Há simultaneamente uma transparência e mistério neste retrato de rapariga pintado pelo pintor holandês Ceasar Boëtius van Everdingen (1617-1678) em 1645-50, que nos transporta para o mistério do feminino.

O rosto enigmático que olha longe ou para dentro, é a parte essencial desse mistério, acentuado pela sombra que o chapéu faz cair sobre os olhos enquanto deixa ver em toda a luminosidade do dia, contra um diáfano céu azul, um corpo que se adivinha esplêndido sob o ligeiro drapeado do vestido.

Os braços semi-erguidos num hesitante gesto de oferenda, também ela inexplícita (serão as maçãs de Eva na taça/cesto?) contribuem para o enigma de toda a figura feminina e do seu propósito, fazendo crescer em quem vê o desejo de ir mais além no conhecimento de quem assim tão enigmaticamente se mostra, afinal o “MacGuffin” do jogo masculino/feminino.

O equilíbrio da paleta sem cores gritantes que se sobreponham à suavidade da envolvente, apenas discretamente insinuada, deixa todo espaço ao esplendor deste icónico feminino.

Retrato simultaneamente de pudor e estimulador do desejo, é mais um dos extraordinários retratos que transcendem a circunstância da sua feitura, e continuamente nos interpelam: porque gosto de o olhar?

O retrato pertence à colecção do Rijksmuseum de Amsterdão. Costumava estar numa pequena sala rodeado de algumas outras pinturas irrelevantes e sem as multidões que afogam os  Vermeer. Infelizmente em 2017 tinha sido retirado de exposição. Oxalá já tenha retornado.

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