o homem … e a mulher

Terminemos com dois retratos da mulher imaginada pelo pintor: o rosto e em corpo inteiro

Um pouco de memória cinéfila

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É possível que para as novas gerações a memória cinéfila se construa com os filmes vistos na juventude. Comigo não foi assim. Foi perto dos 30 anos, quando livre do mobiliário da função social da arte que me atravancava a cabeça, que despertei para grande parte dos filmes que agora fazem a minha delicia.

Viver o inicio da adolescência naquele remoto lugar que era o Algarve no inicio dos anos sessenta, onde nem televisão chegava em condições decentes, significou de tal forma uma estreiteza de oportunidades, que a minha memória cinéfila se faz da variedade entre os filmes de legiões romanas e as tragicomédias hispano-mexicanas com Cantiflas ou Marisol, passando por Sarita Montiel e Joselito. Um curto universo de que retenho difusas imagens de um rapazinho, qual pássaro cantor, apanhado pelas goelas de um leão no coliseu de Roma enquanto uma bela morena atira à arena um ramo de violetas.

Mantenho da adolescência o gosto pelos filmes de aventuras. Adorei a tetralogia Indiana Jones e “Em busca da Esmeralda Perdida” transforma-me qualquer melancolia na vontade de partir à volta do mundo esteja ou não o barco estacionado à porta de casa. E depois temos Os três Mosqueteiros naqueles magníficos chapéus adornados de penas de pavão que os transformavam em aves do paraíso dançando em lutas de esgrima.

Esta fantasia de Hollywood em torno de chapéus é em Ninotshka um absoluto do cinema na forma como um chapéu derrota o comunismo. Entre o primeiro olhar de desdém que a Garbo no papel de comissária soviética lança ao chapéu na vitrine do hotel e o segundo momento quando na solidão do quarto do hotel depois de se certificar que está tudo bem fechado, desembrulha o mesmo chapéu e o coloca na cabeça frente ao espelho, é uma história de civilização que decorre e com ela um conceito de mulher traduzido nestes pequenos gestos. Lubitsh era um mestre incomparável da ironia e tudo isto decorre numa suavidade de encantar.

Apetece dizer vivam os chapéus que nos dão de volta as mulheres no feminino e não seres assexuados pela ideologia.

As duas fotografias são de Greta Garbo, sem chapéu, feitas para a promoção do filme Mata-Hari, como de costume fotografada por Clarence Sinclair Bull

 

Beethoven — Quarteto de cordas op. 59 Nº1

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Visito as páginas do blog com música, perdidas no vasto arquivo que o blog já é, e surge-me o desejo de as voltar a mostrar, sobretudo aos novos leitores que nos últimos meses têm chegado às dezenas. Hoje revisito este texto sobre quartetos de cordas de Beethoven publicado originalmente em Outubro de 2011.

Há dias, de passagem, quando aqui contava a Aventura Polaca, referi os quartetos Razumovsky. É com a sensação de revelar um segredo íntimo que vos falo desta música, para deixar aqui uma interpretação de minha especial afeição.

As composições para quarteto de cordas são conversações sobre o belo e o sublime, e nessa medida, parte essencial da vida de qualquer melómano que as conheça.

Conversas entre dois violinos, uma viola e um violoncelo, como todas as conversas, uns são mais interessantes que outros, e alguns têm o privilégio  de se poderem escutar a vida inteira.

A atenção exigida ao outro, o sublinhar de uma frase musical ecoando-o com nova intenção, a entrada de uma terceira voz e uma quarta, fazendo o assunto musical divergir ligeiramente, depois o regresso ao assunto principal num uníssono de acordo, contêm, quando os interpretes são de primeira, o intenso prazer da pura beleza.

É sempre música sem assunto. Apenas o jogo da melodia ou do contraste importa, criando a atmosfera sonora do mais perfeito equilíbrio.

A primeira vez que reparei num quarteto de cordas e o identifiquei, tendo passado a fazer parte de mim, foi há trinta e muitos anos. Escutava como habitualmente o programa Em orbita, a maior parte das vezes como fundo musical enquanto estudava, quando um clik me fez pôr de lado os livros e fiquei a ouvir.

No final o locutor de serviço ao programa, anunciou a peça. Tratava-se do quarteto de cordas op. 127 de Beethoven, na interpretação do Quarteto Alban Berg.

Durante muitos anos e muitos quartetos ouvidos, as preferências foram mudando e umas paixões dando lugar a outras. No entanto, um conjunto houve que permaneceu e permanece quase como parte de mim. A ele regresso quando reencontrar o sentido da vida se torna necessário. Falo dos três quartetos op 59 de Beethoven, conhecidos como Quartetos Razumovsky.

Embora a minha preferencia não se fique apenas por um deles, e umas vezes estou mais virado para o nº3, outras para o nº1, e tantas vezes para o nº2, fiquemo-nos apenas pelo nº1.

Ao pensar escrever sobre estas maravilhas voltei a ouvi-los detalhadamente, tendo regressado a interpretações que não ouvia há anos. Detenho-me num conjunto de interpretações sublimes, cada qual com as suas peculiaridades e aproximações singulares a estas formas puras de beleza.

Talvez as possa, para facilidade de exposição, arrumar por famílias, encontrando-lhes afinidades estilísticas, que não de escola.

Falemos então, para inicio de conversa da especial sonoridade dos quartetos daquela Europa, pertença do império austro-húngaro até ao século xx, sobretudo checos e húngaros, com a emocionante rugosidade no ataque às cordas dos instrumentos. Ouvi-los transmite uma espécie de arrepio que numa volta ou outra da interpretação nos põe em pele de galinha.

Diferenciam-se estas interpretações pelo tempo e pela dinâmica, transmitindo uma vivacidade especial às interpretações quer as dos checos  Quarteto Pratzak ou Quarteto Talich ou então a interpretação do hungaro quarteto Vegh.

Com um tempero estilístico vindo do classicismo vienense, e parecendo acabado de chegar dos tempos de Haydn, temos o Quarteto Budapeste nas suas duas formações, e que fez escola nos EUA através dos seus herdeiros, o Quarteto Julliard.

Guardiães da tradição vienense temos o Quarteto Alban Berg em qualquer das suas formações, embora em geral prefira as interpretações da primeira formação.

Numa espécie de cruzamento entre as escolas austríaca e checa encontram-se os ingleses do Quarteto Lindsay. Tocando com uma entrega emocional total, vê-los no histriónico da sua interpretação, envolve-nos numa total adesão e mergulhamos na essência mesma desta música.

Chego agora aquela que foi a interpretação primeira e mais duradoura de minha paixão, a do Quarteto Italiano. Combinando a refinada articulação vienense com a paixão  própria do sul, a sua interpretação derrama uma emoção em cada nota que simultâneamente nos comove e euforiza, fazendo encontrar ali, naquela música, o caminho a seguir.

Este quarteto e esta interpretação estiveram no cume das minha preferências até que um dia me cruzei com uma gravação da radio austríaca, feita no final da WWII, a 19 de Março de 1945. Tocava o Quarteto Schneidermann. A atmosfera de entendimento e concórdia destilada pela interpretação do primeiro dos quartetos op. 59 levou-me a um completo êxtase. É ainda hoje a minha escolha primeira sobre qualquer das interpretações que atingem a excelência e que felizmente alguém gravou para nosso prazer e memória.

No seu estilo eram sem rival e inimitáveis… A sua execução  não conhecia quaisquer problemas técnicos, nem de outra natureza. Harmonia e beleza de som eram soberanas. Da sensual opulencia sonora  do conjunto, faziam suave música, quais sonâmbulos mergulhados em doces sonhos despreocupados das perigosas alturas onde se moviam. Mais ou menos isto escrevia um critico vienense, Hans Wiegel, a proposito do Quarteto Schneiderhan em 1961, quase uma década depois de o quarteto se ter dissolvido.

Na impossibilidade de facultar a algum interessado a audição de todas as gravações que referi (se algum pretender detalhes pode perguntar por e-mail), deixo esta interpretação do Quarteto Schneidermann. Possa algum leitor/ouvinte sentir o milagre que me aconteceu, espero!

Op. 59 nº1:  1 – Allegro

Op. 59 nº1:  2 – Allegretto vivace e sempre scherzando

Op. 59 nº1:  3 – Adagio molto e mesto

Op. 59 nº1:  4 – Allegro

Uma Ode ao orgasmo simultâneo escrita no século XVIII por José Anastácio da Cunha

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Vladimir BAKANOV-ROSSINE (1888-1942)Não é aqui o lugar para discutir as actuais teorias de sexólogos sobre a irrelevância da simultaneidade de orgasmo para o prazer do sexo, de que nos fala o poema de hoje. Trata-se antes de dar a conhecer uma expressão poética desse prazer, velha de cerca de 250 anos.

Ode

Já quasi até morria

C’os olhos nos da amada.

E ela que se sentia

Não menos abrasada:

– “Ai, caro Atfes! – dizia –

Não morras inda, espera

Que eu contigo morrer também quisera”

A ansia com que acabava

A vida, Atfes, refreia,

E, enquanto a dilatava,

Morte maior o anseia.

Os olhos não tirava

Dos do ídolo querido,

Nos quais bebia o Néctar diluído.


Quando a gentil Pastora,

Sentindo já chegada

Do doce gôsto a hora,

Com a vista perturbada

Disse, tremendo: – “Agora

Morre, que eu morro, amor”

– “E eu – disse ele – contigo”

Viram-se desta sorte

Os dois finos amantes

Mortos ambos de um tal corte;

E os golpes penetrantes

Desta casta de morte

Tanto lhe agradaram,

Que para mais morrer recuscitaram.

Este poema de José Anastácio da Cunha (1744 – 1787), O Lente Penitenciado, na certeira expressão de Aquilino foi publicado pela 1ª vez por Hernâni Cidade na edição da obra poética do autor, em 1930. Encontrava-se inédito no manuscrito nº 678 da Biblioteca Municipal do Porto. Talvez valha a pena referir, apenas, como este poema deita por terra a ideia feita da passividade da mulher durante o sexo, tão divulgada até tempos bem perto de nós.

Afinal, quantas vezes não foi ouvida:

Ai, …(ponha aqui o nome quem quiser) …!

Não morras inda, espera

com a variante hoje do verbo vir em vez do verbo morrer.

Brevemente haverá mais pois,

Desta casta de morte / Tanto lhe agradaram, / Que para mais morrer recuscitaram.

A pintura de Vladimir BAKANOV-ROSSINE (1888-1942) que abre o artigo dá certamente conta do arco-íris  do prazer relatado no poema.


Fernando Pessoa — algumas meditações sobre o existir

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carlosmfernandes - Oleo 078 - 2004 - óleo sobre tela 80x80cmA dolorosa meditação do eu na poesia de Fernando Pessoa atinge frequentemente o sublime:

 

Cai amplo o frio e eu durmo na tardança

De adormecer —

Sou, sem lar, nem conforto, nem esperança,

Nem desejo de os ter.

 

E um choro por meu ser me inunda

A imaginação.

Saudade vaga, anónima, profunda,

Náusea da indecisão.

 

Frio do inverno duro, não se tira

Agasalho ou amor.

Dentro em meus ossos teu tremor delira.

Cessa, seja eu quem for!

19-01-1931

 

Questionando a verdade interior do eu na duplicidade do agir, ao ler esta poesia é sempre uma interrogação de nós o que fazemos, ou não fora, como o poeta escreveu, … quem lê versos lê só a própria alma… (17-03-1931).

 

As coisas que errei na vida

São as que acharei na morte,

Porque a vida é dividida

Entre quem sou e a sorte.

 

As coisas que a Sorte deu

Levou-as ela consigo,

Mas as coisas que sou eu

Guardei-as todas comigo.

 

E por isso os erros meus,

Sendo a má sorte que tive,

Terei que os buscar nos céus

Quando a morte tire os véus

À inconsciência em que estive.

21-08-1934

 

Por último, um poema menos perfeito (última quadra) e onde os versos

Falhei a tudo, mas sem galhardias, / Nada fui, nada ousei e nada fiz,

 

remetem para as reflexões de Tabacaria (15-01-1928):

Falhei em tudo. / Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada. /…

 

Este poema de 02-07-1931 afasta-se da interrogação em Tabacaria (aquele talvez) e desenvolve reflexões pela afirmativa onde os belíssimos versos:

Nem colhi nas urtigas dos meus dias, / A flor de parecer feliz.

espelham a dualidade do ser e do parecer com as imagens do amargo dos dias referidos como urtigas, e a felicidade simulada, pela flor de parecer feliz.

 

Bem, hoje que estou só e posso ver

Com o poder de ver do coração

Quanto não sou, quanto não posso ser,

Quanto, se o for, serei em vão.

 

Hoje, vou confessar, quero sentir-me

Definitivamente ser ninguém,

E de mim mesmo, altivo, demitir-me

Por não ter procedido bem.

 

Falhei a tudo, mas sem galhardias,

Nada fui, nada ousei e nada fiz,

Nem colhi nas urtigas dos meus dias,

A flor de parecer feliz.

 

Mas fica sempre, porque o pobre é rico

Em própria casa, se procurar bem,

A grande indiferença com que fico

É um sonho… Leve-o quem o trate bem.

02-07-1931

 

Em nota final, refiro quanto o verso de abertura do poema inicial

Cai amplo o frio e eu durmo na tardança / …

me ecoa, apesar da variação na abordagem, o soneto de Sá de Miranda

 

O sol é grande, caem co’a calma as aves / …

 

e outro dia transcreverei.

 

No segundo poema de Pessoa, o verso As coisas que errei na vida / …, leva-me direitinho para o soneto de Camões:

Erros meus, má fortuna, amor ardente / Em minha perdição se conjuraram / …

E assim, neste deambular poético lá vou para o multifacetado da vida, na variedade das reflexões que a poesia induz.

Seria matéria de vasta prosa perambular pelas afinidade e oposições entre estes quatro poemas, o que não cabe no formato do blog, obviamente.

 

Poemas transcritos de Fernando Pessoa, Poesia 1931-1935, edição de Manuela Parreira da Silva ed al., Assírio & Alvim, Lisboa, Julho 2006.

Abre o artigo a imagem de uma pintura (óleo s/tela) que fiz pelo ano de 2004.

Cântico Maior, 8, 6-7

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Suite VollardNo culminar do imperecível cântico ao amor que é o conjunto de poemas de Cântico dos Cânticos ou Cântico Maior de Salomão, lemos os versos 8, 6-7, onde se canta a sem medida do amor, a sua força, a sua dignidade sem preço.

Trago ao blog algumas das versões que conheço entre traduções próximas do original e versões um tanto livres. Abro com a tradução de José Nunes Carreira, tradução integral do mais fidedigno original conhecido. Segue-se-lhe a versão da Bíblia Protestante. Depois, uma concisa versão de Herberto Helder a qual não inclui os versos finais sobre o sem-preço do amor. Leremos a seguir uma tradução do hebraico por Haroldo de Campos, com algumas belas opções vocabulares, a começar pela opção por sinete em vez de selo para dar a medida de como o amor se grava em nós. Termino com a tradução mais bela que conheço, por José Tolentino Mendonça, a qual, à fidelidade ao original alia soluções poéticas de enorme encanto.

 

Tradução de José Nunes Carreira

6

Faz de mim um selo

em teu coração estampado,

um sinete em teu braço.

Pois forte como a Morte é o Amor,

feroz como os infernos a paixão.

Seus dardos, dardos de fogo;

suas chamas…

7

Águas diluvianas não conseguem

extinguir o amor.

Torrentes não o levam de enxurrada.

Se alguém quisesse dar

por amor toda a fazenda

de sua casa,

só desprezo iria achar.

 

Versão da Bíblia

Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo

sobre o teu braço, porque o amor é forte como

a morte, e duro como a sepultura o ciúme;

as suas brasas são brasas de fogo, labaredas

do Senhor.

 

As muitas águas não poderiam apagar este amor,

nem os rios afogá-lo: ainda que alguém desse

toda a fazenda de sua casa por este amor,

certamente a desprezariam.

 

Versão de Herberto Helder

Põe-me como um selo em teu coração,

como um selo no teu braço.

Porque o amor é forte como a morte,

o amor único mais forte que a eternidade dos mortos.

As suas feições são como flechas de fogo,

uma chama de Deus.

 

As grandes águas não poderão extinguir o amor,

nem submergi-lo os rios

 

Tradução do hebraico de Haroldo de Campos

6

Grava-me como um sinete    sobre o teu coração

como um sinete    sobre o teu braço

pois forte como a morte    o amor

como o amargume do Sheol    o ciúme

Suas chamas    são chamas    de fogueira

o fogo ardente do Senhor

7

Altas águas    não poderão

apagar o amor

e torrentes de rios    não o afogarão

Um homem que ofereça     todos os seus bens de mais preço

para obter favor de amor

sobre ele o desprezo    o menosprezo

 

Tradução do hebraico de José Tolentino Mendonça

6

grava-me como selo no teu coração    como selo em teu braço

porque forte como a morte é o amor    voraz a paixão como o abismo

seus ardores são chamas de fogo    labaredas do Senhor

7

por maiores que sejam as águas    jamais apagarão o amor

rio nenhum o poderá submergir

entregasse alguém     toda a riqueza de sua casa para comprar o amor    

seria ainda tratado com desprezo.

 

Notícia bibliográfica

Tradução de José Nunes Carreira in Cantigas de Amor do Oriente Antigo, Edições Cosmos, Lisboa, 1999.

Versão da Bíblia, in edição autónoma de O Cântico dos Cânticos, Estúdios Cor, Lisboa, 1966.

Versão de Herberto Helder in O Bebedor Noturno, poemas mudados para português, Assírio & Alvim, Lisboa, 2010.

Tradução de Haroldo de Campos in Éden um Tríptico Bíblico, Editora Perspectiva, S. Paulo, 2004.

Tradução de José Tolentino Almeida in Cântico dos Cânticos, Edições Cotovia, Lisboa, 1997.

Da amizade segundo Aristóteles

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jules-et-jim-poster do filme 600pxVoltei a ver um destes dias o filme de François Truffaut (1932-84), Jules e Jim (1962), que gira à volta de uma amizade entre dois homens onde uma mulher aparece.  

O filme de algum modo retoma com mais profundidade e outras implicações o assunto da deliciosa comédia de Ernst Lubitch (1892-1947), Uma mulher para dois (Design for Living, 1933): um acordo de “ménàge à trois” que não corre pelo melhor.

design for living poster 600pxNo filme de Truffaut, situado na Paris de ante 1ª guerra mundial, dois jovens amigos vagamente escritores, um francês, um alemão, vivem na boémia do tempo. Nas relações que se sucedem, surge uma mulher que com eles acaba a partilhar a amizade. Criatura peculiar, por quem os dois poderiam apaixonar-se, a certa altura o alemão pretende-a só para si. Casam. A guerra rebenta e coloca cada um dos homens em campo inimigo.

O filme passa ao lado deste conflito amizade/política, que fora admiravelmente retratado em A vida do coronel Blimp (The Life and Death of Colonel Blimp, 1943) da dupla britânica Michael Powell (1905-90) e Emeric Pressburger1902-88).

the-life-and-death-of-colonel-blimp-movie-poster-1943Ambos saídos ilesos da guerra, os amigos do filme de Truffaut retomam contacto. O alemão permanece casado numa relação quase em ruínas onde laivos de paixão permanecem. O que foi um casamento com amigo ao lado, transforma-se, com a chegada do francês, numa complexa relação de pertença onde a amizade entre os dois homens é posta à prova num conflito que a paixão atravessa. Mulher voluntariosa, a protagonista, vivia um entendimento da entrega ao amor ditada por uma exigente e continuada atenção à sua pessoa e aos seus caprichos, onde apenas a sua vontade reinasse como condição de harmonia. Termina o filme, e se nele encontramos uma elegia da amizade, fica-nos também o sabor do mistério da mulher nesta relação entre sexos.

 Amigos e amizade são relações afectivas que todos tomamos por conhecidas. A presença quase universal do Facebook no nosso quotidiano, e o seu apelo à formação de círculos de amigos, dá conta, na sua variedade de relações, de quanto o conceito de amizade hoje surge algo difuso.

Nem sempre todos entendemos por amizade o mesmo conteúdo de uma relação.

Com alguns fragmentos de Aristóteles (384 a.C. – 322 a.C.) onde o filósofo discorre sobre o conceito de amizade e as suas diversas formas, talvez consigamos articular com mais precisão e clareza a variedade do que nas relações humanas tomamos por amizade.

As transcrições vão semeadas de reticências, as quais respeitam ao desenvolvimento justificativo das afirmações transcritas, que pela sua extensão omiti.

Aristóteles, Ética a Nicómaco, Livro VIII, III

O desejo de amizade nasce depressa mas a amizade não.

Os motivos pelos quais a amizade nasce distinguem-se segundo três formas essenciais; de acordo com esses três motivos, assim também são as respectivas formas de amizade.

Os que definem a sua amizade com base na utilidade não são amigos por aquilo que eles próprios são, mas pelo bem que daí pode resultar para ambos. De modo semelhante, acontece com os que definem a sua amizade com base no prazer, pois não se gosta de pessoas divertidas pelas qualidades de carácter que têm mas por serem agradáveis.

Os que têm a amizade com base na utilidade gostam uns dos outros pelo bem que os outros lhes fazem; os que têm uma amizade com base no prazer, gostam uns dos outros pelo próprio prazer que lhes dá.

Estas formas de amizade são, portanto, meramente acidentais. Porque não se gosta do outro apenas por aquilo que ele é, mas por ser vantajoso ou ser agradável. Estes laços de amizade são os que mais facilmente se rompem, sobretudo se os que por eles estão envolvidos com outros, não ficarem os mesmos e se tiverem tornado diferentes ao longo do tempo. Isto é, deixam de ser amigos, quando o prazer acaba ou deixa de haver vantagem.

Mas a amizade perfeita existe entre os homens de bem e os que são semelhantes a respeito da excelência. … E por serem homens de bem são amigos dos outros pelo que os outros são. … Na verdade querem para os seus amigos o bem que querem para si próprios. E são desta maneira por gostarem dos amigos como eles são na sua essência, e não por motivos acidentais. A amizade entre eles permanece durante o tempo em que forem homens de bem;

Tais amizades são, de facto, raras, porque são poucos os homens desta estirpe. Além do mais, é preciso tempo e cumplicidade, pois, tal como diz o provérbio, não é possível que duas pessoas se conheçam uma à outra sem antes terem comido juntas a mesma quantidade de sal. Nem se pode reconhecer alguém como amigo antes de cada um se ter mostrado ao outro digno de amizade e merecedor de confiança. Pessoas que depressa produzem provas (exteriores) de amizade entre si querem ser amigos, mas não podem sê-lo logo. É preciso primeiro que se tornem dignos da amizade e se possa reconhecer neles essa mesma dignidade. O desejo de amizade nasce depressa, mas a amizade não.

Tradução do Grego e notas de António C. Caeiro, Quetzal Editores, Lisboa, 2004.

As Fadas – Poema de Antero de Quental (1842-1891)

Para os novos leitores do blog recordo este post antigo.

vicio da poesia

Nestes tempos de Verão,  quando as férias apelam à fantasia, aqui  fica  um convite para viajar ao mundo encantado das fadas com a inspiração de Antero de Quental.

Revela-nos o poema segredos só conhecidos de poucos adultos, apenas daqueles que ainda sabem que a Cinderela casa mesmo com o Principe e acreditam que:  a fortuna da gente / Está às vezes somente / Numa palavra que diz; / Por uma palavra, engraça / Uma fada com quem passa, / E torna-o logo feliz.

Mas cuidado, pois as fadas quando se zangam:  têm vinganças terriveis! /Semeiam coisas horriveis, / Que nascem logo no chão… / Linguas de fogo que estalam! / Sapos com asas que falam! / Um anão preto! Um dragão!

 Ou deitam sortes na gente… / O nariz faz-se serpente, / A dar pulos, a crescer… / É-se morcego ou veado… / E anda-se assim encantado…

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