E de novo, mais um contributo para um cancioneiro do vinho que vou arquivando no blog.
Desta vez Charles Baudelaire (1821-1867) e um poema de Fleurs du Mal, L’âme du vin, que assim abre:

 

Nas garrafas cantou, uma noite, a alma do vinho:
“Homem, pra ti exalo, ó caro deserdado,
Nesta prisão de lacre vermelho e de vidro,
Um canto cheio de luz e de fraternidade!

 

Ao dar voz à alma do vinho já engarrafado, o poema, percorre o itinerário do vinho entre produzi-lo e bebê-lo:

Sobre a colina em fogo, sei quanto é preciso
De esforço, de suor e de sol bem ardente
Pra me engendrar a vida e me criar o espírito;

 

 

É um pouco o que Pablo Neruda fará um século mais tarde na sua Ode ao Vinho, de forma mais desenvolvida e ideologicamente não tão distante quanto isso, a qual em tempos transcrevi no blog, e que a segunda versão que transcrevo de L’âme du vin torna mais explícita:

 

“Ó homem querido deserdado”

Não penses que ignoro quanto trabalho suor e sol a pique
Foi preciso reunir nas colinas em chama
Para fazer de mim um daimon actuante —
Estou-te grato. Não te farei mal.

L’âme du vin integra em Fleurs du Mal um pequeno ciclo de cinco poemas, cada um abordando convívios e consequências diferentes com o vinho. Em A Alma do Vinho, a sua finalidade é confortar e alegrar o homem comum:

Porque imensa alegria sinto ao ir caindo
Na goela de um homem gasto plo trabalho
E o seu peito quente é um sepulcro suave
Que me agrada bem mais do que as adegas frias.

Não ouves ressoar os refrãos domingueiros
E no meu peito ansioso a esperança a gorjear?
Cotovelos na mesa e manga arregaçada,
Irás glorificar-me e estarás satisfeito;

 

 

No passo final do poema vem a dimensão mística do vinho ao qual cabe inspirar no poeta composições dignas da divindade:

Sou uma ambrosia vegetal, eu sei.
Uma semente preciosa lançada pelo Semeador
Em ti cairei para que do nosso enlace nasça a flor rara do poema —
Falarás, de igual para igual, com esse Criador.

 

Citei fragmentos das duas versões do poema que a seguir transcrevo. Uma, de Fernando Pinto do Amaral, tanto quanto possível próximo do original; outra, uma reinterpretação do poema por Maria Gabriela Llansol, dando dele em português uma belíssima versão. Seguem ambas na íntegra rematadas pelo poema original.

A Alma do Vinho

Nas garrafas cantou, uma noite, a alma do vinho:
“Homem, pra ti exalo, ó caro deserdado,
Nesta prisão de lacre vermelho e de vidro,
Um canto cheio de luz e de fraternidade!

“Sobre a colina em fogo, sei quanto é preciso
De esforço, de suor e de sol bem ardente
Pra me engendrar a vida e me criar o espírito;
Porém, não quero ser ingrato ou malevolente,

“Porque imensa alegria sinto ao ir caindo
Na goela de um homem gasto plo trabalho
E o seu peito quente é um sepulcro suave
Que me agrada bem mais do que as adegas frias.

“Não ouves ressoar os refrãos domingueiros
E no meu peito ansioso a esperança a gorjear?
Cotovelos na mesa e manga arregaçada,
Irás glorificar-me e estarás satisfeito;

“Da tua esposa encantada acenderei os olhos;
Devolverei a força e as cores ao teu filho
E serei pra tão frágil atleta da vida
O óleo que enrijece aos lutadores os músculos.

“Em ti hei-de cair, vegetal ambrosia,
Precioso grão que sempre o eterno Semeador
Lança, pra que do nosso amor nasça a poesia
Que brotará pra Deus como uma rara flor!”

 

Tradução de Fernando Pinto do Amaral
in Baudelaire, As Flores do Mal, Assírio & Alvim, Lisboa, 1992.

 

 

O Daimon do Vinho

“Ó homem querido deserdado”
Cantava pela tarde o daimon do vinho nas garrafas
“Da minha prisão de vidro e de lacre
Te envio uma canção de luz e de fraternidade;
Não penses que ignoro quanto trabalho suor e sol a pique
Foi preciso reunir nas colinas em chama
Para fazer de mim um daimon actuante —
Estou-te grato. Não te farei mal.
É imensa a alegria que sinto
Quando deslizo pelas goelas do trabalhador cansado,
O seu peito quente é uma jazida muito mais do meu agrado
De que as caves frias onde me conservo.

Não ouves as canções de domingo passando de boca em boca
E a esperança que chilreia no meu seio palpitante?
De cotovelos na mesa e de mangas arregaçadas
Teu júbilo crescente à minha gloria canta.

Darei luz aos olhos da tua mulher rediviva
A teu filho, força e cores vitais — serei para esse frágil atleta da vida
O óleo que endurece seus músculos de lutador.

Sou uma ambrosia vegetal, eu sei.
Uma semente preciosa lançada pelo Semeador
Em ti cairei para que do nosso enlace nasça a flor rara do poema —
Falarás, de igual para igual, com esse Criador.

 

Versão de Maria Gabriela Llansol
in Charles Baudelaire, As Flores do Mal, Relógio d’Água, Lisboa, 2003.

 

 

Poema original

 

 

L’âme du vin

Un soir, l’âme du vin chantait dans les bouteilles :
« Homme, vers toi je pousse, ô cher déshérité,
Sous ma prison de verre et mes cires vermeilles,
Un chant plein de lumière et de fraternité !

Je sais combien il faut, sur la colline en flamme,
De peine, de sueur et de soleil cuisant
Pour engendrer ma vie et pour me donner l’âme ;
Mais je ne serai point ingrat ni malfaisant,

Car j’éprouve une joie immense quand je tombe
Dans le gosier d’un homme usé par ses travaux,
Et sa chaude poitrine est une douce tombe
Où je me plais bien mieux que dans mes froids caveaux.

Entends-tu retentir les refrains des dimanches
Et l’espoir qui gazouille en mon sein palpitant ?
Les coudes sur la table et retroussant tes manches,
Tu me glorifieras et tu seras content ;

J’allumerai les yeux de ta femme ravie ;
A ton fils je rendrai sa force et ses couleurs
Et serai pour ce frêle athlète de la vie
L’huile qui raffermit les muscles des lutteurs.

En toi je tomberai, végétale ambroisie,
Grain précieux jeté par l’éternel Semeur,
Pour que de notre amour naisse la poésie
Qui jaillira vers Dieu comme une rare fleur ! »

 

Charles Baudelaire, Les Fleurs du Mal, 1857.

 

 

Depois de tão veemente e certeira glorificação do vinho talvez se imponha alguma reflexão filosófica. Sendo eu um moderado bebedor: limito-me habitualmente a um copo de vinho à refeição, esforço-me por ter presente a máxima de Epicuro (341a.C. – ~270 a.C.):
Nenhum prazer é em si mesmo mau. Contudo, as coisas que produzem alguns prazeres trazem consigo perturbações que são muito maiores que os prazeres.*

Esta máxima que levou à danação dos epicuristas, transparece em Montaigne (1533-1592) em várias reflexões nos seus ensaios. No segundo ensaio do seu livro II de Ensaios, Sur l’Ivrognerie, desenvolve o filósofo interessantes considerações não tanto sobre embriaguês ocasional, mas espraiando-se sobre as vantagens da temperança, tem em conta a expressão de Plinio o Velho (23-79)in vino vertias,  in aqua sanitasa verdade está no vinho, na água está a saúde. Aproveita o filósofo para deambular sobre o vinho e os seus efeitos conforme a idade. Como que conversando com os autores greco-latinos, o ensaio é um saboroso percurso de erudição e reflexão. Aqui fica a nota.
Deixemos para outra ocasião o casamento entre vinho e volúpia para não desautorizar tão séria meditação.

* Epicuro, Cartas, Máximas e Sentenças, tradução de Gabriela Baião, Edições Sílabo,
Lisboa, 2009.

Acompanham o artigo três iluminuras do manuscrito medieval Codex Vindobonensis, series nova 2644 conservado na Biblioteca Nacional da Áustria. Mostram elas a apanha da uva e feitura do vinho, a refeição de quem trabalha e com pão e vinho para ganhar forças, e ainda, a abrir, o caminho para a embriaguês de um bebedor ocioso e solitário. Este Codex dá conta em 206 deliciosas iluminuras, de uma arte de viver na Idade Média por vezes surpreendente no registo de um como fazer campestre tão presente ainda nas sociedades rurais.

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