Esta semana deu-me para o desenfado. Acontece. Tenham paciência os leitores.
Folheio a biblioteca, passo os olhos nas edições libertinas francesas do século XVIII, completamente desadequadas para a austeridade dos leitores do blog apreciadores de metafísicas, e prossigo.
Nas leituras de acaso encontro, numa edição setecentista de Flores varias del Parnaso, dois epigramas espanhóis, anónimos, que ofereço a seguir em tradução. Talvez façam sorrir algum sisudo leitor.

 

 

Epigrama

Um distinto professor
Perguntou a um aluno:
— Diga: que tempo é amar?
— Amar é tempo perdido!
***

Tradução Carlos Mendonça Lopes

 

 

Epigrama

O maciço D. José
Que o pesassem dispôs.
E para o efeito se pôs
Sobre a balança, de pé.

O pesador, que era André,
Disse depois de um minuto:
— Quinze arrobas*. — Net ou bruto?
— Bruto, tal qual você é.
***
* uma arroba são 15kg.

Tradução Carlos Mendonça Lopes

 

 

Abre o artigo a imagem de um desenho/colagem de Erwin Blumenfeld (1897-1969), D. Juan casa-se.

D.Juan, esse herói espanhol criado por Tirso de Molina no séc. XVII, e sucessivamente reinterpretado pela cultura europeia, numa conjectura possível, seria quem transmitira ao aluno do epigrama a sábia afirmação: Amar é tempo perdido!.
No entanto, a crer na colagem de abertura, D. Juan casa-se, e talvez, envergonhado de atraiçoar a sua gloriosa memória, tendo engordado como inevitavelmente acontece a qualquer casado, se disfarce do D.José, cujo peso se avalia no segundo epigrama (o homem estava preocupado com a linha…).

Eu tinha avisado a abrir…

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