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Provavelmente, mais que em qualquer época anterior, enfrentar a reflexão sobre o medo da morte, que não o medo de morrer, é acto de que se foge a sete pés. E, no entanto, ela, a morte, está sempre como possibilidade enquanto se vive. Morrer, é possível de muitas maneiras, e essa variedade retira acuidade à sua reflexão. Morrer é o caminho, a morte é o final. Ter medo da morte é viver em pânico constante, e este medo impedirá amar a vida mais. 

Fernando Pessoa enuncia a vantagem de pensar sobre a morte com a peculiaridade habitual: 

 

Quando, com razão ou sem,

Sobre o medo amplo da alma

A sombra da morte vem,

É que o espírito vê bem,

Com clareza mas sem calma,

Que sombra é a vida que passa,

Que mágoa é a vida que cessa,

E ama a vida mais.

10-2-1933

 

Após este prelúdio, passemos ao assunto de hoje: dois testemunhos poéticos setecentistas sobre como enfrentar a morte. No primeiro poema encontramos a desassombrada afirmação:

Eu te espero tranquilo, afoito, e mudo, 

És muito para os mais, comigo és nada. 

Vem, ó morte, não pares no caminho, 

 

No segundo poema, o medo da morte é declarado, e iremos assistir a uma negociação para a adiar:

Ontem — crē-lo-eis amigo?

Vem a morte ter comigo.

E eu chorando: “Ó cara Morte 

Já vos eu apeteci?

Tomai um copo daí 

Não deis inda o fatal corte.”

 

 

Lia eu uma colecção de sonetos antigos e deparei-me com alguns sonetos sobre a morte. Num dos poemas, um soneto assinado Maia, talvez de Manuel Rodrigues Maia (?-1804) encontrei, não a reflexão filosófica em filme de Ingmar Bergman no seu O Sétimo selo que acabara de rever: indagação alegórica sobre o sentido da vida e o silêncio de Deus, onde a morte se personifica na figura assustadora que nos persegue em vida, e ter-lhe medo ou não, condiciona-nos inevitavelmente a existência; mas uma sua descrição em palavras que dá a medida desse monstro terrível que ninguém quer conhecer, e que ao morrer figuradamente se materializa:

 

Ui! como é feia, torpe, e descarnada; 

Dente tão negro, queixo tão pontudo! 

Traz na direita o ferro pontiagudo, 

Curva foice fatal, forte e farpada! 

 

Não estamos, evidentemente, perante a reflexão platónica sobre a morte a pretexto da morte de Sócrates, abordado por Platão no diálogo Fedon, nem sequer sobre a estóica reflexão desenvolvida por Cícero num dos Diálogos em Túsculo. Antes encontramos no resto do poema uma veemente defesa epicurista da vida pelo prazer. No soneto, que à frente transcrevo na totalidade, o nosso poeta setecentista aceita a chegada da morte sem arrependimentos de última hora:

Vem, ó morte, não pares no caminho, 

Se outra vez cá vier, achar pertendo 

Mais dinheiro, mais moças, e mais vinho.

 

 

O interessante no poema prende-se com a época em que foi escrito, o século XVIII. Época de profunda crença religiosa, e temor do além-vida pelo castigo dos pecados cometidos, afoitamente salpicada de agnósticos e ateus. No poema encontramos uma manifestação absoluta de agnosticismo, sem proclamações doutrinárias sobre a vida além-morte, tão só a afirmação da supremacia dos prazeres da vida sobre o horror da morte. Eis o soneto na totalidade:

 

 

Soneto

 

Ui! como é feia, torpe, e descarnada; 

Dente tão negro, queixo tão pontudo! 

Traz na direita o ferro pontiagudo, 

Curva foice fatal, forte e farpada! 

 

— Ah! chega, chega à misera morada, 

Aproxima teu gesto carrancudo; 

Eu te espero tranquilo, afoito, e mudo, 

És muito para os mais, comigo és nada. 

 

Eis-me convulso já; a voz perdendo; 

Ao lado um padre tolo, meu vizinho, 

E eu querendo me rir porém morrendo! 

 

Vem, ó morte, não pares no caminho, 

Se outra vez cá vier, achar pertendo 

Mais dinheiro, mais moças, e mais vinho.

 

Manuel Rodrigues Maia (?)

 

 

É diferente o que pela mesma época o poeta e filósofo do iluminismo alemão Gotthold Ephraim Lessing (1729-1781) nos traz no poema tangencialmente faustiano Der Tod (A Morte). Deixando também de lado as questões de além-morte, é o desejo absoluto de continuar a viver, a motivação do protagonista e assunto do poema. Mostra ele uma conversa fantasiada com a morte, ao chegar a sua hora:

 

Ontem — crē-lo-eis amigo?

Dando-me ao rubro licor, 

(Imaginai meu terror!)

Vem a morte ter comigo.

 

Brandindo a foice dest’arte

Brada o fantasma cruel:

“Servo de Baco fiel!

Vem! Tens bebido que farte.” 

 

Para o impedir propõe o poeta à morte outras vidas em troca dos prazeres do vinho e do amor até à saciedade:

— “Ah! suspende por piedade;

Medicina estudarei 

E juro que te darei 

De meus doentes metade.”

 

— “Está dito: sem ti me parto,

Bebe e beija até fartar,

Vir-te-hei depois buscar,

Já de vinho e beijos farto.”

 

Este desenlace é motivo de júbilo pois o poeta acredita que … Já de vinho e beijos farto. nunca estará, conseguindo assim vida eterna:

Vida eterna já adivinho, 

Sim pelo Deus do licor!

Não serei farto de amor,

Nem jamais farto de vinho!

 

 

Na aparente ligeireza dos argumentos que dão sentido à vida, vamos encontrar a postura edonista dos nossos dias de que viver a vida vale a pena se for para ter prazer. E no caminho, para o conseguir, vale tudo.

 

 

Gotthold Ephraim Lessing

A Morte

 

Ontem — crē-lo-eis amigo?

Dando-me ao rubro licor, 

(Imaginai meu terror!)

Vem a morte ter comigo.

 

Brandindo a foice dest’arte

Brada o fantasma cruel:

“Servo de Baco fiel!

Vem! Tens bebido que farte.” 

 

E eu chorando: “Ó cara Morte 

Já vos eu apeteci?

Tomai um copo daí 

Não deis inda o fatal corte.”

 

C’um sorriso vinho bota,

Diz, erguendo o copo ao ar:

“Viva a Peste! e a virar.”

E dum trago vaso esgota.

 

Eu já quite me julgava,

Eis que torna ela a dizer:

“Pobre louco! e podes crer

 Que por vinho te largava?”

 

— “Ah! suspende por piedade;

Medicina estudarei 

E juro que te darei 

De meus doentes metade.”

 

— “Está dito: sem ti me parto,

Bebe e beija até fartar,

Vir-te-hei depois buscar,

Já de vinho e beijos farto.”

 

— “Que suave linguagem!

Que nova vida me dais!

Vá um copo, um copo mais 

À nossa camaradagem!” 

 

Vida eterna já adivinho, 

Sim pelo Deus do licor!

Não serei farto de amor,

Nem jamais farto de vinho!

 

Tradução de José Gomes Monteiro (séc.XIX)

 

 

E com estas reflexões brincadas sobre a morte termino, deixando o original do poema de G. E. Lessing recolhido na net, e que, espero, esteja correcto.

 

 

Gotthold Ephraim Lessing 

 

Der Tod

 

Gestern, Brüder, könnt ihrs glauben?

Gestern bei dem Saft der Trauben,

(Bildet euch mein Schrecken ein!)

Kam der Tod zu mir herein.

 

Drohend schwang er seine Hippe,

Drohend sprach das Furchtgerippe:

Fort, du teurer Bacchusknecht!

Fort, du hast genug gezecht!

 

Lieber Tod, sprach ich mit Tränen,

Solltest du nach mir dich sehnen?

Sieh, da stehet Wein für dich!

Lieber Tod verschone mich!

 

Lächelnd greift er nach dem Glase;

Lächelnd macht ers auf der Base,

Auf der Pest, Gesundheit leer;

Lächelnd setzt ers wieder her.

 

Fröhlich glaub′ ich mich befreiet,

Als er schnell sein Drohn erneuet.

Narre, für dein Gläschen Wein

Denkst du, spricht er, los zu sein?

 

Tod, bat ich, ich möcht′ auf Erden

Gern ein Mediziner werden.

Laß mich: ich verspreche dir

Meine Kranken halb dafür.

 

Gut, wenn das ist, magst du leben:

Ruft er. Nur sei mir ergeben.

Lebe, bis du satt geküßt,

Und des Trinkens müde bist.

 

O! wie schön klingt dies den Ohren!

Tod, du hast mich neu geboren.

Dieses Glas voll Rebensaft,

Tod, auf gute Brüderschaft!

 

Ewig muß ich also leben,

Ewig! denn, beim Gott der Reben!

Ewig soll mich Lieb′ und Wein,

Ewig Wein und Lieb′ erfreun!

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura do holandês Jan Provost (1465-1529), A morte e o avarento. Termino com a imagem da pintura do mesmo nome de H. Bosch (1450-1516), feita pela mesma época, e cuja imagem segue:

 

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