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Amor, Amores, no Cancioneiro Popular Português

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Jan Steen - Auto-retrato como alaudistaAo Cancioneiro Popular Português fui buscar algumas quadras à volta do amor. Contam elas alegrias e desgostos, falam de amores ligeiros ou eternos, saudades e promessas vãs. Tudo naquela mescla de ingenuidade e sabedoria a que o verso de sete sílabas e a quadra chamada de pé-quebrado (rima abcb) transmite um especial encanto.

Antes dos assuntos sérios do amor, e porque tudo isto é para cantar, façamos um breve intróito à conta da inspiração:

 

Eu sei fabricar cantigas

Mesmo com o pó do chão:

Inda bem não digo uma,

Já vem outra de roldão…

 

E para o poeta que também é tocador, algumas apreciações:

 

O tocador da viola

É bonito, toca bem:

Amigo das raparigas,

É o pior que ele tem!

 

Mas nem sempre o tocador tem o coração volúvel, se não, leiam:

 

Eu dedilho na guitarra

As cordas do coração.

Pela guitarra é que eu tive

A posse da tua mão.

 

E se mulher não há…

 

Guitarra, minha guitarra,

Só tu és a minha amiga:

Ficas comigo na cama,

És a minha rapariga.

LISIEWSKA, Anna Rosina - Alegoria do ouvir 600pxFeito o intróito, passemos ao sério:

 

O amor quando se encontra

Causa penas e dá gosto:

Sobressalta o coração,

Sobem as cores ao rosto.

 

Isto sabido, vamos aos variados estados amorosos:

 

A dúvida:

 

Tenho um dedo que adivinha,

Um dedo que me diz tudo;

Perguntei-lhe se me amavas,

Mas o ladrão ficou mudo…

 

A certeza:

 

Não te amo por um dia

Nem só por uma semana;

Amo-te por toda a vida,

Se o coração não me engana.

 

O estado apaixonado:

 

Mal sabes quanto me alegro

Quando te vejo defronte:

É como quem morre à sede

E põe a boca na fonte!

 

O meu coração do teu

É bem ruim de apartar:

É como a alma do corpo

Quando Deus a vem buscar.

 

Ai, muito custa uma ausência

A quem na sabe sentir!

Mas mais custa uma presença

De ver e não possuir!

 

Dormindo sonho contigo,

De dia contigo estou;

Tua imagem vem comigo

P’ra todo o lado onde vou.

 

Esta noite sonhei eu

Cuidando que era já tua;

Tive tantas alegrias

Como pedras há na rua!

 

O amor e o seu fim:

 

Lá vai o rio correndo

Oh, quem mo dera agarrar!

O amor é como o rio:

Vai-se e não torna a voltar.

 

Ainda que o lume se apague

Na cinza fica o calor;

Ainda que o amor se ausente

No coração fica a dor.

 

Aquele primeiro amor

Que no mundo tem a gente

Não sei que doçura tem

Que lembra constantemente

 

(Var) Que alembra eternamente.

 

Outras variadas formas de viver o amor onde entre peitos e penas surge alguma variedade expressiva:

 

Ó minha bela menina,

Ponha o seu amor só num;

Não traga muitos à trela,

Que pode ficar sem nenhum.

 

 

Ando cansado da vida,

Ando doente do peito;

Dá-me xarope de beijos,

Dá-me chá de amor-perfeito.

 

Esta noite me obrigaram

A dormir c’uma morena;

A pena maior que eu tive:

Ser a noite tão pequena.

 

A pena com que te escrevo

Não é de nenhum pavão,

Criada foi em meu peito,

Junto do meu coração.

 

Despeço-me com vontade de ser o passarinho da quadra final:

 

Que passarinho é aquele,

Que no ar faz ameaços?

Com o bico pede beijos,

Com as asas pede abraços!

 

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Uma fábula de Bingre em início de Carnaval

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Dalí - Nu com seios de caracol

No mundo dos nossos dias, repartido entre o intelectualmente pretensioso e a ignorância militante, a fábula é género desprezado. E, no entanto, quanto conhecimento dos homens elas encerram na frescura e aparente inocência das suas formas poéticas.

Conhece a tradição ocidental três conjuntos maiores, que de algum modo se retomam entre si com variações, e são: os fabulários de Esopo e Fedro, vindos da antiguidade grega e romana, e as fábulas de La Fontaine do pós-renascimento, reelaboração de fábulas da antiga Índia compiladas por Roudaki sob o nome Kalilè e Demnè.

Por cá, ainda que surjam pontualmente nos mais diversos autores, foram sobretudo os poetas do neo-clacissismo português que a praticaram, com destaque para Bocage, a Marquesa de Alorna, Cruz e Silva, e Curvo Semedo. Filinto Elisio traduziu para verso português (sem rima) as Fábulas de La Fontaine, e no primeiro quartel do século XIX, Almeida Garrett também a praticou. Mais tarde, Henrique O’Neill reuniu um vasto acervo de apólogos, próprios e alheios, de qualidade poética desigual, num livro, Fabulário, que é hoje raridade de alfarrabista. Pela mesma altura João de Deus criou verdadeiras jóias, e em meados do século XX, Cabral do Nascimento editou um fabulário original, entre o melhor da sua obra.

Mas não será de nenhum destes autores a escolha de hoje. Será antes de Francisco Joaquim Bingre a fábula que lereis: marotice inocente vestida pela zoologia, em início de temporada de Carnaval.

Bingre, companheiro de Bocage na Academia das Belas Letras ou Nova Arcádia, foi autor de uma obra vastíssima até há pouco desconhecida, e da qual, há semanas, trouxe amostras ao blog.

 

O Caracol e a Lesma

Fábula

 

Um caracol retorcido

Com a lesma era casado:

Que negra vida com ela

Não padecia o coitado!

 

Ele dormia na casca,

Ela pegada à parede;

Um aranhão lhe chupava

A reima, se tinha sede.

 

Nestes encontros noturnos

Gozavam prazeres mornos:

Ao enroscado marido

Nasceram dois lindos cornos.

 

Ele escondia-os no búzio,

Envergonhado do sol.

Quantos não conheço eu,

Com frontes de caracol?!

 

in Obras de Francisco Joaquim Bingre,volume V, poema 711, edição de Vanda Anastácio, Lello Editores, 2003.

A mim Deus encanta-me — um poema de Jaime Sabines

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BELBELLO DA PAVIA, Luchino - Visconti hours 1430 AHá muitas formas de falar de Deus em poesia: da oração à apóstrofe, passando pela ironia, incompreensão ou indiferença. Com Jaime Sabines (1926-1999), México, no poema Me encanta Dios, que hoje transcrevo, é uma bonomia salpicada por ironia suave o que encontramos na descrição do bom Deus dos cristãos, e de onde lhe advém todo o encanto. Deixo-vos com o original e uma tradução minha.

 

Deus encanta-me

 

Deus encanta-me. É um velho magnífico que não se toma a sério. Gosta de jogar e joga, e às vezes perde a cabeça e parte-nos uma perna ou derrota-nos definitivamente. Mas isto acontece porque é um pouco cegueta e bastante aselha de mãos.

 

Enviou-nos alguns tipos excepcionais como Buda, ou Cristo, ou Maomé, ou a minha tia Cofi, para que nos digam que nos portemos bem. Mas isto a ele não o preocupa muito: conhece-nos. Sabe que o peixe grande come o pequeno, que a lagartixa grande come a pequena, que o homem come o homem. E por isso inventou a morte: para que a vida —nem tu nem eu— a vida, seja para sempre.

 

Agora os cientistas veêm com a sua teoria do Big Bang… Mas que importa se o universo se expande interminavelmente ou se contrai? Isto é assunto só para agências de viagens.

 

A mim Deus encanta-me. Pôs ordem nas galáxias e distribui bem o trânsito no caminho das formigas. E é tão brincalhão e travesso que no outro dia descobri que fez —perante um ataque dos antibióticos— bactérias mutantes!

 

Velho sábio ou menino explorador, quando deixa de brincar com os seus soldados de chumbo e de carne e osso, faz campos de flores ou pinta o céu de maneira incrível.

 

Move uma mão e faz o mar, e move a outra e faz o bosque. E quando passa por cima de nós, ficam as nuvens, pedaços do seu respirar.

 

Dizem que às vezes se enfurece e faz terramotos, e manda tempestades, caudais de fogo, ventos desatados, águas aleivosas, castigos e desastres. Mas isto é mentira. É a terra que muda —e se agita e cresce— quando Deus se afasta.

 

Deus está sempre de bom humor. Por isso é o preferido dos meus pais, o escolhido dos meus filhos, o mais próximo dos meus irmãos, a mulher mais amada, o cãozinho e a pulga, a pedra mais antiga, a pétala mais terna, o aroma mais doce, a noite insondável, o borboteo de luz, o manancial que sou.

 

Gosto, a mim Deus encanta-me. Que Deus bendiga Deus.

 

 

Me encanta Dios

 

Me encanta Dios. Es un viejo magnífico que no se toma en serio. A él le gusta jugar y juega, y a veces se le pasa la mano y nos rompe una pierna o nos aplasta definitivamente. Pero esto sucede porque es un poco cegatón y bastante torpe de las manos.

 

Nos ha enviado a algunos tipos excepcionales como Buda, o Cristo, o Mahoma, o mi tía Chofi, para que nos digan que nos portemos bien. Pero esto a él no le preocupa mucho: nos conoce. Sabe que el pez grande se traga al chico, que la lagartija grande se traga a la pequeña, que el hombre se traga al hombre. Y por eso inventó la muerte: para que la vida —no tú ni yo—, la vida, sea para siempre.

 

Ahora los científicos salen con su teoría del Big Bang… Pero ¿qué importa si el universo se expande interminablemente o se contrae? Esto es asunto sólo para agencias de viajes.

 

A mí me encanta Dios. Ha puesto orden en las galaxias y distribuye bien el tránsito en el camino de las hormigas. Y es tan juguetón y travieso que el otro día descubrí que ha hecho —frente al ataque de los antibióticos— ¡bacterias mutantes!

 

Viejo sabio o niño explorador, cuando deja de jugar con sus soldaditos de plomo y de carne y hueso, hace campos de flores o pinta el cielo de manera increíble.

 

Mueve una mano y hace el mar, y mueve la otra y hace el bosque. Y cuando pasa por encima de nosotros, quedan las nubes, pedazos de su aliento.

 

Dicen que a veces se enfurece y hace terremotos, y manda tormentas, caudales de fuego, vientos desatados, aguas alevosas, castigos y desastres. Pero esto es mentira. Es la tierra que cambia —se agita y crece— cuando Dios se aleja.

 

Dios siempre está de buen humor. Por eso es el preferido de mis padres, el escogido de mis hijos, el más cercano de mis hermanos, la mujer más amada, el perrito y la pulga, la piedra más antigua, el pétalo más tierno, el aroma más dulce, la noche insondable, el borboteo de luz, el manantial que soy.

 

A mí me gusta, a mí me encanta Dios. Que Dios bendiga a Dios.

 

O poema encerra o livro Recuento de Poemas (1950-1993), Visor Libros, Madrid 2014, reunião da sua obra poética, de onde o transcrevi.

Podem os leitores encontra no YouTube vários vídeos em que o poeta lê este seu famoso poema.

Sobraremos em versos nos dias futuros — poemas de Vítor Matos e Sá

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Jackiewicz W - Obras XII 1995Nada mudou

podes vir

de novo e com

o mesmo nome.

 

Em qualquer lugar

a distância para a morte

é a mesma.

 

Desigual é apenas

a vida que perdemos…

 

Com este poema encerram os compiladores o livro póstumo de Vítor Matos e Sá (1926-1975), Companhia Violenta, Coimbra, (1980). Livro de variada escolha, nele abundam os poemas de amor:

 

Misturo os teus gestos com os dias

para não os perder inteiramente

 

A poesia de Vítor Matos e Sá entranha-se-me mais e mais a cada leitura. Transcrevo hoje, e ainda deste mesmo livro, mais alguns sábios e tocantes poemas que de amor falam:

— afago

para a faminta solidão

dos ombros —

 

*

O amor ensina-me

a dizer-te gesto a gesto

até que cantar-te

pareça feito apenas

de beijos — e crê

cantar-te assim

não vem da perícia

mas dos anos.

 

**

Trouxeste-me até

à cama intacta

do teu corpo e à verde

transparência dos teus olhos

antecipadores. E deste-me

a certeza dos seios

quase imóveis sob

o incessante coração

intenso e vulnerável.

 

***

Um e outro deitados

na imóvel areia desta

noite acompanhamos

a vasta rotação

da terra.

 

****

É o gosto que os frutos deixaram

em teus lábios

a demorada recapitulação das tardes

em tua fronte

e a mão esquecida pelo sol

nos cabelos — afago

para a faminta solidão

dos ombros

e o secreto acordo entre o mar

e o corpo — enquanto

o outro lado dos teus olhos repousa

em grandes cidades-primaveras.

 

*****

Todos nós temos

os nossos terrores

nossas faces perdidas

algures nas cidades

do Verão da Primavera.

 

Não é fácil. Eu sei.

É uma dor em que estarás

mais só com a tua

morte, de mais ninguém senão

da importância de seres

única e frágil dentro

dos meus braços.

 

Para terminar, um poema que aproxima a dimensão filosófica de muita da poesia de Vítor Matos e Sá:

 

 

A cara

de morte-por-fora

que o dormir nos dá

 

sem outro dentro

a não ser a falta

de andar a tempo

pelo andar do mundo

 

ou a chamar-lhe nosso

só com transportá-lo

 

ou neste dar morada

ao que de nós se gasta

a desgastar o fundo

que só dele importa

e que por nós se afasta.

 

e finalmente, do ciclo Poemas para a Construção do Mundo, incluido no primeiro livro do poeta, Horizonte dos Dias (1952), o poema

 

 

VII – Epitáfio

 

Sobraremos em versos nos dias futuros;

hão-de abrir-nos, numa inesperada hora macia,

e uma voz que dirá outros nomes, dias, esperanças,

nos erguerá como um vento desfolha

um antigo silêncio de cortinas…

Francisco Joaquim Bingre – apresentação e poesia

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Lyonel Feininger 01 600pxÉ vasta, variada, e de qualidade média elevada, a obra poética de Francisco Joaquim Bingre (1763-1856). A obra permaneceu inédita na quase totalidade até à edição levada a cabo por Vanda Anastácio entre 2000 e 2005. São 6 grossos volumes e um total de 2089 poemas. Perco-me neles desde que existem, e o prazer de ler é imenso.

Observador acutilante da realidade humana, social e política do Portugal entre as duas Marias rainhas, a I e a II: são quase setenta anos passados à lupa com uma inspiração poética que atravessou escolas e manteve uma originalidade que ainda hoje surpreende e encanta.

As histórias literárias, quando reescritas, dar-lhe-ão o lugar de destaque que merece. Até lá os leitores abertos à descoberta encontram neste corpus poético infindáveis horas de prazer.

Sinceramente não sei por onde começar a dar-vos conta desta poesia que frequentemente me prende: se transcrever o verso mordaz, a meditação existencial, a observação de costumes, as peripécias da juventude ou as vissicitudes de uma vida duríssima, que nos últimos vinte anos do poeta, entre os setenta e os noventa rondou frequentemente a miséria.

Profissionalmente fora escrivão e tabelião em Mira (Aveiro) desde 1801, e em 1834, com a reforma judiciária, foi despedido. Contava à data 70 anos. Viveu os restantes 23 anos quase sempre na maior miséria segundo os relatos contemporâneos que nos chegaram. Por exemplo, conforme cita Inocêncio no seu Dicionário Bibliográfico Português de uma carta do poeta a Costa e Silva:

Aqui estou viúvo há vinte e cinco anos; aqui tenho enterrado muitos filhos e netos; aqui findarei os tristes dias de oitenta e cinco invernos, vítima da fome e da penúria, com uma filha viúva e cinco netos, sem abrigo, senão o das carcomidas asas deste desditoso velho!

Também o refere na sua poesia, qual seja um pungente soneto onde à sua madrasta sorte junta as de Camões e Bocage, entre outros:

 

 

Velhice e Pobreza (Poetas Pobres)

 

Soneto 142

 

Morreu pobre o Camões, pobre o Garção;

Quita e Matos viveram na pobreza;

Bocage teve lances de escasseza,

Muitos dias sofreu falta de pão.

 

Santos e Silva tinha uma ração

Do Hospital na botica, por fineza.

Parece que capricha a Natureza

Em fechar à poesia a destra não!

 

Aqueles foram vates de alto espanto,

Que deixaram no mundo eterno nome,

Muitas vezes comendo o próprio pranto;

 

Tal o Bingre mirrado se consome:

Se os não pode imitar no doce canto,

Ele os imita vítima da fome.

[2072]

 

O poeta viveu 93 anos. Gozou de fama junto dos escritores românticos, apesar da escassa obra publicada, e aos 89 anos, em 14-12-1852, um grupo de jovens, tendo dado conta da situação de miséria em que o poeta se encontrava, promoveu no Porto um sarau de beneficência com o apoio financeiro de António Bernardo Ferreira (o filho da Ferreirinha, a D. Antónia do vinho do Porto) à cabeça, cujo conteúdo poético foi posteriormente reunido na brochura O Benefício do Poeta Bingre, o qual subsistiu até ao século XXI como a notícia de que Bingre tinha existido e fora alvo da admiração de contemporâneos. Antes, em 1850, e também com fim beneficente, fora editado o folheto O Moribundo Cisne do Vouga com alguns poemas de Bingre.

Fundador, e membro, com Bocage e outros, da Academia das Belas Letras em Lisboa, também conhecida como Nova Arcádia, nela teve o nome de Francélio Vouguense e entre os contemporâneos foi também conhecido como Cisne do Vouga.

Sedutor inveterado, se a poesia fala verdade, avançado na idade, a certa altura escreveu:

Um homem que adorou tanto as mulheres,

Quando tem, como eu, longeva idade,

Nas caveiras medita o fim dos seres.

[1358]

 

 

E é sobre como o poeta viu o amor ao longo da vida que me decido às transcrições escolhendo tão só alguns sonetos em que o D.Juan se despede e medita sobre a irremediável passagem do tempo.

 

*

Foi o tempo da minha mocidade

Assaz bem liberal para comigo:

Foi-me sempre risonho e meu amigo,

Enquanto me durou viril idade.

 

Mas hoje, na fatal caducidade

A afeição me perdeu, e o amor antigo:

É-me escasso, é cruel, é inimigo

Bastantemente meu, não tem piedade.

 

Quando eu, na minha fúnebre velhice,

Mais dele precisava para escora

Da cansada existência e da tontice,

 

Me desampara o falso Tempo agora!

Ai, quanto me enganou na meninice!

Quem se pode livrar de mão traidora!

[1402]

 

Ao Desengano

 

Já dos males de amor estou curado;

Não me lembram traições de vãs beldades,

Ingratidões, agravos, falsidades:

Já vivo de tudo isso deslembrado.

 

Não me lembra se amei ou fui amado,

Nem se tive prazer co’as falsidades;

Não conservo desejos, nem saudades;

Vivo todo esquecido do passado.

 

Graças mil dou ao Santo Desengano,

Que nas águas do Letes sonolento

Me fez largar memórias desse engano.

 

Tenho limpo de Amor o pensamento.

Esqueci-me, curei todo o meu dano,

Quando no rio entrei do esquecimento.

[1780]

 

*

Homem cego em paixões, surdo à verdade,

Que te esqueces do barro de que és feito,

De que o pó amassado, em pó desfeito

Reverter para a terra outra vez há-de!

 

Se sabes que a emprestada quantidade

Deves pagar, por natural direito,

Como vives no mundo satisfeito

Na escravidão da estúpida Vaidade?

 

No réu ocaso pensa; olha que um dia

As pompas, os brasões, forças, talento,

Se hão-de sumir co’a louca fantasia.

 

Pensa, pensa no ultimo momento;

Considera que a tua cinza fria

Dispersa levará, pelo ar, o vento.

[1793]

 

Duas meditações de arrependimento: pois o homem, crente, goza, mas depois pesa-lhe:

 

*

Cheio de insipidez, triste e sem gosto,

Vivo maquinalmente em ansiedade,

Arrastando o grilhão da longa idade,

Abafando no peito o meu desgosto.

 

Esvoaçando poisam no meu rosto

Os remorsos da minha mocidade:

Assusta-me a tremenda eternidade,

E o tremendo juiz no trono posto.

 

Os delitos da minha extensa vida

Tem na sua rectíssima balança

A concha esquerda para o chão pendida.

 

Desgraçado de mim, se ele não lança

Na direita algum sangue da ferida

De seu lado, onde amor mais peso alcança.

[1398]

 

**

Vivido tenho assaz: que resta agora

De tão longa existência e tanta dura?

Pedir à madre Terra a sepultura,

Para o pó receber de que é credora.

 

Vai findar a carreira encantadora;

E os prazeres da mágica doçura

Trocados vejo, em fúnebre amargura,

De uma falsária dita enganadora.

 

Que resta mais na triste despedida?

Pedir perdão desse estragado uso,

Que fiz no mundo, de uma extensa vida.

 

A vossos pés, meu Deus, venho confuso

Piedade implorar nesta partida:

Contrito a vós, Senhor, com dor me acuso.

[1400]

 

Termino com uma serena reflexão sobre a finitude da existência, de par com a constatação, numa originalíssima formulação  poética, do extraordinário da máquina humana:

 

Vai parar esta máquina excelente,

Este raro relógio delicado,

Este moto contínuo humanizado,

Esta assombrosa construção vivente:

 

A corda vai quebrar, do gasto dente

Da roda que a prendia, tem saltado:

Todo o composto jaz desconcertado,

A pêndula de um fio está pendente.

 

Trabalhou sobre um eixo de diamante

Julgais oitenta e três em marcha certa

Com muito pouca variação rodante:

 

Hoje de todo o Tempo o desconcerta,

Pouco trabalha já, durou bastante,

Mas já seu mesmo Autor o não concerta.

[2061]

 

 

Os números entre [ ] que seguem os poemas transcritos indentificam os poemas na edição de Vanda Anastácio, Obras de Francisco Joaquim Bingre, colecção Obras Clássicas da Literatura Portuguesa, Lello Editores, 6 volumes, 2000-2005.

Camões — Pode um desejo imenso

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Matisse - Rosto de mulher 1935 invertAfastamento e dor de ausência, amor, distância, beleza lembrada, mais que idealizada: Tais asas dá o desejo ao pensamento!

De tudo a que o amor aspira, contado no superlativo da singularidade da amada, se faz a mais bela das odes de Camões, [Pode um desejo imenso].

 

Ode VI da edição de 1598 das Rimas

 

Pode um desejo imenso

arder no peito tanto

que à branda e à viva alma o fogo intenso

lhe gaste as nódoas do terreno manto,

e purifique em tanta alteza o esprito

com olhos imortais

que faz que leia mais do que vê escrito.

 

Que a flama que se acende

alto tanto alumia

que, se o nobre desejo ao bem se estende

que nunca viu, a sente claro dia;

e lá vê do que busca o natural,

a graça, a viva cor,

noutra espécie milhor que a corporal.

 

Pois vós, ó claro exemplo

de viva fermosura,

que de tão longe cá noto e contemplo

n’alma, que este desejo sobe e apura;

não creais que não vejo aquela imagem

que as gentes nunca vêem,

se de humanos não têm muita ventagem.

 

Que, se os olhos ausentes

não vêem a compassada

proporção, que das cores excelentes

de pureza e vergonha é variada;

da qual a Poesia, que cantou

até ‘qui só pinturas,

com mortais fermosuras igualou;

 

se não vêem os cabelos

que o vulgo chama de ouro,

e se não vêem os claros olhos belos,

de quem cantam que são do Sol tesouro,

e se não vêem do rosto as excelências,

a quem dirão que deve

rosa, cristal e neve as aparências;

 

vêem logo a graça pura,

a luz alta e severa,

que é raio da divina fermosura

que n’alma imprime e fora reverbera,

assi como cristal do Sol ferido,

que por fora derrama

a recebida flama, esclarecido.

 

E vêem a gravidade

com a viva alegria,

que misturada tem, de qualidade

que ūa da outra nunca se desvia;

nem deixa ūa de ser arreceada,

por leda e por suave,

nem outra, por ser grave, muito amada.

 

E vêem do honesto siso

os altos resplandores,

temperados co doce e ledo riso,

a cujo abrir abrem no campo as flores;

as palavras discretas e suaves,

das quais o movimento

fará deter o vento e as altas aves;

 

dos olhos o virar,

que torna tudo raso,

do qual não sabe o engenho divisar

se foi por artifício, ou feito acaso;

da presença os meneios e a postura,

o andar e o mover-se,

donde pode aprender-se fermosura.

 

Aquele não sei quê,

que aspira não sei como,

que, invisível saindo, a vista o vê,

mas para o compreender não acha tomo;

o qual toda a Toscana poesia,

que mais Febo restaura,

em Beatriz nem em Laura nunca via;

 

em vos a nossa idade,

Senhora, o pode ver,

se engenho e ciência e habilidade

igual à fermosura vossa der,

como eu vi no meu longo apartamento,

qual em ausência a vejo.

Tais asas dá o desejo ao pensamento!

 

Pois se o desejo afina

ūa alma acesa tanto

que por vós use as partes da divina,

por vós levantarei não visto canto,

que o Bétis me ouça, e o Tibre me levante;

que o nosso claro Tejo

envolto um pouco vejo e dissonante.

 

O campo não o esmaltam

flores, mas só abrolhos

o fazem feio; e cuido que lhe faltam

ouvidos para mim, para vós olhos.

Mas faça o que quiser o vil costume;

que o sol, que em vós está,

na escuridão dará mais claro lume.

 

Transcrito de Lírica Completa III, edição de Maria de Lurdes Saraiva, INCM, Lisboa, 1981.

Nota ortográfica

Substituí na transcrição vêm por vêem.

A 3ªpessoa do plural do presente indicativo do verbo Ver vem escrito vêm na edição referida acima, por razões que desconheço.

Camões — Transforma-se o amador na cousa amada

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Arpad Sczenes -Conversação IV 1949Quem tem de amores o tempo e da razão o tormento, esquece quanto o pensamento se engana em questões de coração. Vem isto a propósito de um famoso soneto de Camões onde o poeta reflecte sobre o amor idealizado e de como só pensar não satisfaz um coração amante.

Nestas coisas do amor parece-me que o muito analisar, conversar, reflectir e esmiuçar, complica mais do que esclarece. Saber deixar o tempo pulir a aspereza que a vida em nós eriça, acaba por ser a mais sábia forma de equilibrar o amor imaginado com a realidade que ele oferece. Mas voltando a Camões, como nos fala então o poeta?

Começa por afirmar: Transforma-se o amador na cousa amada, / Por virtude do muito imaginar, e a certa altura interroga-se: Que mais deseja o corpo de alcançar? Certamente não será rebolar-se apenas com ideias, diria eu, o que afinal o poeta confirma ao concluir o poema afirmando: [E] o vivo e puro amor de que sou feito, / Como a matéria simples busca a forma.

Calo-me e deixo o poeta falar.

Transforma-se o amador na cousa amada,

Por virtude do muito imaginar;

Não tenho, logo, mais que desejar,

Pois em mim tenho a parte desejada.

 

Se nela está minha alma transformada,

Que mais deseja o corpo de alcançar?

Em si somente pode descansar,

Pois consigo tal alma está liada.

 

Mas esta linda e pura semideia,

Que, como o acidente em seu sujeito,

Assim co’a alma minha se conforma,

 

Está no pensamento como ideia;

[E] o vivo e puro amor de que sou feito,

Como a matéria simples busca a forma.

 

Luís de Camões, edição Lobo Soropita, 1595.

 

Num outro soneto igualmente famoso — Pede o desejo, Dama, que vos veja — dá-nos Camões  exactamente a contraparte do imaginado, na manifestação do desejo de ver a quem se ama.

 

Pede o desejo, Dama, que vos veja:

Não entende o que pede; está enganado.

É este amor tão fino e tão delgado,

Que quem o tem não sabe o que deseja.

 

Não há cousa a qual natural seja,

Que não queira perpétuo seu estado.

Não quer logo o desejo o desejado,

Porque não falte nunca onde sobeja.

 

Mas este puro afeito em mim se dana:

Que, como a grave pedra tem por arte

O centro desejar da natureza,

 

Assim meu pensamento (pela parte

Que vai tomar de mim, terrestre [e] humana)

Foi, Senhora, pedir esta baixeza.

 

Luís de Camões, edição Lobo Soropita, 1595.

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Arpad Sczenes (1897-1985), Conversação IV, de 1949.

 

Pessoa e o mistério dos inéditos

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Fernando Pessoa 1964

Embora possa parecer redundante apresentar Fernando Pessoa, o universo alargado da web pode trazer ao blog leitores não familiarizados com a sua biografia, daí a pequena resenha em jeito de introdução.

Pessoa às vezes era uma pessoa muito deprimida e por vezes pensava:

Não sou nada/nunca serei nada

mas depois mudava, e mais alegre dizia:

Áparte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Isto acontecia quando julgava ser Álvaro de Campos, um engenheiro nascido em Tavira como eu, que escreveu coisas amargas. Outras vezes mais bem disposto o Sr. Pessoa vestia a pele de Alberto Caeiro e imaginava as coisas mais mirabolantes como Tive um sonho como uma fotografia / …, certamente conhecem o resto.

Andava sempre muito distraído com as poesias que tinha na cabeça. Ia a andar, parava, tirava um papelinho do bolso e escrevia o que lhe surgia na cabeça. Gostava de ser muitas pessoas já desde rapaz.

Um dia foi a casa do amigo Almada, pintor e poeta também. Depois de comer pouco porque era magrinho, e beber um bocado, desapareceu e nunca mais se viu.

Foi no outro dia, quando visitava o Museu, que olhando com atenção para a pintura de Almada representando Fernando Pessoa à secretária, o extraordinário aconteceu,

Ouço: Pst, pst, e nem percebo de onde vem. Olho em redor perplexo, pois a sala estava vazia a menos do segurança ao fundo, e então, virando-me para o quadro de novo, a figura de Fernando Pessoa piscou-me o olho, e quando o segurança pareceu ausentar-se, fez-me sinal para me aproximar, e diz-me ele à queima-roupa:

–        Já o tenho visto várias vezes a olhar-me atentamente e tenho tido vontade de lhe falar, mas os seguranças andam sempre por aí de nariz no ar e não me atrevi, mas hoje vi que o dali da porta foi à casa de banho e aproveitei para conversar um pouco.

Entabulámos conversa, e a primeira coisa que lhe perguntei foi porque tinha desaparecido sem dizer nada a ninguém.

–        Naquela festa em casa do Almada tinha bebido um bocado a mais e tive uma ideia fascinante que não queria perder. O meu bloco de bolso estava cheio e toda a gente estava mais ou menos alegre ou a dançar. Para não incomodar  ninguém fui à procura de papel. Abri uma porta e era o estúdio do Almada. Tinha uma tela grande no cavalete onde já estava pintada uma mesa. Devia ser uma natureza morta pois a mesa estava ali em posição com cadeira papel e tinta a servir de modelo. Sentei-me e comecei a escrever, mas devo ter adormecido pois quando acordei estava dentro desta tela onde tenho passado a vida. Não desgosto. As cores são alegres e há sempre muita gente aqui à volta a vê-la.

Continuámos a conversar e a certa altura disse-lhe quanto apreciava a poesia dele e de passagem referi:

– Sabe que andei a ler a sua correspondência?

O senhor é um bisbilhoteiro, disse com um risinho.

– E encontrei uma carta enviada de Portalegre quando o senhor estava bem bebido, é o Sr. que o diz.

Venerável porção de existência terrena, escreve o senhor ao destinatário, para mais à frente referir: Portalegre é um lugar onde tudo quanto um forasteiro pode fazer é cansar-se de não fazer nada. As suas qualidades componentes parecem-me conter (depois de uma profunda e cuidada análise), em quantidades relativas e incertas, calor, frio, semi-espanholismo e nada. …” e acrescenta-lhe um poema para terminar. Bem injusto diga-se de passagem, no que ao Alentejo respeita:

O Alentejo (visto do comboio)

Nada, tendo nada em seu redor

E, de permeio, algumas árvores somente

Nenhuma delas verde claramente

onde nada aparece, rio ou flor.

Se acaso há um inferno, ele aqui está.

Pois, se não aqui, onde o Diabo estará?

O que me fartei de rir ao lê-lo. Gostei sobretudo da “Venerável porção de existência terrena

Devo tê-la escrito há muito tempo pois nem me lembro de ter ido ao Alentejo.

A conversa continuou e perguntei-lhe se nunca saía dali.

Durante o dia, enquanto o museu está aberto, não saio senão as pessoas vinham ver-me e encontravam o quadro com um vazio no meu lugar. Depois de fechar, sobretudo no verão, gosto de ir até ao Chiado e fico dentro da estátua que me fizeram junto à Brasileira vendo quem passa. Sobretudo gosto quando as turistas fazem fotografias agarradas a mim. Estou sempre calado, nunca digo nada. Uma vez uma rapariga sentou-se-me no colo e segredou-me ao ouvido:

–        Gosto tanto de ti! Se fosses de carne e osso casava-me contigo. Quase me derreti com aquela declaração de amor. Era tal qual a a voz da Ofelinha naquela idade, e como eu gostava de ter casado com ela, sabe?

Também li as suas cartas de amor, disse-lhe. As que lhe escreveu e as que recebeu. E não concordo nada consigo nessa de que Todas as cartas de amor são ridículas. / Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas.

– Não pode ser. Quem teve o atrevimento de as publicar? Isso não se faz. São coisas intimas, não são coisas para toda a gente saber. Mas já que são públicas, o que é que achou? Ela gostava de mim? Ainda não sei de deveria ter casado com ela. A certa altura pensei que podia casar com a filha da minha lavadeira, talvez fosse feliz

Mas voltando aos passeios. No inverno não vou para o Chiado porque está frio e chove, o que não é nada bom para o reumático que já me vai aparecendo, não sei se da idade, se de estar tanto tempo aqui sentado a esta secretária. Vou então às vezes à estação do metro de Alto de Moinhos ver as pessoas. Mas à hora a que fico livre aqui do museu já há pouca gente a não ser nas noites de futebol e aí sim, é uma alegria. Por acaso não sabe quando é que são os jogos? Como eu aqui não leio jornais nem vejo televisão não sei as datas e só por acaso é que acerto nos dias dos jogos. Mas é um espectáculo que vale a pena. Ainda ontem aconteceu e foi uma festa. Comi e bebi com quem lá estava, o que não me acontecia há anos. E devo ter comido qualquer coisa que me fez mal. Parece-me até que estou a precisar de ir à casa de banho urgentemente. Importa-se de me substituir aqui um bocadinho no quadro?

Devo ter olhado para ele espantado e aterrorizado, pois gargalhou e disse-me:

Não se assuste, estava só a brincar consigo. Continuando, na estação do metro aquele rapaz, o Julio Pomar, já não me conheceu, mas fez uns desenhos por fotografia, talvez, e saiu-se bem. Gosto de lá estar.

– Já que estamos nesta conversa tão franca posso fazer-lhe uma pergunta pessoal?

Claro que pode, se não me apetecer não respondo.

– Qual é o mistério da arca dos seus escritos em que os inéditos nunca mais acabam?

Riu-se com uma risadinha casquinada e respondeu:

O que pensa que faço sentado a esta secretária? Que escrevo cartas comerciais em inglês? Isso já acabou. Agora quem as escreve é o Bernardo Soares, não sei se conhece.

– Conheço sim, é o do livro que o fez a si famoso no mundo, não é?

Esse mesmo. Pois as cartas escreve-as ele, eu aqui escrevo, prosa, poesia, o que me passa pela cabeça. Quando tenho oportunidade pego no que escrevi que me agrada e vou até à arca. Ponho os papeis no fundo, remexo-os e no dia seguinte o pessoal que está a decifrar os papeis leva as mãos à cabeça por não saber o que fazer. Aparecem papeis sobre a mesma coisa ligeiramente diferentes pois eu ás vezes esqueço-me do que escrevi e volto a escrever a mesma coisa de forma parecida e eles não decidem qual escolher, o que é natural. O que eu me rio só de pensar na cara deles. Bem gostava de estar lá para ver. Sobretudo quando encontrarem o papel que lá deixei ontem, inspiração de fim de festa.

Olhe, o segurança já vem de volta, vou ter que me calar para não o confundir. Se me ouve a falar ainda toca o alarme assustado, pensando que enlouqueceu, coitado. Volte mais vezes para conversar um pouco.

E voltou à posição em que estava no quadro.

O segurança aproximou-se de mim e com bons modos perguntou:

– O senhor está a sentir-se bem?

– Estou óptimo, porquê?

– Ao longe vi-o fazer gestos e pareceu-me que estava até a falar com o quadro, pelo que pensei que talvez alguma coisa não estivesse bem.

– Está tudo bem, obrigado. Virei costas e continuei a visita.

Depois destes extraordinários acontecimentos fui surpreendido com a noticia de jornal sobre mais um inédito, e não resisti a uma enorme gargalhada. Rezava assim:

Entre os papeis do poeta foi descoberto um inédito.

Numa folha branca aparece, a um terço da altura, o poema descoberto.

Modelo de simplicidade, consiste tão só numa vírgula cortada pela metade. Alvoroçou especialistas com o seu significado.

Foi convocado um congresso. Podem até dia vinte entregar-se comunicações.

Nota iconográfica

A pintura de José de Almada Negreiros (1893-1970),  Retrato de Fernando Pessoa, 1964, pretexto desta conversa pertence à colecção do Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian.

Em Tavira por Dezembro, também com Fernando Pessoa

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Tavira 015 7O poema de Fernando Pessoa — NOTAS SOBRE TAVIRA — que hoje transcrevo, é uma meditação de meio da vida, no confronto de uma paisagem urbana de infância com os sonhos aí sonhados, perante a realidade reencontrada:

Paro deante da paisagem, e o que vejo sou eu.

Outrora aqui antevi-me esplendoroso aos 40 anos —

Senhor do mundo —

É aos 41 que desembarco do comboio indolentao.

O que conquistei? Nada.

Nada, aliás, tenho a valer conquistado.

Trago o meu tédio e a minha fallencia physicamente no pesar-me mais a mala…

Tavira 015 3

Lemos nele uma reflexão sobre a passagem do tempo desligada da realidade física da cidade hoje, ainda que o velho, que se fez novo, permaneça:

Tudo é velho onde fui novo.

Sim, porque até o mais novo que eu é ser velho o resto.

A casa que pintaram de novo é mais velha porque a pintaram de novo.

Tavira 015 0Nestes dias de deslumbrante luz, passeei demoradamente em Tavira. Se por um lado os lugares me acendem a memória, por outro, é o conforto de uma continuidade cultural a que chamaria raízes, que a cada volta de uma esquina se revela.

Tavira 015 1Em longos, saboreados e encantados passeios, surpreendi vistas novas de panoramas que comigo vivem desde a infância, e ao olhar outra vez o mesmo, é a dignidade na modéstia da paisagem urbana que intensamente me comove.

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Tavira 015 6O branco das paredes exposto ao brilho de um sol intenso, entontece a vista numa inesperada embriguês com o azul do céu em fundo, e de cada ruela espreita em volumes de sábia arquitectura, o jogo dos telhados plantados de rendilhadas chaminés.

Tavira Jan2015 7 500pxTavira e Fernando Pessoa, por via de Álvaro de Campos, são hoje uma associação mental e turística que a cidade cultiva, sendo que esta cruza pontualmente a sua obra.

Tavira 015 5

NOTAS SOBRE TAVIRA

 

[Ms.]                                                   8/12/1931

 

Cheguei finalmente á villa da minha infancia.

Desci do comboio, recordei-me, olhei, vi, comparei.

(Tudo isto levou o espaço de tempo de um olhar cansado).

Tudo é velho onde fui novo.

Dede já — outras lojas, e outras frontarias de pinturas nos mesmos predios —

Um automovel que nunca vi ( não os havia antes)

Estagna amarello escuro ante uma porta entreaberta.

Tudo é velho onde fui novo.

Sim, porque até o mais novo que eu é ser velho o resto.

A casa que pintaram de novo é mais velha porque a pintaram de novo.

Paro deante da paisagem, e o que vejo sou eu.

Outrora aqui antevi-me esplendoroso aos 40 anos —

Senhor do mundo —

É aos 41 que desembarco do comboio indolentao.

O que conquistei? Nada.

Nada, aliás, tenho a valer conquistado.

Trago o meu tédio e a minha fallencia physicamente no pesar-me mais a mala…

De repente avanço seguro, resolutamente.

Passou toda a minha hesitação

Esta villa da minha infancia é afinal uma cidade estrangeira.

(Estou á vontade, como sempre, perante o estranho, o que me não é nada)

Sou forasteiro, tourist, transeunte.

É claro: é isso que sou.

Até de mim, meu Deus, até de mim.

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Conservei a ortografia do original.

 Tavira Jan2015 91 500px

NOTAS SOBRE TAVIRA é um poema não assinado, nem incluído no envelope A. de Campos no espólio da Biblioteca Nacional, e foi pela primeira vez publicado por Teresa Rita Lopes em 1990, quase em simultâneo nos livros álvaro de campos Vida e Obras do Engenheiro e no precioso Pessoa por conhecer, Textos para um novo mapa, ambos edição de Editorial Estampa.

LIBERDADE — uma visão de Fernando Pessoa

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DSC_0238Abro 2015 no blog com um pequeno ensaio em forma de poema, LIBERDADE, onde Fernando Pessoa desenvolve um peculiar entendimento de liberdade individual.

Atendo-se ao elogio da inércia como exercício de liberdade, lemos uma desgarrada sequência de argumentos no inegável encanto de uma forma poética superior.

 

LIBERDADE

 

Aí que prazer

Não cumprir um dever,

Ter um livro para ler

E não o fazer!

Ler é maçada,

Estudar é nada.

O sol doura

Sem literatura.

O rio corre, bem ou mal,

Sem edição original.

E a brisa, essa,

De tão naturalmente matinal,

Como tem tempo não tem pressa.

 

Livros são papéis pintados com tinta.

Estudar é uma coisa em que está indistinta

A distinção entre nada e coisa nenhuma.

 

Quanto é melhor, quando há bruma,

Esperar por D. Sebastião,

Quer venha ou não!

 

Grande é a poesia, a bondade e as danças…

Mas o melhor do mundo são as crianças,

Flores, música, o luar, e o sol, que peca

Só quando, em vez de criar, seca.

 

O mais do que isto

É Jesus Cristo,

Que não sabia nada de finanças

Nem consta que tivesse biblioteca…

16-03-1935