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Uma boa cama é um auxiliar precioso para tornar memoráveis peripécias onde os jogos de prazer começam e o repouso final apetece. A cama venturosa, testemunha do gozo e da folia que o nosso autor de hoje descreve no soneto que a seguir o leitor encontra em tradução minha, poeta anónimo do siglo de oro (séc XVI/XVII) espanhol, terá talvez sido diferente da cama de Van Gogh representada a abrir. Enfim, se a ocasião surge, obstáculos destes podem sempre transpor-se com sucesso, qual seja uma cama menos confortável.

O soneto é um caso notável da adequação de uma linguagem sensível e intensa, a um assunto que noutros resvala frequentemente para o procaz.

Basta de conversa. Terminemos com a nossa já conhecida citação de Camões:

Melhor é experimentá-lo que julgá-lo*,

Mas julgue-o quem não pode experimentá-lo.

Lusíadas Canto IX, estrofe 83

 

Soneto

Oh doce noite! Oh cama venturosa!

Testemunhas do gozo e da folia,

Dizei como vós vistes a porfia

Daquela dama doce e amorosa.

 

Como ela se mostrava rigorosa!

Como de minhas mãos ela fugia!

Como tantas injúrias me dizia,

Minha doce inimiga cautelosa!

 

Porém, como depois me regalava,

Cerrando-me nos braços amorosos,

E abrindo aquelas pernas delicadas!

 

Como suave ela se meneava! 

Que beijos ela dava, e saborosos!

Oh as palavras! tão açucaradas!

 

Tradução de Carlos Mendonça Lopes

 

Soneto original

¡Oh dulce noche! ¡Oh cama venturosa!

Testigos del deleite y gloria mía,

decid qué os pareció de la porfía

de aquella dama dulce y amorosa.

 

¡Cómo se me mostraba rigurosa!

¡Cómo dentre mis manos se salía!

¡Cómo dos mil injurias me decía,

la dulce mi enemiga cautelosa!

 

Pero ¡Como después me regalaba,

cogiéndome en sus brazos amorosos

y abriendo aquellas piernas delicadas!

 

¡Con qué süavidad se meneaba!

¡Qué besos que me daba tan sabrosos!

¡Y qué palabras tan azucaradas!

 

* O verbo julgar tem aqui o significado de supor, pensar, imaginar. Cf. Dicionário de Morais.

O soneto existe transcrito em diferentes compilações com pequenas variações num ou outro verso.

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Vincent van Gogh (1853-1890), Quarto em Arles, da colecção do museu Van Gogh, Amsterdão.