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Entendendo por erotismo poético um conceito difuso que fala do corpo e do abismo dos seus prazeres, — … / sede infinita, lava ao rubro, / em que morremos renascendo! — encontramos na poesia portuguesa do século XX uma abundante produção onde a linguagem velada, — … / fogo de desejo a tua face / trémula de querer-te a minha voz… / … — se não mesmo cifrada, é de obrigação nesta abordagem.
Um exemplo entre tantos é o poema Metafísica de Adolfo Casais Monteiro (1908-1972) que hoje transcrevo e antes citei.

Belo poema com estranho entendimento do amor fisico, chamando Metafísica (*) à sua explicitação:


Ou febre ou calma dum presente
em que os beijos não acabam
e as carícias reverdecem
em sucessivas primaveras!

por ele passa o ardor sem tempo do que faz arder as gentes: aceso coração da vida!

 

Metafísica

A sós contigo, em qualquer parte
nem meu nem teu só nosso o mundo,
aceso coração da vida!
Fiando um tempo indiferente
ao que fomos e seremos
fogo de desejo a tua face
trémula de querer-te a minha voz…l

Ou febre ou calma dum presente
em que os beijos não acabam
e as carícias reverdecem
em sucessivas primaveras!
Espuma de taça sempre cheia
num extinguir-se inextinguível,
sede infinita, lava ao rubro,
em que morremos renascendo!

in Simples Canção da Terra

 

(*) Metafísica segundo o Dicionário Oxford de Filosofia: qualquer investigação que levante questões sobre a realidade que estejam por detrás ou para além das que podem ser tratadas pelos métodos da ciência.

A propósito do título do poema, tendo em conta o conceito filosófico, faz-me relevar a implicação de que viver o amor físico é uma investigação; concordo. E que estes actos levantem questões além da ciência também não discordo. Mas há uma ciência precisa na sua prática, há quem lhe chame arte, e essa é muito conveniente aos participantes, e sem ela dificilmente os resultados serão satisfatórios.
Concluo: estamos perante uma investigação que é simultaneamente física e metafísica, daí a estranheza que assinalei ao título do poema.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Tom Wesselmann (1931-2004), Nude nº1 de 1970.

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