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É de um mundo desolado e sem vida que fala o poema sem título de Lev Loseff (1937-2009) de que à frente dou uma minha versão em português a partir da sua edição em inglês.

Lev Loseff, conhecido sobretudo pela publicação de um ensaio sobre vida e a obra do poeta e prémio Nobel Josef Brodsky (1940-1996), de quem foi amigo de uma vida, é autor de uma poesia complexa, dando conta da sua Rússia natal tanto em alusões literárias, como em quadros de paisagem e atmosfera social. Tudo isso encontramos no poema de hoje.

Do mundo soviético e pós-soviético, no que à poesia respeita, é escasso o conhecimento em Portugal. E, no entanto, a poesia abunda original e variada, tanto quanto consigo aperceber em edições inglesas ou francesas. Se entre as gerações criadas no mundo pós-1989 a aproximação poética aos valores, experiências, e modos de sentir e pensar no ocidente euro-americano, são uma constante, para as gerações anteriores, cuja poesia foi tantas vezes clandestina, é o mundo da sociedade sem horizontes, envolto no nevoeiro que a amortalha, como escreve o poeta a pretexto da sua cidade natal, o que recorrentemente se encontra. Neste poema sem título, lemos esse mundo fantasmal, de vida ausente, e esperança nula, onde … a neve permanece solidamente gelada.

Poema

 

Sem Título

 

A minha cidade natal não tem nome;

o nevoeiro que a amortalha permanece o mesmo —

o seu branco de leite desnatado por todo lado.

Os lábios hesitam em falar alto abertamente

daquele que três vezes negou o Senhor,

ainda que se conte entre o sagrado.

 

E como é chamado o meu país, dizeis.

Porquê a obsessão com estes nomes?

— A terra de onde venho, camarada,

é onde nenhuma estrada conduz a Roma,

e onde o céu é fumo e vapor

e a neve permanece solidamente gelada.

 

Versão de Carlos Mendonça Lopes a partir do poema em inglês publicado no livro As I Said, Arc Publications, 2012.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Anselm Kiefer (1945), Des Herbstes Runengespinst, 2006, inspirada pela poesia de Paul Celan, e aqui iluminando a desolada matéria do poema.

 

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