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Poesia, meu amargo rio — Carlos de Oliveira

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Turner sun-setting

As palavras / cintilam / / e o seu rumor / / ágil e esquivo / como o vento / fala de amor / e solidão: /

 

Com este fragmento de um poema de Carlos de Oliveira (1921-1981) abro uma curta visita à sua poesia.

 

Dormir / mas o sonho / repassa / duma insistente dor / a lembrança / da vida /

 

Sonhos, memória, observação atenta da vida, tudo isto atravessa esta poesia contida, onde o peso da cada palavra é tal que por si só constitui frequentemente um verso.

 

É uma poesia fora de moda, nos antípodas dos detalhados relatos pessoais que agora são sucesso. Aqui, na poesia de Carlos de Oliveira, temos a palavra que liberta a imaginação do leitor, fazendo sua a experiência poética que lê, e com isso atingindo a intima emoção que a arte desencadeia.

Abro com o prodigioso poema Infância, contraste e síntese entre o tamanho dos sonhos que ela nos deixa, enormes como cedros, e o calor que no inverno da memória trazem, lenha / da melancolia.

 

Infância

 

Sonhos

enormes como cedros

que é preciso

trazer de longe

aos ombros

para achar

no inverno da memória

este rumor

de lume:

o teu perfume,

lenha

da melancolia.

 

Passemos a um dos poemas transcritos a abrir:

 

Sono

 

Dormir

mas o sonho

repassa

duma insistente dor

a lembrança

da vida

água outra vez bebida

na pobreza da noite:

e assim perdido

o sono

o olvido

bates, coração, repetes

sem querer

o dia.

 

A escolha que segue, Soneto, dá conta da reflexão paralela entre a expressão poética do sentir,

o dicionário que me coube em sorte

folheei-o ao rumor do sofrimento:

 

e a adequação da palavra precisa à sua transmissão, permitindo no final a existência de poesia:

 

Rudes e breves as palavras pesam

mais do que as lajes ou a vida, tanto,

que levantar a torre do meu canto

é recriar o mundo pedra a pedra;

 

No resultado, surgem versos de beleza inexcedível, quais sejam:

ó palavras de ferro, ainda sonho

dar-vos a leve têmpera do vento.

Turner procession

Soneto

 

Rudes e breves as palavras pesam

mais do que as lajes ou a vida, tanto,

que levantar a torre do meu canto

é recriar o mundo pedra a pedra;

mina obscura e insondável, quis

acender-te o granito das estrelas

e nestes versos repetir com elas

o milagre das velhas pederneiras;

mas as pedras do fogo transformei-as

nas lousas cegas, áridas, da morte,

o dicionário que me coube em sorte

folheei-o ao rumor do sofrimento:

ó palavras de ferro, ainda sonho

dar-vos a leve têmpera do vento.

 

E quando o poema surge, vem numa espécie de milagre como em Tarde se lê:

quando vi

o poema organizado nas alturas

reflectir-se aqui,

em ritmos, desenhos, estruturas

duma sintaxe que produz

coisas aéreas como o vento e a luz.

Turner distant

Tarde

 

A tarde trabalhava

sem rumor

no âmbito feliz das suas nuvens,

conjugava

cintilações e frémitos,

rimava

as tênues vibrações

do mundo

quando vi

o poema organizado nas alturas

reflectir-se aqui,

em ritmos, desenhos, estruturas

duma sintaxe que produz

coisas aéreas como o vento e a luz.

 

No poema Vento, o mesmo estro poético mostra como as palavras cintilam ao falar de amor e solidão:

 

Vento

 

As palavras

cintilam

na floresta do sono

e o seu rumor

de corsas perseguidas

ágil e esquivo

como o vento

fala de amor

e solidão:

quem vos ferir

não fere em vão,

 

Entre tantos, mais alguns belos versos no Soneto da chuva:

aqueles versos de água onde os direi,

cansado como vou do teu cansaço?

Deixem chover as lágrimas que eu crio:

menos que chuva e lama nas estradas

és tu, poesia, meu amargo rio.

Turner rain-steam-speed

Soneto da chuva

 

Quantas vezes chorou no teu regaço

a minha infância, terra que eu pisei:

aqueles versos de água onde os direi,

cansado como vou do teu cansaço?

Virá abril de novo, até a tua

memória se fartar das mesmas flores

numa última órbita em que fores

carregada de cinza como a lua.

Porque bebes as dores que me são dadas,

desfeito é já no vosso próprio frio

meu coração, visões abandonadas.

Deixem chover as lágrimas que eu crio:

menos que chuva e lama nas estradas

és tu, poesia, meu amargo rio.

 

Da precisa lei da matéria: na natureza nada se cria, tudo se transforma, descoberta por Lavoisier, surge o poema com o nome do químico, dando conta que similmente,

 

Na poesia,

natureza variável

das palavras,

nada se perde

ou cria,

tudo se transforma:

cada poema,

no seu perfil

incerto

e caligráfico,

já sonha

outra forma.

 

Termino com Salmo, poema eivado de sabedoria:

A vida / é o bago de uva / macerado / nos lagares do mundo … a dor é vã / e o vinho / breve.

 

Salmo

 

A vida

é o bago de uva

macerado

nos lagares do mundo

e aqui se diz

para proveito dos que vivem

que a dor é vã

e o vinho

breve.

Turner sea-monsters

Poemas transcritos de Obras de Carlos de Oliveira, Editorial Caminho, Lisboa, 1992.

 

Vai o artigo acompanhado das imagens de pinturas de William Turner (1775-1851).

 

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Um dos Poemas Inconjuntos de Alberto Caeiro

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Juan Gris o livro

É uma especial leitura do Estoicismo vindo dos gregos, a filosofia de vida expendida por Alberto Caeiro (heterónimo de Fernando Pessoa (1888-1935)) no poema que mais à frente transcrevo integralmente.

 

Aceito as dificuldades da vida porque são o destino,

Como aceito o frio exccessivo no alto do inverno —

Calmamente, sem me queixar, como quem meramente aceita,

E encontra uma alegria no facto de aceitar —

No facto sublimemente científico e difícil de aceitar o natural inevitável.

 

Nas voltas da vida, umas vezes a aprendizagem pelo sofrimento faz-se de sopetão, outras espalha-se ao longo da existência, entremeando a alegria de estar vivo com a experiência da dor em redor; mas cedo ou tarde, incorporamos a evidência de que a nossa capacidade de determinar o destino é restrita às opções de vida que escolhemos fazer. E o resto, o mundo e o seu voltear, seguem na sua indiferença. E da aceitação desta evidência decorre uma alegria tranquila que ecoa neste poema de Fernando Pessoa assinado Alberto Caeiro.

 

Mas tem mais, o poema. Tem o corolário da reflexão desenvolvida, e difícil de aceitar para mentes formadas no racionalismo, que o mundo não é compreensível apenas pela inteligência (e que caminho é preciso percorrer até aceitar esta outra evidência…):

 

Nasci sujeito como os outros a erros e a defeitos,

Mas nunca ao erro de querer compreender demais,

Mas nunca ao erro de querer compreender só com a inteligência,

Nunca ao defeito de exigir do mundo

Que fosse qualquer coisa que não fosse o mundo.

 

Feito o intróito, vamos ao poema completo.

 

Quando está frio no tempo frio, para mim é como se estivesse agradável,

Porque para o meu ser adequado à existência das coisas

O natural é o agradável só por ser natural.

 

Aceito as dificuldades da vida porque são o destino,

Como aceito o frio excessivo no alto do inverno —

Calmamente, sem me queixar, como quem meramente aceita,

E encontra uma alegria no facto de aceitar —

No facto sublimemente científico e difícil de aceitar o natural inevitável.

 

Que são para mim as doenças que tenho e o mal que me acontece

Senão o inverno da minha pessoa e da minha vida?

O inverno irregular, cujas leis de aparecimento desconheço,

Mas que existe para mim em virtude da mesma fatalidade sublime,

Da mesma inevitável exterioridade a mim,

Que o calor da terra no alto do verão

E o frio da terra no cimo do inverno.

 

Aceito por personalidade

Nasci sujeito como os outros a erros e a defeitos,

Mas nunca ao erro de querer compreender demais,

Mas nunca ao erro de querer compreender só com a inteligência,

Nunca ao defeito de exigir do mundo

Que fosse qualquer coisa que não fosse o mundo.

[24-10-1917]

 

Transcrito de Poemas Completos de Alberto Caeiro, recolha, transcrição e notas de Teresa Sobral Cunha, Editorial Presença, Lisboa 1994.

Nesta edição o poema tem o nº49 dos Poemas Inconjuntos.

 

Iconografia

No livro da vida, e nas suas múltiplas perspectivas, quadra, como alegoria, a imagem desta obra cubista de Juan Gris (1887-1927), O livro.

“Tivesse eu sabido” — poema de A. C. Swinburne

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Bernard_Emile-Madeleine_in_the_Forest_of_Love 1888

Nos acasos felizes que a poesia proporciona, cruzam-se por vezes os poemas dando conta de uma intemporal unidade do sentir humano. É assim que, depois do poema anterior de António Manuel Couto Viana (1923-2010), Saudade de um corpo, me cai nos olhos uma mais geral e meditativa reflexão poética de A. C. Swinburne (1837-1909) sobre o que não fizemos na vida quando a possibilidade existia, deixando a oportunidade passar ao lado:

Tivesse eu sabido, quando a vida era um vento tépido e feliz,

Brando e ruidoso na aurora e na névoa brilhante do orvalho,

Que havia de chegar o tempo em que, suspirando os corações diriam:

“Tivesse eu sabido…”

Chega sempre, o tempo de olhar para trás e duvidar do acerto das escolhas. Há apenas que viver com elas, ainda que, por vezes sintamos que:

… a própria alma, à deriva e perdida como o vento, suspira:

“Tivesse eu sabido…”

 

Quem nos dera pela vida fora não vir a suspirar: “Tivesse eu sabido…”

 

 

 

“Tivesse eu sabido”

 

Tivesse eu sabido, quando a vida era um vento tépido e feliz,

Brando e ruidoso na aurora e na névoa brilhante do orvalho,

Que havia de chegar o tempo em que, suspirando os corações diriam:

“Tivesse eu sabido…”

 

Nem sequer as rosas rindo ao beijarem-se,

Nem, ao sol, o mais encantador riso ondulante do mar,

Teriam vindo fascinar a minha alma para que neles reparasse.

 

Agora o vento é como uma alma desterrada a rezar inutilmente

As preces que não conseguimos ouvir se o coração lhes resiste,

Agora que a minha própria alma, à deriva e perdida como o vento, suspira:

“Tivesse eu sabido…”
O poema, em tradução de Maria de Lourdes Guimarães, foi transcrito de Poemas, edição Relógio d’Água, Lisboa, 2006.

 

Termino com o original inglês:

 

‘Had I Wist’

 

Had I wist, when life was like a warm wind playing

Light and loud through sundawn and the dew’s bright mist,

How the time should come for hearts to sigh in saying

‘Had I wist’ —

 

Surely not the roses, laughing as they kissed,

Not the lovelier laugh of seas in sunshine swaying,

Should have lured my soul to look thereon and list.

 

Now the wind is like a soul cast out and praying

Vainly, prayers that pierce not ears when hearts resist:

Now mine own soul sighs, adrift as wind and straying,

‘Had I wist.’

 

Escrevia eu estas notas, e súbito irrompe o saxofone de Ben Webster e o piano de Art Tatum tocando uma intemporal versão de My one and only love. Não resisto a acrescentá-la ao artigo.


A abrir, a imagem de uma pintura de Emile Bernard (1868-1941), Madeleine na floresta do amor, de 1888.

Saudade de um corpo — poema de António Manuel Couto Viana

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GUÉRIN, Pierre-Narcisse - Aurora e Cephalus 1810 fragmento 600px

É sobre o que não aconteceu o poema de António Manuel Couto Viana (1923-2010), Saudade de um corpo:

Arrependido? Sim: preferia recordar

Um corpo saciado, a um corpo reprimido;

O momento fremente de o despir e enlaçar

 

Com o proverbial lirismo de tanta da sua poesia, avançamos na leitura do poema seguindo a delicadeza de gestos e encanto de um desejo adolescente até conhecer o desenlace-pretexto da memória que se faz poema:

 

Saudade de um corpo

 

Os nossos corpos tinham não sei que primavera,

Quando em noites de Maio, na influência da lua,

Florescia entre nós um silêncio de espera,

Se a minha mão pousava na tua.

 

Tímidos e febris, só os sentidos falavam,

Até que a tua voz, expulsando o torpor,

Receosa, talvez, de uns passos que passavam,

Se punha a divagar sobre a noite e o calor.

 

Nunca nos acalmou a frescura de um beijo;

É feliz a amizade! E o amor é tão sério

Que cada um guardou, para si, o desejo,

Temendo ver voar a asa do mistério.

 

Arrependido? Sim: preferia recordar

Um corpo saciado, a um corpo reprimido;

O momento fremente de o despir e enlaçar

E de o sentir ranger, como range um vestido.

 

É caso para parafrasear Camões:

Mais vale experimentá-lo… que transportar pela vida um desejo insaciado.

 

O poema foi transcrito de O Coração e a Espada, Edições Távola Redonda, 1953.

 

Na abertura vê-se com prazer a imagem de uma pintura de Pierre-Narcisse Guérin (1774-1833).

Procura-se mulher em poema de Toni Montesinos Gilbert

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Lucien Freud - Man with a Feather (Self-portrait) 1943 600px

Nos nossos dias, e a ter em conta os poetas, o amor é tudo menos romântico. Será um aconchego de corpos, será uma renúncia à solidão, será talvez uma exigência social, mas as paixões despidas da razão parecem definitivamente fulgores de outras eras.

 

No poema Anúncio do catalão Toni Montesinos Gilbert (1972) dá-se conta da demanda da mulher ideal para um homem dos nossos dias. O conjunto de quesitos é sedutor, mas falta na lista aquele quid que nos leva dos píncaros de felicidade ao abismo do desespero, numa oscilação que apenas o que convencionámos chamar amor, consegue.

 

O que, porventura, possa existir de irónico no poema, deixo à apreciação dos leitores.

 

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Procuro mulher sincera e cautelosa,

bela, hábil na cozinha e na cama,

de boa linhagem, sabia e eficiente,

que seja cuidadosa, terna, doce,

extrovertida e de aspecto elegante.

 

Que se dispa lentamente e tenha

carta de condução, uma carreira,

olhos grandes e boca muito suave.

 

Nem muitos nem poucos anos: os necessários.

 

Deverá, ainda assim, dar-me alegria.

 

Tem de praticar desporto, e gostar

de música clássica e de leitura;

atenta e sociável com os meus amigos.

 

Não interessa a cor do cabelo,

a raça ou a cultura. Quero apenas amá-la.

Quero que, ao vê-la, a vida comece.

Procuro apenas uma mulher preparada

para viver a minha prolongada morte.

 

Tradução de Manuel de Freitas

Transcrito da revista Telhados de Vidro nº5, Novembro de 2005.

 

Abre o artigo a imagem de um auto-retrato de Lucien Freud (1922-2011) pintado em 1943.

Time Passing, Beloved — poema de Donald Davie

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David Hockney (1937) - Mr. and Mrs. Clark and Percy - 1970-71

Há uma tocante simplicidade na penetrante verdade sobre o amor e o tempo no poema Time Passing, Beloved, (O tempo passa, meu bem) de Donald Davie (1922-1955). Se o tempo tudo apaga, apaga também das memórias o que de amargo o amor viveu, mas a incerteza sobre o futuro, essa é uma indeterminação que permanece, sempre.

 

Infelizmente não conheço, do poema, tradução portuguesa. Deixo o original inglês, certamente acessível à maior parte dos leitores do blog.

 

Time Passing, Beloved

 

Time passing, and the memories of love

Coming back to me, carissima, no more mockingly

Than ever before; time passing, unslackening,

Unhastening, steadily; and no more

Bitterly, beloved, the memories of love

Coming into the shore.

 

How will it end? Time passing and our passages of love

As ever, beloved, blind

As ever before; time binding, unbinding

About us; and yet to remember

Never less chastening, nor the flame of love

Less like an ember.

 

What will become of us? Time

Passing, beloved, and we in a sealed

Assurance unassailed

By memory. How can it end,

This siege of a shore that no misgivings have steeled,

No doubts defend?

 

Transcrito de Collected Poems, Carcanet Press, 1990.

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de David Hockney (1937)Mr. and Mrs. Clark and Percy, 1970-71.

Camões — Catarina bem promete…

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Larry Rivers - Popcorn 1970

É um prazer sempre renovado perder-me na poesia de Camões (1524-10 Junho 1580). Aos poemas familiares que cantam na cabeça nas mais inesperadas situações, e se renovam a cada leitura, acrescentam-se outros, fugazes, que no trivial da ideia nos levam ao encontro do homem por detrás do génio. Desses,  transcrevo hoje três redondilhas em voltas sobre mote, onde de ardências de amor e esquivanças femininas se trata.

 

Começo com um poema de dúbio sentido onde calores masculinos se disfarçam.

Esforçaram-se especialistas em encontrar fundamento histórico para explicar a letra desta redondilha. Por mim é sem questão: é uma gabarolice em torno da firmeza da erecção do poeta e um convite ao acto sem destinatária identificada.

 

Mote

 

Quem disser que a barca pende,

dir-lhe-ei, mana, que mente.

 

 

Volta

 

Se vos quereis embarcar

e para isso estais no cais,

entrai logo; que tardais?

Olhai que está preiamar!

E se outrem, por vos fretar,

vos disser que esta que pende,

dir-lhe-ei, mana, que mente.

 

Esta barca é de carreira,

tem seus aparelhos novos;

não há como ela outra em Povos,

boa de leme e veleira.

Mas, se por ser a primeira,

aos disser alguém que pende,

dir-lhe-ei, mana, que mente.

Notas

V. 12 — Povos — localidade do concelho de Vila Franca, próxima do rio Tejo.

 

Agora, para a doença que ataca homens e mulheres, o conselho com o remédio óbvio: Eu cá sinto a vossa dor / e, se vós sintis a minha, / dai e tomai a mezinha.

O mote explica o assunto do poema de forma cabal.

 

A üa dama que estava doente

 

Mote

 

Da doença em que ardeis

eu fora vossa mezinha

só com vós serdes a minha.

 

 

Voltas

 

É muito para notar

cura tão bem acertada,

que podereis ser curada

somente com me curar.

Se quereis, Dama, trocar,

ambos temos a mezinha:

eu a vossa, e vós a minha.

 

Olhai que não quer Amor

(por que fiquemos iguais),

pois meu ardor não curais,

que se cure vosso ardor.

Eu cá sinto a vossa dor

e, se vós sintis a minha,

dai e tomai a mezinha.

 

Notas

V. 2 — mezinha — remédio

V. 13 — pois — já que; não curais — não tratais.

V. 13-14 — ardor — tomado no duplo sentido de paixão e febre.

 

Termino com as promessas e esquivas de uma Catarina: Mas pois folgais de mentir, / prometendo de me ver, / eu vos deixo o prometer, / deixai-me vós o cumprir: / Haveis então de sentir / quanto fica mais contente / o que cumpre que o que mente.

 

Mote alheio

 

Catarina bem promete…

Eramá! como ela mente!

 

Voltas Próprias

 

Catarina é mais fermosa

para mim que a luz do dia;

mas mais fermosa seria,

se não fosse mentirosa.

Hoje a vejo piadosa;

amanhã tão diferente,

que sempre cuido que mente.

 

Catarina me mentiu

muitas vezes, sem ter lei;

mas todas lhe perdoei

por ûa só que cumpriu.

Se, como me consentiu

falar, o mais me consente,

nunca mais direi que mente.

 

Má, mentirosa, malvada,

dizei: para que mentis?

Prometeis, e não cumpris.

Pois, sem cumprir, tudo é nada.

Não sois bem aconselhada;

que quem promete, se mente,

o que perde não no sente.

 

Jurou-me aquela cadela

de vir, pela alma que tinha.

Enganou-me: tem a minha;

dá-lhe pouco de perdê-la.

A vida gasto após ela

porque ma dá, se promete;

mas tira-ma, quando mente.

 

Tudo vos consentiria

quanto quisésseis fazer,

se esse vosso prometer

fosse por me ter um dia;

todo então me desfaria

convosco; e vós, de contente,

zombaríeis de quem mente.

 

Prometeu-me ontem de vir,

nunca mais apareceu;

creio que não prometeu

senão só por me mentir.

Faz-me enfim chorar e rir:

rio, quando me promete;

mas choro, quando me mente.

 

Mas pois folgais de mentir,

prometendo de me ver,

eu vos deixo o prometer,

deixai-me vós o cumprir:

Haveis então de sentir

quanto fica mais contente

o que cumpre que o que mente.

 

Notas

Eramá! — interjeição usada na língua popular do tempo, como se vê em Gil Vicente, às vezes com a forma ieramá (nota da edição das Redondilhas de Hernani Cidade).

 

V. 13 — cumprir tem na época, entre outros, o sentido de satisfazer, dar satisfação.

V. 15 — o mais me consente — consente-me mais que falar-lhe.

V. 21 — bem aconselhada — de bom conselho, previdente, sensata.

V. 23 — nem sabe o que perde.

V. 24 — cadela — na Comédia de el-rei Seleuco encontra-se este falar namorado: ” Vossos descuidos? Cadela! / Ah, minh’alma  Sois tão bela…”— É possível que o sentido não fosse então meramente depreciativo, como hoje.

V. 33-34 — trocadilho entre vários sentidos: prometer, por me ter, por meter. — no texto o verbo prometer vem sempre grafado com a forma pormeter.

V. 41 — se não só por — a não ser para.

V. 45 — mas pois — mas visto que.

V. 48 — vide nota ao V. 13.

Transcrição dos poemas e notas de Luis de Camões, Lírica Completa I, prefácio e notas de Maria de Lurdes Saraiva, INCM, 1980.

A imagem de abertura mostra uma obra de Larry Rivers (1923-2002).

Esta obscuridade salubre — poema de Ana Hatherly com pintura de Monet

Monet jardins 04 600px

Namorar por jardins é ocupação de bom tempo. Num passeio em que a memória se cruza com o novo, lia eu poesia de Ana Hatherly (1929) quando subitamente um poema se colou à imagem da pintura de Claude Monet (1840-1926) que abre o artigo:

 

 

Esta obscuridade salubre

 

Olha peço-te não venhas assim quando eu estava tão quieta

sentada no jardim e até com óculos

não venhas peço-te

não venhas melindroso e sorrindo

com a cabeça inclinada como um particípio

não venhas

Eu estava já me aproximando

quase tocava a recorrência das coisas

nesse momento eu olhava para o chão e via mesmo cada

pequena pedra saudável

eu estava tão quieta sentada no jardim

Respirava

sentia as veias ligeiramente activas

mas tão ligeiramente

tudo corria fundo em sua sumidade

meus braços tinham apenas o seu peso

sem outras asas

Quando tu vieste sorrindo melindroso e tão salubre

de repente o jardim é a dificuldade essencial da minha

botânica

a minha indústria difícil

o fim que a alma lograda obtém dos corpos

Corro agora por minha alucinação dirigível

minhas tarefas são histriónicas

Eu estava ali tão quieta

estava até com óculos

e tu inclinavas-te como um simulacro

Intui, peço-te

esta obscuridade salubre

esta consternação despenhada

tropeçando pela alma recorrente silva

 

in Eros Frenético, 1968.

Transcrito de Poesia 1958-1978, Moraes Editores, Lisboa 1980.

 

A pintura é um prodígio de sentimento. Um casal, presumivelmente namorados, está de amuo, ou pelo menos ela está amuada, e faz beicinho: vejam-lhe além da boca, o olhar entre triste e desolado. Ele, olhar sardónico, aguarda que as flores oferecidas, abandonadas no banco, façam a reconciliação. Longe, a provável dama de companhia, para manter a decência do encontro, aguarda. Toda a envolvente resplandece, apenas à espera que o arrufo se esfume, o que certamente acontecerá, e para nós que observamos, será coisa de pouca demora, pois esse é o milagre de namorar pelos jardins.

Deixo-vos e volto ao passeio.

Um cego — poema de Jorge Luis Borges e desenho de Barocci

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Anónimo - atribuido a Federico Barocci

Já a propósito do poema Elogia da sombra falei de alguma da poesia de Jorge Luis Borges (1899-1986) sobre a cegueira. Hoje volto com o poema Um cego, o qual, na sua concisão lapidar, dá conta do sentimento de ver, de si, apenas a alma.

É este apenas ver a alma, a que quem é cego está remetido, algo de enorme dificuldade na representação gráfica.

O desenho que abre o artigo, de autor anónimo e atribuído ao pintor italiano quinhentista Federico Barocci (1528-1602), é um dos raros exemplos de representação exemplar de cegueira humana. Mas o desenho tem mais: tem um homem de quem quase conseguimos saber tudo, apesar de a representação não mostrar a alma pelo olhar, caminho da empatia no ver. É o inacabado do cabelo e barba que permite o destaque de todo o rosto, na pungente expressão de um provável e desolado sofrimento. Pouco diferirá da ira muda, fatigada, aflita, que Borges refere no poema que a seguir se lê

 

Um cego

 

Não sei qual é a face que me fita

Quando observo a face de algum espelho;

No seu reflexo espreita-me esse velho

Com ira muda, fatigada, aflita.

Lento na sombra, com as mãos exploro

Meus invisíveis traços. O mais belo

Fulgor me atinge. Vi o teu cabelo

Que é já de cinza ou é ainda de ouro.

Repito que perdi unicamente

A superfície sempre vã das coisas.

O consolo é de Milton e é valente,

Mas eu penso nas letras e nas rosas,

Penso que se pudesse ver a cara

Saberia quem sou na tarde rara.

 

Tradução de Fernando Pinto do Amaral

in Obras Completas III, 1975-1985, Editorial Teorema, 1998

 

Un Ciego

 

No sé cuál es la cara que me mira

cuando miro la cara del espejo;

no sé qué anciano acecha en su reflejo

con silenciosa y ya cansada ira.

Lento en mi sombra, con la mano exploro

mis invisibles rasgos. Un destello

me alcanza. He vislumbrado tu cabello

que es de ceniza o es aún de oro.

Repito que he perdido solamente

la vana superficie de las cosas.

El consuelo es de Milton y es valiente,

pero pienso en las letras y en las rosas.

Pienso que si pudiera ver mi cara

sabría quién soy en esta tarde rara.

 

Transcrito de Poesía completa, Debolsillo, Barcelona, 2013.

 

O desenho pertence à colecção da Galeria Albertina de Viena.

Retratos extraordinários — O Bar de Maurice Vlaminck

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Vlaminck_Maurice_de-The_Bar 1900

Poucas vezes a pintura conseguiu com a economia figurativa deste O Bar, pintado por Maurice Vlaminck (1876-1958) em 1900, dar conta de um universo intuído na segurança do olhar frontal da mulher que encostada a um balcão onde um cocktail vermelho pousa, cigarro descaído ao canto da boca, fita o observador —nós— possíveis clientes, eventualmente polícias de bons costumes, enfim, toda a panóplia humana que corre fora da afirmação desta vida por opção.

É apenas a rugosidade da pincelada que assegura a atmosfera e conduz o olhar: do cabelo à flor do casaco.

Na distribuição espacial dos volumes, e tão só uma linha diagonal chega para transmitir profundidade, é a posição do tronco e cabeça, a lembrar A Dama do arminho de Leonardo da Vinci, que, na curva do peito guiam o observador para o vago fundo onde se intui a gente que povoa o bar. E uma ínfima paleta de amarelo, vermelho, branco e preto, a que laivos de azul se juntam, aplicada sobre um desenho sumário, transforma a pintura numa obra inesquecível.