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A vida tem destas coisas…
No bailado clássico Coppélia(1870), um rapaz enfeitiça-se por uma boneca de tamanho natural e feições vividamente humanas, qual robot da ficção dos nossos dias. É a namorada preterida que, substituindo a boneca, finge ganhar vida, e assim consegue trazer o rapaz à realidade.

A história dançada, com argumento a partir de dois contos de E. T. A. Hoffmann (1776-1822), foi muito popular à época e continua no repertório das companhias de bailado, incluindo a CNB.

Encontro uma reminiscência desta história num poema, Ilusões, de um obscuro poeta oitocentista, Diogo Macedo (1844-1938). O poema tem, no entanto, mais: é simultaneamente uma crítica de um embeiçamento por uma “boneca de sala” com os atributos femininos cantados pelos poetas da época, e um relato do encantamento pelas aparências. O todo contado com desenvoltura métrica e rítmica. O poema escolheu-o Camilo Castelo Branco para incluir no seu Cancioneiro Alegre. Aí faz uma breve apresentação do autor com a verve habitual, e que aproveito para transcrever:

Diogo de Macedo

É um dos bons poetas que esmalta o parlamento actual. São bastantes. Se se combinassem, poderiam dar o Diário das Câmaras em quintilhas, ou redigirem um lindo semanário intitulado A lyra de S. Bento, 10 reis, vale a pena. E outrosim ilustrarem o periódico com veras efígies dos Isócrates em grupos, e charadas e estudos sobre a língua para uso da casa. O snr. Macedo entra no parlamento com a fé robusta dos homens novos e com bom carcaz de adjectivos lancinantes.
Camilo Castelo Branco, in Cancioneiro Alegre.

Apresentado o poeta/deputado, eis o poema:

 

Ilusões

Ela, que eu não julgo feia,
possui a pupila azul
e dá sempre certa idéia
das filhas de John Buli.

Os bons pintores de França
coloriram-lhe o cabelo…
Que trança de ouro! que trança
se os seios não fossem gelo!

Seduz quando se lhe vê
do colo a brancura, e enfim
tem de alvos lirios o pé
e a mão é como um jasmim.

Ninguém no mundo presuma
sonhar beldade maior;
nasceu num lençol d’espuma
depois de um sonho de amor.

É pena ter, como a face,
o seio desfeito em neve:
por mais que à porta se passe
a sorrir jamais se atreve!

Esbanjei tempos imensos
no fervor de remirá-la
e, apesar dos meus incensos,
nunca chegámos à fala.

Por fim mais me aproximei
um dia pelo sol posto
e então com pasmo notei
que era pintura o seu rosto.

Fez-lhe o vestido a Férin
de um estofo um pouco espesso,
mas logo vi muito bem
uma boneca de gesso.

Uma boneca de sala,
inerte, desanimada,
sem luz, sem vida, sem fala,
uma boneca e mais nada!

 

Diogo Macedo, com poesias dispersas por jornais e revistas da época, e hoje perdidas, publicou em livro Noites d’Ocio, 1866, e terá publicado outro livro, em edição particular, Sonetos de um devoto das mudas, em final de vida. Encontro em Noites d’Ocio alguns poemas de fina ironia e escorreita versificação. Transcrevo uma escolha:

Começo com um auto-retrato:

 

O meu retrato

Nem alegre, nem triste em demasia,
Um pouco à folga*, um pouco ao ócio dado;
Amigo do dinheiro e apaixonado
Da mulher que o amor no peito cria;
Bom filho, bom irmão, e amigo e amante,
Fiel ao rei, fiel à pátria amada:
É assim que sou eu — pobre estudante,
Poeta em embrião, autor de … nada!

* brincadeira

 

Moço, e estudante, não faltaria o sonho do sexo, evidentemente, e ei-lo, neste

Amor feliz

Quem, neste mundo, é mais feliz do que eu?
             Um teu sorriso
             É para mim
             O paraíso;
             Um olhar teu
             Dá-me sem fim
             Gozos do céu…
Só falta — para a ventura ser maior —
Deixares que te leve nos meus braços
E fugirmos, voando nos espaços,
        Ao céu do amor!

 

Não sendo esta necessidade consumada com a destinatária do sonho, ei-lo nos braços de uma Amélia, prostituta:

A Amélia

Não negues, lira d’amor,
Mais um canto ao Trovador,
Que o trovador vai cantar;
As cordas presto afinemos
E não te importe onde entremos,
Seja templo ou lupanar!

És tu, mulher desgraçada,
Que vais hoje ser cantada,
Que inspiras o canto meu;
Ouve, escuta o trovador,
E fica certa que o amor
Me tornou amante teu.

Para ti um dia olhei
E em teu peito divisei
Que pulsava um coração;
Consultei o meu, e logo
Vi que lhe lançaste fogo
Nascendo nele a paixão…

Que me importava saber
Quem és ou podias ser,
Se era amar-te o gosto meu?
Nem me importa o que se diz,
Só me importa ser feliz
Sendo agora o amante teu!…

E sou feliz, na verdade,
Que mulher, anjo ou deidade,
Com seus olhos e sorrisos
Me daria amores tantos,
Venturas de mil encantos,
Gozos de mil paraísos?

Seja templo ou lupanar,
Sempre aqui virei sagrar
Meu afecto mais profundo;
Despreze-te o mundo embora,
És e serás, desde agora,
Quem mais amo neste mundo…

E porque não devo amar-te?
Devo acaso desprezar-te
Em vez de estender-te a mão?
Não sei de virgem ou donzela
Mais do que tu meiga e bela,
De mais alto coração!

Mas cala, lira, o teu canto,
Que de Amélia um olhar de encanto
Fascinou o trovador.
Já não tem voz pra cantar;
Tem só coração pra amar;
Deixa-o nos braços do amor!

 

Termino com a a memória de Camões nas Endexas a Bárbara Escrava : Eu nunca vi rosa / em suaves molhos / que para meus olhos / fosse mais formosa / …, reflectidas de passagem no poema O amor-perfeito:

O amor-perfeito

Entre as flores, ela um dia,
Passeava no jardim;
Ora olhava para mim,
Ora de mim se escondia.

Tinha um ramalhete ao peito
Das flores as mais viçosas;
Eram um lírio e duas rosas,
Um cravo e um amor-perfeito.

“Como é belo o teu jardim!
— Lhe disse eu, baixando os olhos —
“Nunca vi, em suaves molhos,
Rosas, cravo ou lírio assim.”

Então ela do seu peito
Uma flor me ofereceu.
Qual delas? — pergunto eu —
Responde ela: O amor-perfeito.

 

E com este amor-perfeito vindo do coração se conclui a viagem pela poesia esquecida de mais um obscuro poeta oitocentista.

 

Nota bio-bibliográfica

Não existindo notícia na net do homem, socorro-me da Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira para deixar aqui alguns dados de biografia que completem o retrato pintado por Camilo, e acima transcrito.

Nasceu em Peso da Régua em 1844. Grave doença obrigou-o a abandonar os estudos em Coimbra. Recuperado, dedicou-se ao jornalismo e à literatura. Traduziu Corneille, Byron e Racine. Foi companheiro de Antero de Quental, João de Deus e Guerra Junqueiro, e deputado nas legislaturas de 1878 e 1879. Quando administrador do concelho de Peso da Régua, fundou o hospital D. Luís. Publicou, além da poesia referida no início, dois romances: Josefina, a Provinciana, e O Cristão Novo. Morreu em 1938.

Diogo de Macedo, Noites d’Ocio, Poesias, Porto, Typographia Portuense, 1866.
Cancioneiro Alegre de Poetas Portugueses e Brasileiros, 2 vol., 2.ªed., Livraria Internacional de Ernesto Chardron, 1887.

Acompanha o artigo a imagem de uma pintura de Henri Gervex (1852-1929), Rolla, de 1878, pertença da colecção do museu d’Orsay em Paris.

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