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Numa preciosa obra-prima, a novela As Batalhas no Deserto, o poeta mexicano José Emilio Pacheco (1939-2014) faz um exercício de memória dando conta de como nos anos 50 e mesmo inícios de 60 do século XX, se antecipava, por lá, e por cá, o ano 2000 e o século XXI:


Diziam os jornais: O mundo atravessa momento angustiante. O espectro da guerra final projecta-se no horizonte. O símbolo sombrio do nosso tempo é o cogumelo atómico. No entanto, havia esperança. Os nossos livros da escola afirmavam: Visto no mapa o México tem forma de cornucópia ou corno da abundância. Para o impensável ano 2000 augurava-se — sem especificar como íamos consegui-lo — um futuro de plenitude e bem-estar universais. Cidades limpas, sem injustiça, sem pobres, sem violência, sem engarrafamentos, sem lixo. Para cada família uma casa ultramoderna e aerodinâmica (palavras da época). Não faltaria nada a ninguém. As máquinas fariam todo o trabalho. Ruas repletas de árvores e fontes, cruzadas por veículos sem fumo nem barulho nem possibilidade de colisões. O paraíso na terra. A utopia por fim conquistada.

 

Sabemos hoje quanto esta fantasia se transformou na perplexa realidade que nos cerca um pouco por todo o mundo. Mudou o mundo, mudámos nós com ele. E de nós no mundo falam alguns dos poemas de José Emilio Pacheco  que a seguir ofereço em tradução minha.

 

 

O Amanhã

Aos vinte anos disseram-me: “Há
Que sacrificar-se pelo amanhã”.

E oferecemos a vida no altar
Do deus que nunca chega.

Gostaria de me encontrar já no final
Com os velhos mestres desse tempo.

Teriam que dizer-me se de verdade
Todo o horror de hoje era o amanhã.

 

Original publicado no livro Como la lluvia [2001-2008].

 

 

Houve a vida, e outros poemas em que o desacerto entre realidade e sonho ou promessa se debatem. Primeiro já com o século XX a terminar, a dúvida entre a realidade e a fidelidade da memória:

 

 

Memória

Não tomes muito a sério
O que te diz a memória.

Provavelmente essa tarde não existiu,
Talvez tudo tenha sido auto-engano.
A grande paixão só existiu no teu desejo.

Quem te diz que não são ficções o que te contas
Para alongar o adiamento do fim
E sugerir que tudo isto
Teve ao menos algum sentido.

 

Original publicado em La arena errante [1992-1998].

 

 

Depois o confronto entre o indivíduo que sonhámos ser, e o homem que na vida se fez, com aquele belíssimo verso que escolhi para título do artigo — O que parte não volta ainda que regresse. — admirável formulação de quanto o passar do tempo nos modifica:

 

Aquele outro

Hoje veio ver-me o que não fui:
Aquele outro
Já para sempre não existência pura,
Ardil verbal para fôra,
Forma atenuada de dizer não fui.

Agora o entendo:
Quem não fui triunfou,
A realidade não o manchou, não teve
Que adaptar-se à eterna sordidez.
Jamais capitulou ou vendeu a alma
Por uma onça de sobrevivência.

O que não fui foi-se como se nada.
Já nunca voltará, já é impossível.

O que parte não volta ainda que regresse.

 

Original publicado em La edad de las tinieblas [2009].

 

 

No intervalo deste tempo entre dúvidas de memória e certezas de vida, esteve sempre a frieza da morte que tudo ronda ou:


Quem sabe se interpreto mal:
É compaixão
O que mostram estas caras lívidas.

 

 

Embora pareça circunscrito a um povo, o poema Moralidades é de toda a humanidade: a morte dos outros obriga sempre a olharmos quem somos, seja na compunção, no sentir a tragédia, ou na indiferença:

 

 

Moralidades

O nosso povo pratica a moral
E faz de cada acto uma lição ética.

Aqui nunca enterramos os mortos.
Deixamo-los apodrecer na praça pública

Para que esta humilhação final
Nos obrigue a olharmo-nos como somos.

 

Original publicado no livro Como la lluvia [2001-2008].

 

 

Falar da morte é sempre falar de nós e das interrogações que nos assaltam. Termino esta curta viagem com esse enigma:

 

 

Morgue

Não faz calor neste anexo do inferno.

Os mortos regressaram à idade do gelo.

Talvez se os deixássemos aqui
Se tornassem imortais.

Horror a vida desde o iglô da morte.

Para isto nascemos?,
Perguntamo-nos
Ao profanar a morgue com nossos olhos
E ver
Um gesto de reprovação nos cadáveres.

Quem sabe se interpreto mal:
É compaixão
O que mostram estas caras lívidas.

 

Original publicado no livro Como la lluvia [2001-2008].

 

 

Originais lidos em Tarde o Temprano [Poemas 1958-2009], Tusquets Editores, Barcelona, 2010.
Tradução dos poemas por Carlos Mendonça Lopes.
Novela As Batalhas no Deserto, Oficina do livro, Cruz Quebrada —Dafundo, 2006.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma fotografia de Loretta Lux (1969), fotógrafa alemã nascida na antiga Alemanha de Leste. Como sabemos, país desaparecido, onde o paraíso na terra, ou algo próximo, chegou a ser declarado.

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