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Em dois sonetos brilhantemente transpostos para português por Manuel Bandeira (1886-1968), Elizabeth Barrett Browning (1806-1861), dá conta de como amar e ser amado, num amor total, sem mas nem porquês, atingindo Os fins do Ser, a Graça entressonhada:

 

Amo-te quanto em largo, alto e profundo
Minh’alma alcança quando, transportada,
Sente, alongando os olhos deste mundo,
Os fins do Ser, a Graça entressonhada.

 

E no outro soneto refere:

Ama-me por amor do amor, e assim
Me hás-de querer por toda a eternidade.

 

Nestes sonetos a contabilidade da relação amorosa é 100% de entrega e igual exigência recíproca. Onde o lugar para o eu individual? O espaço do indivíduo numa relação a dois?
Fará sentido desejar semelhante esmagamento de si nesta absoluta entrega ao outro?
Vejamos mais alguns passos deste concepção absoluta do amor:


Amo-te em cada dia, hora e segundo:
À luz do sol, na noite sossegada.
E é tão pura a paixão de que me inundo
Quanto o pudor dos que não pedem nada.

 

Na contrapartida, o deseje de ser amada surge assim:

 

Ama-me por amor do amor somente.
Não digas: “Amo-a pelo seu olhar,
O seu sorriso, o modo de falar
Honesto e brando. Amo-a porque se sente

Minh’alma em comunhão constantemente
Com a sua.” Porque pode mudar
Isso tudo, em si mesmo, ao perpassar
Do tempo, ou para ti unicamente.

 

É verdade que o amor baseado na aparência transitória do belo é naturalmente efémero, mas esperar uma entrega permanente e absoluta do outro independentemente de circunstancia, tempo, e lugar, pressupõe a anulação da sua individualidade.

Acredito que exista quem sonhe o amor assim. E até quem sinta a alma em comunhão constantemente com a do ser amado. Mas cedo ou tarde o eu reclama o seu lugar. A quem procurar viver um amor assim, às perguntas que deixei acima, a vida traz a resposta, e muitas vezes com dor.

 

Matéria de poesia sejam eles, os sonetos; contam as histórias literárias que o amor de Elizabeth Barrett Browning com Robert Browning (1812-1889) (com quem casou aos 40 anos) terá sido um amor assim. Como quer que seja, desejo ou realidade vivida, aí ficam os sonetos para fazer viajar almas sedentas de paixão.

 

I (sonnet 43)

Amo-te quanto em largo, alto e profundo
Minh’alma alcança quando, transportada,
Sente, alongando os olhos deste mundo,
Os fins do Ser, a Graça entressonhada.

Amo-te em cada dia, hora e segundo:
À luz do sol, na noite sossegada.
E é tão pura a paixão de que me inundo
Quanto o pudor dos que não pedem nada.

Amo-te com o doer das velhas penas;
Com sorrisos, com lágrimas de prece,
E a fé da minha infância, ingénua e forte.

Amo-te até nas coisas mais pequenas.
Por toda a vida. E, assim Deus o quisesse,
Ainda mais te amarei depois da morte.

 

 

IV (sonnet14)
Ama-me por amor do amor somente.
Não digas: “Amo-a pelo seu olhar,
O seu sorriso, o modo de falar
Honesto e brando. Amo-a porque se sente

Minh’alma em comunhão constantemente
Com a sua.” Porque pode mudar
Isso tudo, em si mesmo, ao perpassar
Do tempo, ou para ti unicamente.

Nem me ames pelo pranto que a bondade
De tuas mãos enxuga, pois se em mim
Secar, por teu conforto, esta vontade

De chorar, teu amor pode ter fim!
Ama-me por amor do amor, e assim
Me hás-de querer por toda a eternidade.

 

Traduções de Manuel Bandeira (4 sonetos de Elizabeth Barrett Browning)
in Manuel Bandeira, Estrela da Vida Inteira, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1993.

Sonnet 43

How do I love thee? Let me count the ways.
I love thee to the depth and breadth and height
My soul can reach, when feeling out of sight
For the ends of Being and ideal Grace.
I love thee to the level of every day’s
Most quiet need, by sun and candle-light.
I love thee freely, as men strive for Right.
I love thee purely, as they turn from Praise.
I love thee with the passion put to use
In my old griefs, and with my childhood’s faith.
I love thee with a love I seemed to lose
With my lost saints. — I love thee with the breath,
Smiles, tears, of all my life! — and, if God choose,
I shall but love thee better after death.

 

 

Sonnet 14

If thou must love me, let it be for nought   
Except for love’s sake only. Do not say
“I love her for her smile — her look — her way   
Of speaking gently,— for a trick of thought   
That falls in well with mine, and certes brought
A sense of pleasant ease on such a day”—   
For these things in themselves, Belovèd, may   
Be changed, or change for thee — and love, so wrought,   
May be unwrought so. Neither love me for   
Thine own dear pity’s wiping my cheeks dry, —
A creature might forget to weep, who bore   
Thy comfort long, and lose thy love thereby!   
But love me for love’s sake, that evermore   
Thou mayst love on, through love’s eternity.

 

Sonetos originais transcritos de Robert and Elizabeth Barrett Browning, Poems and Letters, Everyman’s Library, Londres, 2003.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma foto-montagem de Lázló Moholy-Nagy (1895-1946), intitulada Adeus. Foto-montagem narrativa, de 1924.

 

 

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