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Provavelmente o longo convívio com poesia antiga e de todas as latitudes me condicione no processo criativo, fazendo o que escrevo soar tantas vezes fora de tempo. Aí talvez a razão por que a chegada da Primavera, e dos melros às árvores frente a casa, me tenha inspirado este poema de sabor antigo:

 

O Melro
De que fala quando canta
o melro à minha janela?
Fala do amor ausente
ou recorda simplesmente
os tempos que não viveu
porque morreu?
 
Vestiu de luto para sempre
e as penas pretas que veste
não consentem alegria:
apenas deixam ouvir
a sua melancolia
num cantar de dor presente.

Carlos Mendonça Lopes

 

 

Este poema é uma descrição nos antípodas da leitura da presença do melro na paisagem feita pelo poeta-filósofo Wallace Stevens (1879-1955) no poema Treze maneiras de olhar um melro. Poema dividido em treze estâncias, com o sabor de haiku a percorrê-las, em curtos versos, e numa visão sintética e metafórica, seguimos variadas formas de sentir e pressentir o mistério e variedade da vida observando um melro na paisagem nevada.

Entre a primeira e a última estâncias do poema:

1
No meio de vinte montanhas nevadas
A única coisa que se mexia
Era o olho do melro.

13
Anoitecia em cada instante da tarde.
Nevava
E ia continuar a nevar.
E o melro empoleirado
Nos ramos dos cedros.

acompanhamos a reflexiva observação do poeta. Implica esta o questionar do que é saber. E sabendo, esse conhecimento é exterior a mim, ou ao conhecer, ele passa objectivamente a integrar-me? É um caminho que o poema abre, não a letra do que ele contém:

 

 

Treze maneiras de olhar um melro

1
No meio de vinte montanhas nevadas
A única coisa que se mexia
Era o olho do melro.

2
Eu via as coisas de três maneiras diferentes,
Como uma árvore
Onde há três melros.

3
O melro rodopiava ao sabor dos ventos de Outono.
Era uma pequena parte da pantomina.

4
Um homem e uma mulher
São um
Um homem e uma mulher e um melro
São um.

5
Não sei qual prefiro,
A beleza das modulações de som
Ou a beleza das insinuações,
O melro a assobiar
Ou logo após.

6
Gotículas geladas cobriam a grande janela
De vidros toscos.
A sombra do melro
Cruzava-a, dum lado para o outro.
O estado de espírito
Desenhava na sombra
Uma causa indecifrável.

7
Ó homens esguios de Haddam
Porque pensais em pássaros dourados?
Não vedes como o melro
Caminha à volta dos pés
Das mulheres perto de vós?

8
Sei de sotaques notáveis
E ritmos lúcidos e inevitáveis;
Mas também sei
Que o melro está presente
Em tudo o que eu sei.

9
Quando o melro voou para fora do alcance da vista
Assinalou a orla
De um de muitos círculos.

10
Perante a visão de melros
Voando envolvidos numa luz verde,
Até os proxenetas da eufonia
Haviam de gritar com vivacidade.

11
Ele foi até Connecticut
Num coche de vidro
Uma vez, foi tomado de pânico
Quando confundiu
A sombra da carruagem
Com melros.

12
O rio corre
O melro deve andar a voar.

13
Anoitecia em cada instante da tarde.
Nevava
E ia continuar a nevar.
E o melro empoleirado
Nos ramos dos cedros.

Tradução de António Simões
in Antologia da Poesia Anglo-Americana, de Chaucer a Dylan Thomas, seleção, prefácio e notas de António Simões, Campo das Letras Editores, Porto, 2002.

A foto de abertura não é do melro que canta à minha janela. Encontrei-a na net, colocada por um Camberra ornithologist group.

 

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