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No efémero de uma garrafa de vinho bebida entre amigos encontra o poeta norte-americano Carl Dennis (1939) o pretexto para reflectir sobre a amizade, a volatilidade do tempo, o valor das tradições cuidadosamente conservadas e transmitidas, o prazer das pequenas coisas como um passeio por ruas arborizadas, e quanto as questões existenciais não justificam os nadas que fazem a vida valer a pena.
Admirável poema, Bottle of Wine, dando na concisão da poesia esta panóplia de reflexões, e que procurei trazer para português na versão que segue:

 

 

Garrafa de vinho

Gosto de estacionar um pouco afastado da casa dos meus anfitriões
E andar com a garrafa de vinho pelas ruas arborizadas,
Antecipando o jantar com amigos que me espera.
Uma garrafa de vinho mostra não só que estou grato
Por ser incluído, mas ansioso para contribuir
E oferecer um presente que não sobreviva à noite,
Isso diz como ultrapassei a necessidade de transcendência
E fiz finalmente as pazes com viver o presente.
Em breve daremos as boas-vindas à noite com um brinde.
Em breve estaremos brindando em despedida
Com ela começa o caminho para o passado próximo
E depois o distante. Será que as casas por onde passo
Me consideram alguém prestes a desaparecer
No reino das sombras, enquanto elas permanecerão
De pé? Mas a garrafa que transporto mostra
como o passado pode melhorar o presente.
As uvas de que foi feito foram colhidas e prensadas
Há sete anos num vinhedo da Borgonha
Conforme costumes praticados há gerações
Pelo tempo em que estas casas se transformaram
De projectos e estimativas em tijolo e madeira.
A garrafa vai testemunhar que as tradições, uma vez honradas
Permanecerão, com perseverança, com orgulho.
E se o passado está presente esta noite, não está o futuro
Presente também no pensamento de que o ritual
Que ajudo a continuar será duradouro,
E apesar do que o mundo em redor possa alterar-se,
Os convivas ainda o realizarão em épocas futuras?
Espero sentir a sua presença em espírito
Sob estas árvores, mais tarde esta noite
Quando regressar ao meu carro de mãos vazias.

Tradução de Carlos Mendonça Lopes

O original do poema — Bottle of Wine — foi publicado na revista New Yorker, nº de 6 & 13 de Agosto 2018.

 

 

Poema original

 

Bottle of Wine

I like to park a few blocks from the house of my hosts
And walk with my bottle of wine the tree-lined streets,
Anticipating the dinner with friends that awaits me.
A bottle of wine showing not only that I’m grateful
To be included but that I’m eager to do my part,
To offer a gift that won’t survive the evening,
That says I’ve set aside the need for transcendence
And made my peace at last with living in time.
Soon we’ll welcome the evening with a toast.
Soon we’ll be toasting it in farewell
As it starts on its journey into the near past
And then the far. Do the houses I’m passing
Regard me as a creature about to vanish
Into the realm of shadow while they have resolved
To hold their ground? But the bottle I’m carrying
Shows how the past can enhance the present.
The grapes it was made from were plucked and pressed
Seven years ago in a vineyard in Burgundy
According to customs already in place for generations
By the time these houses moved from the realm
Of blueprints and estimates into brick and wood.
The bottle will testify that traditions once honored
Are being adhered to still, with patience, with pride.
And if the past is present this evening, isn’t the future
Present as well in the thought that the ritual
I’m helping to pass along will prove enduring,
That however much the world around it may alter,
Guests will still perform it in eras to come?
I hope I feel their presence in spirit
Under these trees later this evening
As I walk back to my car with empty hands

 

Poema transcrito da revista New Yorker, nº de 6 & 13 de Agosto 2018.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Giorgio Morandi (1890-1964).

 

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