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Van Gogh — os auto-retratos

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1889 Agosto

Foram numerosos os auto-retratos pintados por Vincent van Gogh (1853-1890) nos últimos anos de vida. Atenho-me aos retratos realizados nos anos 1887-1889.

1887 Março-Abril aPara o período destes auto-retratos, as circunstâncias de biografia de van Gogh são conhecidas: a instalação em Arles com o propósito de criar uma comunidade de artistas, as dificuldades em vender obras suas, o conflito com Paul Gauguin, o corte da orelha e os episódios de insânia; e  têm ocupado biógrafos e leitores, colocando a fruição das obras na perspectiva da vida do artista.

1888 Setembro  - dedicado a GauguinAo vê-las, interessa-me sobretudo o confronto da técnica com o poder expressivo das imagens, dando conta de uma complexidade de sentimentos através de uma paleta irrealista e de uma pincelada visivelmente ostensiva, que acrescenta drama ao olhar o retratado.

1887 Verão  c

Sendo sempre o mesmo homem, retrato a retrato seguimos entre a placidez e a determinação, até mesmo à obstinação, e à tragédia da loucura, tomando consciência da fragilidade dos fios que nos prendem a um quotidiano tranquilo.

1887 verão b

São no seu conjunto uma intensa experiência para o olhar.

1886-87 InvernoVê-las cria no espectador uma complexa emoção entre a absoluta genialidade pictórica das obras, a reflexão sobre as contingências da vida que dali transparece, e o sentido das escolhas que fazemos pela vida fora.

1887-88 inverno

1888 Janeiro

1887 Verão d

1887 Verão

1888 Agosto

1889 Setembro

1887 Primavera

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A alma com o coração nas mãos — iluminura medieval e poema de Rabindranath Tagore

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Iluminura 07 750px

Na transbordante imaginação pictórica escondida nos manuscritos medievais encontram-se prodígios a que a simbologia do figurado acrescenta uma dimensão metafísica incomparável.

 

Hoje mostro o que será uma representação da alma segurando entre as mãos o coração.

A alma, na forma de mulher-anjo (não sei de “anjas” na mitologia cristã) com asas coloridas, acaricia e interroga(?) o coração. Afinal, o que permanentemente fazemos: Vamos atrás do coração? Seguimos a razão? Ou deixamos que a alma faça a síntese e encontre o caminho que a ambos satisfaz?

 

Exemplar meditação representada, olhemos. E no olhar pensemos: onde está a beleza do mundo que à volta da alma meditativa gira. Em nós está o quê? Como caminhamos neste mundo e dele faremos parte?

 

Boa Páscoa!

Deixo-vos com um poema de Rabindranath Tagore (1861-1941)

 

 

Não voltes atrás

 

Se os portais do meu coração

Estiverem sempre fechados,

Rebenta-os e entra na minha alma,

Senhor, não voltes para trás.

 

Se um dia destes as cordas da minha harpa

Não ressoarem com o teu nome,

Na tua espera digna de piedade,

Senhor, não voltes para trás.

 

Se quando me chamares

A sonolência do meu sono não passar,

Bate-me e acorda-me com o teu trovão,

Senhor, não voltes para trás.

 

Se um dia destes no teu trono

Eu colocar alguém sem pensamentos,

Meu eterno Rei,

Não voltes para trás!

 

Tradução de José Agostinho Baptista

in Rabindranath Tagore, Poesia, Assírio & Alvim, Lisboa, 2004.

 

Nota sobre a pintura

 

Título: A alma dialogando com o seu coração

Pintura sobre pergaminho integrante do livro Mortifiement de vaine plaisance, de René d’Anjou, cerca de 1460.

Fólio 31 do manuscrito 165 da colecção do Fitzwilliam Museum, Cambridge (Mass.).

TARDE VOS AMEI — Agostinho de Hipona

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Rogier van der WEYDEN - Deposição 9São ínvios os caminhos entre a razão e a crença. Matéria de fé e reserva de cada um, a Paixão de Cristo que o calendário cristão assinala faz-me trazer ao blog a evocação de Santo Agostinho (364-430) sobre a sua conversão cristã e a necessidade de Deus; e arquivar no blog as prodigiosas imagens da pintura de  Rogier van der Weyden (1400-1464), Deposição de Cristo, do Museu do Prado, pintada cerca de 1435.

Rogier van der WEYDEN - Deposição 2

TARDE VOS AMEI

 

Tarde Vos amei, Ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde Vos amei.

Habitáveis longamente dentro de mim, e eis-me lá fora a procurar-Vos.

Dispersava-me entre as formosuras que criastes.

Estáveis já comigo, sem que eu estivesse convosco!

Demorava-me naquilo que não existiria se não existisse por Vós.

Até que rompestes minha surdez, chamando por mim com voz tão forte.

Brilhastes, cintilastes por dentro da minha cegueira.

Exaltastes perfume: respirei-o e desejei-Vos com todas as forças.

Saboreei-Vos, e agora padeço de fome, morro de sede.

Tocastes-me, e sem a Vossa paz, sei que nunca mais terei paz!

 

Agostinho de Hipona

Rogier van der WEYDEN - Deposição 5

Rogier van der WEYDEN - Deposição 6

Rogier van der WEYDEN - Deposição 7

Rogier van der WEYDEN - Deposição 8

 

Rogier van der WEYDEN - Deposição 3

Rogier van der WEYDEN - Deposição 1

 

Ricardo Reis — Se recordo quem fui, outrem me vejo

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O filósofo e o poeta

Tem sido frequente confrontar-me com a memória de mim nos outros e surgir um sentimento de estranheza, ou dizendo com Ricardo Reis, o heterónimo de Fernando Pessoa:

 

Se recordo quem fui, outrem me vejo,

E o passado é um presente na lembrança.

 

A vida vivida aos vinte anos é marca indelével no percurso de cada homem ou mulher. Sabemo-lo quando, passados os cinquenta anos, olhamos para o caminho percorrido e a evidência surge: não vamos voltar a percorrê-lo. O que ficou por fazer não mais se fará.

 

Quem fui é alguém que amo

Porém somente em sonho.

 

Ter tido vinte anos em 1974, permitiu-me e a toda uma geração, viver no furacão dos dias, as ideias e as experiências que em outras conjunturas demorariam anos a acontecer ou nem aconteceriam.

 

quem sou e quem fui

São sonhos diferentes

Ter tido vinte anos em Abril e ser estudante universitário em Portugal permitiu já saber o valor das escolhas: a escolha de divergir das ideias toleráveis e enfrentar a prisão por delito de opinião, a escolha de ir à guerra com o prémio da própria vida.

 

Ganhámos, toda uma geração, a consciência, impregnada na própria pele, de que nada vale o direito de estar vivo e livre para fazer as escolhas que a vontade de cada um ditar.

 

E a saudade que me aflige a mente

Não é de mim nem do passado visto,

Senão de quem habito

Por trás dos olhos cegos.

 

Não sei como se ensina a quem sempre viveu em liberdade e na vida caminhou com estes valores, tendo-os por tão naturais como beber água, que não são naturais. São como bonecas de porcelana, que à menor distracção ou descuido se partem e deixam de existir. Provavelmente apenas ser cerceado deles permite dar-lhes o valor, e cada geração tem que fazer a sua dolorosa aprendizagem.

 

Nada, senão o instante, me conhece.

 

Despeço-me com o poema que por entre a conversa citei.

 

 

Ricardo Reis — Poema 104

 

Se recordo quem fui, outrem me vejo,

E o passado é um presente na lembrança.

Quem fui é alguém que amo

Porém somente em sonho.

E a saudade que me aflige a mente

Não é de mim nem do passado visto,

Senão de quem habito

Por trás dos olhos cegos.

Nada, senão o instante, me conhece.

Minha mesma lembrança é nada, e sinto

Que quem sou e quem fui

São sonhos diferentes

 

26-05-1930

 

in Ricardo Reis, Poesias, edição Manuela Parreira da Silva, Assírio & Alvim, Lisboa, 2000.

Sonhos, Um sonho — poemas de Edgar Allan Poe

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Dalí -  Segundo a cabeça de Juliano de Medicis em Florença - 1982

Sonhos! Que à vida dão tenaz matiz,

Sonhos, desejo de acontecimentos, são eles que nos movem, fazendo-nos, e ao mundo, mudar com eles. Mas não é destes sonhos que os dois poemas de Edgar Allan Poe (1809-1849) nos falam. Antes remetem para a nostalgia do vivido: Ah, que fosse sempre um sonho a mocidade!

 

É complexo o nosso eu interior, e na multiplicidade significante dos sonhos muitas vezes nos enleamos. Não tanto nos sonhos para onde o sono nos leva e a psicanálise escrutina, mas naquele acordado sonhar que nos confunde e por vezes faz misturar indistintamente desejo e realidade, afastando-nos do pragmatismo que permite traçar o caminho entre o sonho e a sua materialização.

Que faz senão sonhar sempre acordado / Aquele que olha de soslaio / As coisas em redor, e com um raio / Apontado para o passado?

 

Demos à vida o sonho. Que mais podia haver de tão brilhante / No astro claro da Verdade?

 

Sonhos

 

Ah, que fosse sempre um sonho a mocidade!

E minha alma apenas despertasse à luz

Da manhã que vem com a eternidade;

Sim! pesasse o sonho embora como cruz,

Melhor me serviria ao coração

(Desde sempre, nesta terra de dormência,

Um caos de tumulto e funda paixão…)

Do que a vida desperta da existência.

 

Oh, pudesse ser assim… um sonho eterno

E constante… como esses que eu tive, incríveis,

Em rapaz… se tais coisas fossem possíveis,

Para quê querer ainda o Céu superno!

Pois em sonhos gozei a chama do Verão

No azul celeste, nos campos brilhantes…

Sem pejo, deixei o próprio coração

Em climas por mim criados… tão distantes

Do meu próprio lar, com ideias dos seres

Que eu inventava… oh, que mais podia eu ver?

 

Por uma vez, só uma… e essa hora ousada

Jamais posso eu esquecer (uma energia

Me tinha encantado)… houve uma brisa fria

Que desceu à noite e deixou, de abalada,

Sua forma em minha alma… ou o clarão

Da lua — quem sabe? — gelou o meu sono,

Ou os astros… ou o que fosse… esse sonho

Foi como o vento à noite… que passe então.

 

Embora num só sonho… eu fui feliz,

Fui tão feliz… E eu amo essa tontura…

Sonhos! Que à vida dão tenaz matiz,

Ou propiciam a contenda obscura

Da símile face ao real — e à vista

Delirante trazem coisas mais formosas

Do Céu e do Amor (e são nossas conquistas!)

Do que jamais as teve a Esperança radiosa.

 

Um Sonho

 

Em visões do breu nocturno e incerto

Sonhei com o prazer de outrora…

Mas um sonho desperto, pela aurora,

Deixou-me o coração deserto.

 

Que faz senão sonhar sempre acordado

Aquele que olha de soslaio

As coisas em redor, e com um raio

Apontado para o passado?

 

Aquele sonho santo… visionário,

Enquanto o mundo escarnecia,

Me acalentou, tal chama que irradia

Guiando uma alma solitária.

 

E embora aquela luz, na tempestade

E breu, tremesse lá distante…

Que mais podia haver de tão brilhante

No astro claro da Verdade?

 

Tradução de Margarida Vale de Gato

in Edgar Allan Poe, Obra Poética Completa, Edições tinta-da-china, Lisboa, 2009.

A imagem de abertura respeita a uma pintura de Salvador Dalí (1904-1989), Segundo a cabeça de Juliano de Medicis em Florença, de 1982.

Vida e Destino com Ricardo Reis

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Gerhard Richter Abstracção 1990 (2)

A realidade

Sempre é mais ou menos

Do que nós queremos.

 

Parafraseando Camilo Castelo Branco, diria que os leitores do blog são bons e pacientes, mas também querem não ser tentados a perder essas excelentes qualidades, por isso deixo de lado as obscuridades poéticas com que me tenho ocupado, e dei exemplo nos últimos artigos, e regresso a Fernando Pessoa na forma do seu heterónimo Ricardo Reis.

Num pequeno grupo de poemas criados de 1916 a 1933, lemos diferentes pontos de vista sobre vida e destino consubstanciáveis nos versos Com que vida encherei os poucos breves / Dias que me são dados?

e que abrem o primeiro poema escolhido.

Mais à frente duas reflexões sobre carpe diem — goza o dia —no poema 61 de 1923:

Goza este dia como / Se a Vida fosse nele.,

e no poema 144 de 1933:

No mesmo hausto / Em que vivemos, morreremos. Colhe / O dia, porque és ele.

Oscilando entre desejar o gozo do efémero e a consciência de viver uma vida Que nem quero nem amo, / Minha porque sou ela. (Poema 145), acontece a recomendação Vê de longe a vida. / Nunca a interrogues. / Ela nada pode /Dizer-te. (Poema 34).

Porque a vida, felizmente, não nos surge sempre da mesma cor, terminemos com um desejo:

Sob a leve tutela / De deuses descuidosos, /Quero gastar as concedidas horas / Desta fadada vida. (poema 170),  

Conduzi a dança, ninfas singelas / Até ao amplo gozo / Que tomais da vida. (poema171).

Feito o intróito, seguem-se os poemas.

Gerhard Richter Abstracção 1991

67

 

Com que vida encherei os poucos breves

Dias que me são dados? Será minha

A minha vida ou dada

A outros ou a sombras?

 

À sombra de nós mesmos quantas vezes

Inconscientes nos sacrificamos,

E um destino cumprimos

Nem nosso nem alheio!

 

Porém nosso destino é o que for nosso,

Quem nos deu o acaso, ou, alheio fado,

Anônimo a um anônimo,

Nos arrasta a corrente.

 

Ó deuses imortais, saiba eu ao menos

Aceitar sem querê-lo, sorridente,

O curso áspero e duro

Da strada permitida.

 

5-5-1925

Gerhard Richter Abstracção 1994 (2)

61

De uma só vez recolhe

As flores que puderes.

Não dura mais que até à noite o dia.

Colhe de que lembrares.

 

A vida é pouco e cerca-a

A sombra e o sem-remédio.

Não temos regras que compreendamos,

Súbditos sem governo.

 

Goza este dia como

Se a Vida fosse nele.

Homens nem deuses fadam, nem destinam

Senão que  ignoramos.

 

24-10-1923

Gerhard Richter Abstracção 1992

144

Uns, com os olhos postos no passado,

Vêem o que não vêem; outros, fitos

Os mesmos olhos no futuro, vêem

O que não pode ver-se.

 

Porque tão longe ir pôr o que está perto —

O dia real que vemos? No mesmo hausto

Em que vivemos, morreremos. Colhe

O dia, porque és ele.

 

28-8-1933

Gerhard Richter Abstracção 1993 (2)

145

Súbdito inútil de astros dominantes,

Passageiros como eu, vivo uma vida

Que nem quero nem amo,

Minha porque sou ela.

 

No ergástulo de ser quem sou, contudo,

De em mim pensar me livro, olhando no atro

Os astros que dominam,

Submisso de os ver brilhar.

 

Vastidão vã que finge de infinito

(Como se o infinito se pudesse ver!) —

Dá-me ela a liberdade?

Como, se ela a não tem?

 

19-11-1933

Gerhard Richter Abstracção 1995 (3)

34

Segue o teu destino,

Rega as tuas plantas,

Ama as tuas rosas.

O resto é a sombra

De árvores alheias.

 

A realidade

Sempre é mais ou menos

Do que nós queremos.

Só nós somos sempre

Iguais a nós-próprios.

 

Suave é viver só.

Grande e nobre é sempre

Viver simplesmente.

Deixar a dor nas aras

Como ex-voto aos deuses.

 

Vê de longe a vida.

Nunca a interrogues.

Ela nada pode

Dizer-te. A resposta

Está além dos Deuses.

 

Mas serenamente

Imita o Olímpo

No teu coração.

Os deuses são deuses

Porque não se pensam.

 

1-7-1916

Gerhard Richter Abstracção 1994 (3)

170

Sob a leve tutela

De deuses descuidosos,

Quero gastar as concedidas horas

Desta fadada vida.

 

Nada podendo contra

O ser que me fizeram,

Desejo ao menos que me haja o Fado

Dado a paz por destino.

 

Da verdade não quero

Mais que a vida; que os deuses

Dão vida e não verdade, nem talvez

Saibam qual a verdade.

171

Sob estas árvores ou aquelas árvores

Conduzi a dança,

Conduzi a dança, ninfas singelas

Até ao amplo gozo

Que tomais da vida. Conduzi a dança

E sê quasi humanas

Com o vosso gozo derramado em ritmos

Em ritmos solenes

Que a vossa alegria torna maliciosos

Para nossa triste

Vida que não sabe sob as mesmas árvores

Conduzir a dança…

Gerhard Richter Abstracção 1995

in Ricardo Reis, Poesias, edição Manuela Parreira da Silva, Assírio & Alvim, Lisboa, 2000.

Acompanham os poemas imagens de pinturas de Gerhard Richter (1932), tituladas todas abstracção, e pintadas entre 1990 e 1995.

Gerhard Richter Abstracção 1995 (2)

As horas de prazer voam ligeiras — sonetos de Joaquim Severino Ferrás de Campos

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Lagrenee - Echo e NarcisusA

Ainda que os leitores do blog, na sua maioria, permaneçam indiferentes a esta poesia antiga em que a suavidade do amor, seus prazeres e desenganos se espraia, continuo a mostrá-la depois de mais de duzentos anos guardada em livros raros. Hoje é mais um dos poetas da Nova Arcádia, Joaquim Severino Ferrás de Campos (1760-1813), Alcino Ulisiponense, de seu nome arcádico. Amigo de Bocage e do poeta Bingre, a sua poesia mereceu a ambos o elogio poético, e o comentário de Pato Moniz, de que alguma dela seria superior à poesia de Reis Quita.

A sua obra poética foi em grande parte reunida no volume Rimas, de onde transcrevo três sonetos. Neles, respira-se a mesma qualidade da poesia amorosa quinhentista ainda que envolvida por vezes na capa pastoril do edonismo arcádico. A todos subjaz uma filosofia do prazer: Enquanto o Fado nos concede a vida / De amor doces prazeres desfrutemos,

ainda que temperado pelo doce sofrimento do amor: Meu prazer em pesar foi convertendo; / … / Hoje levo a chorar um dia inteiro.

 

 

A um primeiro soneto com o enlevo do amor repassado de tristeza pela ausência da amada Lília:

O silêncio em que jaz a natureza /… /Me imprime na cansada fantasia / Mil saudosas imagens de tristeza.

 

segue-se um soneto onde o poeta lamenta o engano e a ingratidão de uma mesma ou diferente Lília:

 

Quanto iludido andei, quanto indiscreto, / Em crer seus juramentos fabulosos, / Nascidos só dum aparente afecto.

 

Termino com um terceiro soneto de convite a gozar o dia que passa — carpe diem Às nossas almas liberdade dêmos / De se engolfarem na amorosa lida. subordinado ao mote: As horas de prazer voam ligeiras

 

Deixo-vos com os sonetos na totalidade.

 

Soneto VI

 

O silêncio em que jaz a natureza

No mais alto da noite escura, e fria,

Me imprime na cansada fantasia

Mil saudosas imagens de tristeza.

 

Tudo o que encerra a vasta redondeza

A gozar do repouso principia:

Só eu, que o cego amor tenho por guia

Corro após os encantos da beleza.

 

Cheio de mil saudades penetrantes,

Sem ver da minha Lilia o gesto brando,

Envio ao céu suspiros incessantes.

 

E por ir meus pesares mitigando,

Nas estrelas que vejo mais brilhantes

Estou seus lindos olhos contemplando.

 

Soneto X

 

Quantas vezes à sombra deste ulmeiro,

Que nas águas do Tejo se está vendo,

De Lilia no regaço adormecendo

Bendisse o meu ditoso cativeiro.

 

Mas quão depressa o Fado lisonjeiro

Meu prazer em pesar foi convertendo;

De Lilia a ingratidão, oh crime horrendo!

Hoje levo a chorar um dia inteiro.

 

Quanto iludido andei, quanto indiscreto,

Em crer seus juramentos fabulosos,

Nascidos só dum aparente afecto.

 

Mas quem diria, oh Numes rigorosos,

Que haviam empregar-se em torpe objecto

Olhos tão meigos, olhos tão formosos.

 

Mote

 

As horas de prazer voam ligeiras

 

Soneto XXI

 

Enquanto o Fado nos concede a vida

De amor doces prazeres desfrutemos,

Às nossas almas liberdade dêmos

De se engolfarem na amorosa lida.

 

Deixa temores vãos, Laura querida,

E já que a sorte quer que nos amemos,

Vindoiros infortúnios arrostemos,

Que o dano, a um puro amor, não intimida.

 

Eu jurei de ser teu, tu de ser minha,

Promessas tais, meu Bem, são verdadeiras;

Guardado Amor para te amar me tinha.

 

Esquivar-te à ternura, ah não, não queiras;

Que o tempo corre, a morte se avizinha,

As horas do prazer voam ligeiras.

 

 

Fado é usado nos soneto com o significado de sorte;

Lisonjeiro é no soneto usado com o significado de atractivo, gostoso, aprazível;

Indiscreto significa no soneto imprudente;

(v. Dicionário de Morais)

 

Sonetos transcritos de RIMAS de Joaquim Severino Ferrás de Campos, na Oficina de Thaddeo Ferreira, Lisboa, 1794.

Modernizei a ortografia.

Lana Turner desmaiou! — acontecimento lido por Frank O’Hara

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Lana Turner The Postman Always Rings Twice 1946

A vida, a nossa vida, e a outra, a que os media relatam, têm habitualmente muito pouco a ver entre si.

A poesia de Frank O’Hara (1926-1966) dá frequentemente conta dessa evidência, e no poema que hoje escolhi, eleva-a a caricatura no relato entre a importância do desmaio de Lana Turner e o que o preocupa.

 

Lana Turner 2

Poema

Lana Turner desmaiou!
Eu deambulava e de repente
começou a chover e a nevar
e tu disseste que caía granizo
mas o granizo acerta na cabeça
com força por isso estava a nevar
e a chover e eu tinha tanta pressa
ia ao teu encontro mas o tráfego
comportava-se exactamente como o céu
e subitamente vi um cabeçalho
LANA TURNER DESMAIOU!
não há neve em Hollywood
não há chuva na California
eu estive numa data de festas
e portei-me de forma desgraçada
mas nunca tive um desmaio
oh Lana Turner amamos-te levanta-te

Tradução de José Alberto Oliveira

 

Poem

Lana Turner has collapsed!
I was trotting along and suddenly
it started raining and snowing
and you said it was hailing
but hailing hits you on the head
hard so it was really snowing and
raining and I was in such a hurry
to meet you but the traffic
was acting exactly like the sky
and suddenly I see a headline
LANA TURNER HAS COLLAPSED!
there is no snow in Hollywood
there is no rain in California
I have been to lots of parties
and acted perfectly disgraceful
but I never actually collapsed
oh Lana Turner we love you get up

1962

Lana Turner 1Para os menos familiarizados com o cinema clássico de Hollywood, Lana Turner (1921-1995) foi uma das mais famosas louras platinadas produzidas pelo cinema e arquétipo da mulher fatal ao protagonizar o filme O carteiro toca sempre duas vezes (1946) (foto de abertura). Noutro registo, o do melodrama, foi a vedeta de Imitação da vida (1959), verdadeira máquina de fazer chorar, para os não apreciadores.
Por outro lado, para os adolescestes amantes do filme de aventuras, Lana Turner foi a terrível Milady de Winter na história de Os Três Mosqueteiros filmado em 1948 por George Sidney (1916-2002), com o inesquecível D’Artagnan de Gene Kelly (1912-1996) e a sua dança nas lutas de espada.

The Three Musketeers (1948)

Um soneto de João Baptista de Lara — Albano Ulisiponence na Nova Arcádia

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Karl Schmidt-Rottluff 09

Cansado pensamento, em paz me deixa / Respirar um momento sossegado

Não perturbes meu sono desejado / Mostrando-me um rival afortunado

A fadiga mental que o desgosto de amor provoca, tem neste soneto do final do século XVIII o recorte poético que quase a torna apetecida, tal a suavidade do verso para dela dar conta, a que se acrescenta o pedido de um sono sem sonhos com o rival que o substituiu.

Quando o frouxo Morfeu meus olhos fecha / Não perturbes meu sono desejado / Mostrando-me um rival afortunado

O soneto foi escrito por João Baptista de Lara (1764-1828), Albano Ulisiponence na Academia de Belas Letras de Lisboa, também conhecida por Nova Arcádia onde pontificou Bocage, e merece saltar do pó do esquecimento. Possui o número 26 no Almanak das Musas Parte I, publicado em 1793. Deixo-vos com o soneto em ortografia modernizada.

Soneto

Cansado pensamento, em paz me deixa
Respirar um momento sossegado
Assaz é tempo enfim que um desgraçado
Ponha termo ao seu pranto, à sua queixa.

Quando o frouxo Morfeu meus olhos fecha
Não perturbes meu sono desejado
Mostrando-me um rival afortunado
Que as armas contra mim, cruel desfecha.

Não sejas tu também meu inimigo,
Se é possível, permite que eu ignore
Ou me esqueça uma vez do meu perigo.

Mas aí de mim! Por mais que ao céu implore
O céu me nega em ti um doce abrigo
E faz que eu sem cessar suspire e chore.

João Baptista de Lara

A imagem que abre o artigo mostra uma pintura do alemão Karl Schmidt-Rottluf (1884-1976).

Sopa da pedra – a lenda recontada por Júlio César Machado

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Aertsen_Pieter-Market_Woman_with_Vegetable_Stall

Por um mecanismo informático cujo segredo estará ao alcance de poucos, o Facebook insiste em mostrar-me, na minha qualidade de administrador da página viciodapoesia, páginas dedicadas à culinária moderna, com o pretexto de que têm, o que chamam, um desempenho igual à minha.
Não é coisa que me preocupe ou incomode, e sobretudo trouxe-me a ideia de mostrar aos leitores do vicio da poesia não culinária moderna, mas a antiquíssima sopa da pedra ou sopa de pedra.
A sopa da pedra é, para quem não sabe, uma sopa de sustancia, com hortaliças e carne, tradicional da culinária portuguesa, sobretudo no Ribatejo, e em Almeirim em particular, onde a pedra é de lei; e presença literária num dos contos tradicionais portugueses.
Esta sopa da pedra terá sido expediente de um frade mendicante para obter alimento junto dos mais renitentes, tal como a tradição a conta. A lenda mereceu a Júlio César Machado (1835-1890) um ligeiro reenquadramento, voltando a contá-la num dos seus livros de prosas avulsas.
A graça e frescura do estilo com que esta arqui-conhecida estória está contada, leva-me à sua transcrição, em ortografia modernizada.

Sopa de pedra por Júlio César Machado

Foram dois rapazes, da tropa, dois pobres moços, dois tristes soldados, aboletados para casa de um grande somítico, em Peniche.
Apressou-se logo em lhes ir dizendo o homem:
—Ó filhos, vocemecês vêem para cá! Ora, que ideia! Não lhes posso dar senão água e lume.
—Água e quê?
—E lume.
—Já não é mau.
—Está visto, que não é mau. Mas advirto-os desde já, para saberem a tempo com o que podem
contar, e não me azoinarem depois com pedidos…
—Diz bem.
—Tenho razão ou não tenho?
—Tem, tem razão.
—Cada um dá o que pode.
—Está bem de ver!
—Não é assim!?
—É.
—Pois aí está. Água e lume têm vocês aqui. O mais arranjem-o.
—Sim, senhor
—Estamos entendidos.

Puseram água ao lume. Depois, disse um para o outro:
—Ó Rufino, vai buscar a coisa, hein?
—A água já ferve ?
—Não, mas para haver tempo de se lavar.
—Ah ! Isso, sim. E para o dono da casa:
—Com licença!
—Você vai sair?
—É um instante. Faz favor de não fechar a porta.
—Não fechar a porta! Deus me livre disso! A porta quer-se sempre fechada.
—Vou ali buscar uma coisa, e já volto.
Dali a nada voltou com uma pedra.
—Vá, disse-lhe o outro; lava-a, que a água já principia a ferver.
O soldado lavou a pedra muito bem lavada, em três águas, como se faz ao arroz, depois escorreu-a, limpou-a, e meteu-a na panela.
O somítico estava pasmado. E mais pasmado ficou, quando os viu deitarem sal na panela e provarem.
—Que tal está? perguntou um dos aboletados.
—Não está má.
—Não o deve estar, porque a pedra parece boa.
—Ah! Isso é ela. De boa qualidade.
—Precisa ferver.
—É o que precisa. E se tivesse uma hortaliça qualquer, uma cabecinha de nabo, umas cenouras, estava obra
—Homens, lá por isso não seja a dúvida! Ponderou o dono da casa. Tomem vocês lá duas cenouras, e duas cabeças de nabo, e mesmo também a rama, se querem.
—Pois venha lá isso.
Meteram os vegetais para dentro da panela.
Daí a bocado provaram.
—Que tal vai?
—Vai bem. Está mesmo boa. Por mais um nadinha, ficaria óptima!
—Que nadinha é? perguntou o avarento.
—Um bocadinho de toucinho, ou banha de porco … respondeu um dos soldados.
—Pois, tire lá: mas, hão de dar-me a provar, porque tenho curiosidade de vêr o que sai daí.
—Sai uma sopa só fina!
—Mas, isso, é sopa de pedra?
—É sim, senhor. Também se faz de seixos. Mas, esta, é mais corda.
—E a primeira vez que tal vejo!
—Há-de gostar.
Foi-se o soldado ao toucinho, cortou-lhe um naco, deitou-o no caldo da hortaliça e deixou ferver.
—Cheira, cheira, isso já.
—E bem
—Cheira bem, cheira bem.
—Ora! pois é pitéu. E então em levando um anexim, que lhe falta, é de uma pessoa lamber o prato…
—O que é que falta?
—Um pedacinho de chouriço, ou mesmo linguiça. Isso então fica maravilha!
—Homem, disse o somítico, lá por causa de um apêndice tão fácil de achar á mão, não deixe essa extraordinária comida de chegar a ser o que se diga perfeita …
Juntou-se-lhe o chouriço.
Coseu, coseu…
Deitava um cheiro …
—Ó senhores, que cheiro! disse o unhas de fome.
—Cheira muito bem, meu senhor, e melhor há-de saber! redarguiu um dos aboletados.
E o outro aboletado:
—Está pronta. Está na conta própria. Agora, em querendo, vamos a ela… Isto com pão, é melhor ainda, se é possível; mas, mesmo sem pão é boa!
O somitico foi buscar um pão.
—Vamos já a isto… Estou com vontade de saborear essa historia…
—Esta historia é mais bonita que a da carochinha, e com isto se diz tudo! Ora, muito bem . .
Uma vez partido o pão à mão …
—Sim! ponderou o outro soldado. Isso é que é de preceito para este caso. Há-de ser por força à mão…
—Sim, sim … Pois seja à mão.
—Mas por força.
—Acredito! basta vocês dizerem!
—Agora despeja-se-lhe o caldo em cima, guardando de reserva o pão suficiente para machucar no toucinho, acompanhado com as ervas… Que tal?! Boa?
—Está óptima! exclamava o homem. Eslá excelente. Vocês são o diabo! Não à gente como são os soldados, para estas coisas! Como vocês fazem sopa de um pedregulho, e fica uma delícia por esta maneira! Não se acredita! Parece bruxaria!
—E para vocemecê vêr
—Cá me fica!…

Bom apetite!