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Para recreio de alguns leitores que apreciam dar folga à transcendência, trago vez por outra, poesia de autores obscuros, uns, esquecidos e ilustres no seu tempo, outros.
Hoje uma ironia poética de António Feliciano de Castilho (1800 -1875), As Metamorfoses do Macaco.

No poema, António Feliciano de Castilho entretém-se, e nós com ele, a brincar com O Janota:


Mira-se, exulta. Só nota
Perfeições no todo seu.
Hoje chamam-lhe “janota”,
Bicho incógnito a Lineu.
(*)

 

Com elegância, para evitar o desprimor de alguns dos seus contemporâneos, A. F. Castilho evita um nome comum, chamando ao seu macaco janota, Jacó.

Servindo-se da sua proverbial mestria versificatória e rítmica, António Feliciano de Castilho dá-nos em quadras heptassilábicas de rima abab nunca repetida, uma pérola de graça e inocência satírica. Nele lemos uma caricatura acerba de quem se desgosta da sua pessoa e procura por todos os meios noutro se transformar.

Acrescento no final um pequeno glossário para elucidação de alguns vocábulos no poema que me pareceram de inteligência menos comum ao leitor de hoje, ainda que o seu significado decorra com facilidade da leitura.

 

 

As Metamorfoses do Macaco

Jacó, flor das raças monas
E aluno de um piemontês,
Fazia entre mil gaifonas
Coisas que o demo não fez.

Quanto via, arremedava
Por modo tão natural,
Que o piemontês lhe chamava
Daguerreótipo animal.

Se falasse assombraria;
Porém, mesmo sem falar,
Em toda a macacaria
Era um bichinho sem par.

Um dia em certa barraca
De uma feira, onde brilhou,
Com arte mais que velhaca,
Lustroso espelho empalmou.

Viu-se; pasmou. «Que diabo!
Pois eu tenho a cara assim?!
Ó bruxas, de mim dai cabo,
Ou condoei-vos de mim!

Machuchas mestras de tretas,
Se cabe em vós pio dó,
Deixai-me o dom das caretas,
No mais transformai Jacó.»

Bruxinha de génio gaio
Despachou-lhe a petição.
Eis, o mono, papagaio!
Eis nova consumição!

«O meu falar é mui rico!
Quanto às penas, guapo estou!
Mas este bico!… este bico!
Quem tal ratice inventou?!

Bruxa honrada! eu to aconselho,
Vá nova transformação.»
Diz: torna a encarar o espelho…
Vê-se estrelado pavão!

Espaneja-se garboso!
Ama-se; está como um dez.
Senão quando… ai, desditoso!
Repara… que horrendos pés!

Novo rogo impertinente:
«Por esta vez, e não mais»,
Diz a velha impaciente,
«Quero ceder aos teus ais.

Do que tu mesmo aprovaste
Nas três formas que te dei,
Para teu consolo baste,
Que esta final te armarei;

Terás as visagens ricas,
O papagaial palrar;
Do pavão as galas ricas…
Pegar no espelho! mirar!»

Mira-se, exulta. Só nota
Perfeições no todo seu.
Hoje chamam-lhe «janota»,
Bicho incógnito a Lineu.
(*)

 

(*) Glossário
Dez —Eestá como um dez: sente-se o máximo.
Empalmar — Furtar com destreza.
Gaifona — Trejeito.
Gaio — Alegre, Jovial, Folgazão.
Janota — Aqui usado no sentido de Peralta: indivíduo afectado nos modos ou trajes.
Lineu — Inventor da classificação das espécies vivas.
Machuchas — Diz-se de pessoas que têm influência.
Mono — Macaco.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Otto Dix (1891-1969), O negociante Max Roesberg, de 1922.

 

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