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É numa aproximação à luminosidade do amor que Miguel Hernández (1910-1942), no poema [Yo no quiero más luz que tu cuerpo ante el mío] dá conta do fulgor da paixão.
Luz que simultaneamente ilumina e cega, o poeta conta-o de forma superlativa:

En mi sangre, fielmente por tu cuerpo abrasada, / para siempre es de noche: para siempre es de día.

 

Os lugares comuns do enunciado da paixão de todos conhecidos, ainda que não experimentados, surgem enunciados neste poema numa linguagem poética peculiar, onde a luz inunda a escrita, transmitindo ao leitor o deslumbramento desse abismo que a paixão é:

No hay más luz que tu cuerpo, no hay más sol: todo ocaso.

 

 

É este um poema singular na obra do poeta de curta vida, mais focada numa crítica do mundo e das suas injustiças que  nos abalos da paixão.

 

 

Embora o poema original seja de fácil leitura em português, deixo aos leitores uma tradução minha, que eventualmente elucidará uma ou outra dificuldade.

 

 

Poema

Yo no quiero más luz que tu cuerpo ante el mío:
claridad absoluta, transparencia redonda.
Limpidez cuya entraña*, como el fondo del río,
con el tiempo se afirma, con la sangre se ahonda.

¿Qué lucientes materias duraderas te han hecho,
corazón de alborada, carnación matutina?
Yo no quiero más día que el que exhala tu pecho.
Tu sangre es la mañana que jamás se termina.

No hay más luz que tu cuerpo, no hay más sol: todo ocaso.
Ya no veo las cosas a otra luz que tu frente.
La otra luz es fantasma, nada más, de tu paso.
Tu insondable mirada nunca gira al poniente.

Claridad sin posible declinar. Suma esencia
del fulgor que ni cede ni abandona la cumbre.
Juventud. Limpidez. Claridad. Transparencia
acercando los astros más lejanos de lumbre.

Claro cuerpo moreno de calor fecundante.
Hierba negra el origen: hierba negra las sienes.
Trago negro los ojos, la mirada distante.
Día azul. Noche clara. Sombra clara que vienes.

Yo no quiero más luz que tu sombra dorada
donde brotan anillos de una hierba sombría.
En mi sangre, fielmente por tu cuerpo abrasada,
para siempre es de noche: para siempre es de día.

Poema /Tradução

Eu não quero mais luz que teu corpo ante o meu:
claridade absoluta, transparência redonda.
Limpidez cujo coração*, como o fundo do rio,
com o tempo se afirma, com o sangue se funde.

Que luzentes, duradoras matérias te fizeram,
coração de alvorada, carnação matutina?
Eu não quero mais dia que o que exala o teu peito.
Teu sangue é a manhã que jamais se termina.

Não há mais luz que teu corpo, não há mais sol: tudo ocaso.
Já não vejo as coisas a outra luz que a tua.
A outra luz é fantasma, nada mais, da tua passagem.
Teu insondável olhar nunca se volta a poente.

Claridade sem possível declínio. Suma essência
do fulgor que não cede nem abandona o cume.
Juventude. Limpidez. Claridade. Transparência
aproximando os astros mais distantes de luz.

Claro corpo moreno de calor fecundante.
Erva negra a origem: erva negra os templos.
Andorinha preta, o olhar distante.
Dia azul. Noite clara. Sombra clara que vens.

Eu não quero mais luz que tua sombra dourada
donde brotam anéis de uma erva sombria.
No meu sangue, fielmente por teu corpo abrasado,
para sempre é de noite: para sempre é de dia.

Tradução Carlos Mendonça Lopes

Poema original transcrito de Miguel Hernández, Antología, Editorial Losada, Buenos Aires, 1960.

* No verso 3 surge a palavra entraña, a qual, numa recente edição (2010) da Espasa Libros, na prestigiosa colecção Austral: Antologia Poética, edição comemorativa; escreve neste verso a palavra extraña. Porque penso que o poeta se refere ao coração, escrevi a versão da edição mais antiga da Editorial Losada de Buenos Aires.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Gerhard Richter (1932), Nu descendo as escadas, de 1966.
Para o que ao artigo importa, a mulher, comum, e não de uma beleza ideal, desce das alturas do escuro de uma vida sem amor, para a proximidade de quem a espera e deseja, ainda na difusa forma dos sonhos, caminhando para a luz da realidade de quem deseja.

 

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