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Entre o que julgámos querer ser e fazer, e o que a realidade nos mostra que concretizámos, vai o abismo que a vida vivida cavou. Quase sempre os sonhos de acção e aventura terminam no desejo irreprimível de sossego e conforto:


Pois é assim: a minha Alma / Outrora a sonhar de Rússias,
Espapaçou-se de calma, /  E hoje sonha só pelúcias.

 

Este conflito entre acção desejada e vida de monotonia referido por Mário de Sá Carneiro (1890-1916) no poema Serradura, cedo ou tarde atravessa os leitores de qualquer época. Poucos conseguem fazer o balanço do seu viver e concluir por um acerto entre o desejado e o feito.

Uma sensação de desacerto entre o indivíduo e a vida que lhe foi dado viver atravessa a poesia de Mário de Sá Carneiro e nos poemas Serradura e Cinco Horas encontramos exemplo eloquente:

 

A minha vida sentou-se
E não há quem a levante,

E ei-la, a mona, lá está,
Estendida, a perna traçada,
No infindável sofá
Da minha Alma estofada.

 

Isto diz a abrir o poema Serradura, para, no poema Cinco Horas, a certa altura referir:

… / Nos cafés espero a vida / Que nunca vem ter comigo: / …

 

Na letra destes poemas não encontramos densidade de reflexões a propósito do que acima referi, mas é antes na trivialidade dos seus relatos que elas se escondem.

Serradura, poema variadamente colorido de acção hipotética, revela na sua ironia mordaz, a impotência do indivíduo no discernir do que na vida melhor se lhe ajusta:

 

Serradura

A minha vida sentou-se
E não há quem a levante,
Que desde o Poente ao Levante
A minha vida fartou-se.

E ei-la, a mona, lá está,
Estendida, a perna traçada,
No infindável sofá
Da minha Alma estofada.

Pois é assim: a minha Alma
Outrora a sonhar de Rússias,
Espapaçou-se de calma,
E hoje sonha só pelúcias.

Vai aos Cafés, pede um bock,
Lê o “Matin” de castigo,
E não há nenhum remoque
Que a regresse ao Oiro antigo:

Dentro de mim é um fardo
Que não pesa, mas que maça:
O zumbido dum moscardo,
Ou comichão que não passa.

Folhetim da “Capital”
Pelo nosso Júlio Dantas —
Ou qualquer coisa entre tantas
Duma antipatia igual…

O raio já bebe vinho,
Coisa que nunca fazia,
E fuma o seu cigarrinho
Em plena burocracia!…

Qualquer dia, pela certa,
Quando eu mal me precate,
É capaz dum disparate,
Se encontra uma porta aberta…

Isto assim não pode ser…
Mas como achar um remédio?
— Pra acabar este intermédio
Lembrei-me de endoidecer:

O que era fácil — partindo
Os móveis do meu hotel,
Ou para a rua saindo
De barrete de papel

A gritar ”Viva a Alemanha”…
Mas a minha Alma, em verdade,
Não merece tal façanha,
Tal prova de lealdade…

Vou deixá-la — decidido —
No lavabo dum Café,
Como um anel esquecido.
É um fim mais raffiné.

 

(Nota à margem: serradura, pó de madeira, deitava-se à época no chão de cafés e tabernas modestos para absorver líquidos entornados e facilmente os varrer para o lixo.)

 

 

Em Cinco Horas, continuamos neste universo amargamente irónico da impotência de si, aqui trazendo a certa altura os outros, para revelar em cúmulo, a incapacidade perante uma vida de relação, cultivando o indivíduo tão só a atitude de espectador de si mesmo com os outros em fundo.

 

Cinco Horas

Minha mesa no Café,
Quero-lhe tanto… A garrida
Toda de pedra brunida
Que linda e fresca é!

Um sifão verde no meio
E, ao seu lado, a fosforeira
Diante ao meu copo cheio
Duma bebida ligeira.

(Eu bani sempre os licores
Que acho pouco ornamentais:
Os xaropes têm cores
Mais vivas e mais brutais.)

Sobre ela posso escrever
Os meu versos prateados,
Com estranheza dos criados
Que me olham sem perceber…

Sobre ela descanso os braços
Numa atitude alheada,
Buscando pelo ar os traços
Da minha vida passada.

Ou acendendo cigarros,
— Pois há um ano que fumo —
[Imaginando]* presumo
Os meus enredos bizarros.

(E se acaso em minha frente
Uma linda mulher brilha,
O fumo da cigarrilha
Vai beijá-la, claramente…)

Um novo freguês que entra
É novo actor no tablado,
Que o meu olhar fatigado
Nele outro enredo concentra.

E o carmim daquela boca
Que ao fundo descubro, triste,
Na minha ideia persiste
E nunca mais se desloca.

Cinge tais futilidades
A minha recordação,
E destes vislumbres são
As minhas maiores saudades…

(Que história de Oiro tão bela
Na minha vida [aportou]*:
Eu fui herói de novela
Que autor nenhum empregou…)

Nos cafés espero a vida
Que nunca vem ter comigo:
— Não me faz nenhum castigo,
Que o tempo passa em corrida.

Passar tempo é o meu fito,
Ideal que só me resta:
Pra mim não há melhor festa,
Nem mais nada acho bonito.

— Cafés da minha preguiça,
Sois hoje — que galardão! —
Todo o meu campo de acção
E toda minha cobiça.

 

* Ainda que as edições consultadas escrevam imaginário e abortou, a narrativa poética que caracteriza o poema leva-me a pensar que as palavras deveriam ser imaginando e aportou, sendo as palavras impressas ao longo de variadas edições, gralhas tipográficas que terão passado de edição em edição.

O poema apenas teve edição póstuma, tendo sido publicado pela primeira vez no livro Indícios de Oiro em 1937, também depois da morte de Fernando Pessoa, executor testamentário do poeta. Apenas a consulta do manuscrito original o permitirá esclarecer.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Otto Dix (1891-1969), Retrato da jornalista Sylvia von Harden.

 

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