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Escrever poesia tem como pontos de partida e chegada uma utilização virtuosa da língua, facto que hoje ilustro com dois poemas de Fernando Pessoa (1888-1935) num fascinante exercício de criatividade poética.
Partindo de um verso com as mesmas palavras — Dormi. Sonhei. No informe labirinto — e — Dormi, sonhei. No informe labirinto — Pessoa constrói dois poemas de diferente análise emocional. Desde logo, na pontuação destes versos: num, a pausa do ponto final em Dormi. seguido de Sonhei., identificando duas realidades específicas: dormir e sonhar; no outro verso Dormi, sonhei. separados por vírgula, mostrando um sonhar dormindo. E isso mesmo revelam os segundos versos de cada poema:

 

Dormi. Sonhei. No informe labirinto
Que há entre a vida e a morte me perdi.

 

Dormi, sonhei. No informe labirinto
Que há entre o mundo e o nada me perdi.

 

 

Se no primeiro poema citado, de 7/7/1930, é para o tempo de uma vida que o poeta remete, sendo este o informe labirinto que a percorre, no segundo poema, sem data, é o impalpável do sonho e o seu desnorte que envolve o narrador, aspectos que surgem clarificado nos restantes versos das primeiras quadras de cada poema:

 

Dormi. Sonhei. No informe labirinto
Que há entre a vida e a morte me perdi.
E o que, na vaga viagem, eu senti
Com exacta memória não o sinto.

 

Dormi, sonhei. No informe labirinto
Que há entre o mundo e o nada me perdi.
Em bosques de mim mesmo me embebi,
Misto indeciso do que vejo e sinto.

 

 

O primeiro poema termina com a consciência do engano das palavras na possibilidade de ganhar com elas o conhecimento de si:


Se quero achar-me em mim dizendo-o, minto.

 

No segundo poema, um soneto, há uma leitura menos taxativa do eu, remetendo o desenrolar do poema para a sua complexidade.

E assim, pela criatividade poética, o símil de um verso se desdobra numa multiplicidade de sentidos.

 

Eis os poemas na totalidade:

*
Dormi. Sonhei. No informe labirinto
Que há entre a vida e a morte me perdi.
E o que, na vaga viagem, eu senti
Com exacta memória não o sinto.

Se quero achar-me em mim dizendo-o, minto.
A vasta teia, estive-a e não a vi.
Obscuramente me desconcebi.
7-7-1930

 

 

**
Dormi, sonhei. No informe labirinto
Que há entre o mundo e o nada me perdi.
Em bosques de mim mesmo me embebi,
Misto indeciso do que vejo e sinto.

Estagno incorpóreo. No infiel recinto
Leio o transtorno do que nunca li,
E o labirinto nunca está em si,
Nem há mundo no incerto e abstracto plinto.

Minha alma é um ser que a verdade engana,
Memória da partida dos navios
Na praia que de espuma se engalana.

Não voltaram dos longes os sombrios
Barcos, e o luar mole deixa ver
A praia com a espuma a escurecer.
s/d

 

Poemas transcritos de Fernando Pessoa, Novas Poesias Inéditas, Ática, Lisboa, 1973.

Abre o artigo a imagem de uma obra de Roy Liechtenstein (1923-1997).

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